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Camisolas Poveiras: Uma tradição cobiçada pela inovação (Vídeo)

VídeoA produção desta tradicional peça de vestuário continua a ter continuidade por um grupo de pessoas que "teima" em promover um dos ícones do concelho que depois de já ter desfilado nas passerelles da alta-costura tem agora despertado o interesse de alunos universitários

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Durante este mês de Novembro, os bordados e as malhas tradicionais, onde se inclui a Camisola Poveira, têm sido os temas centrais nas tardes das sextas-feiras do Museu Municipal da Póvoa de Varzim, numa iniciativa aberta à população onde a arte de tricotar um dos ícones do nosso concelho esteve acessível a toda a população.

Sob orientação da Cármen Flores, que acumula anos de experiência na pesquisa, preservação e divulgação da manufactura das tradicionais camisolas poveiras, formou-se um grupo que, num convívio pedagógico, dedilha entre conversas os motivos desta peça de vestuário, ligada intimamente aos usos e costumes piscatórios dos poveiros.

"Quando o Museu acabou de ser restaurado sugeri esta ideia de nos reunirmos neste espaço a ensinar, e também a apreender, um pouco da nossa tradição nas malhas e nos bordados, numa iniciativa aberta a toda a população", explicou Cármen Flores, garantindo que é uma forma de não deixar morrer uma das tradições do concelho.Depois de já ter orientado um curso de formação a desempregadas sobre a arte de tricotar e bordar as camisolas poveiras, Cármen Flores vê com agrado que o produto ainda continua ser muito acarinhado pelos poveiros mas também visto com potencial comercial.

"Ainda há uns anos fizemos uns trabalhos para o estilista Nuno Gama que usou as Camisolas em desfiles. Agora somos procuradas, cada vez mais, por estudantes universitários, dos cursos de design, com projectos para explorarem o potencial da Camisola Poveira", explicou Cármen Flores, acrescentando:

"Notamos que tem havido uma procura crescente destas peças para serem oferecidas, normalmente pelas gerações mais velhas aos mais novos, numa tentativa de manter a tradição e de deixar um testemunho do património local".Assim, nestes últimos meses, multiplicaram-se os pedidos de compra de camisolas poveiras, oriundos não só de Portugal, mas também de países como Áustria, França ou Canadá.Sendo uma peça que requer minúcia e aplicação, os preços destas peças de vestuário podem, num tamanho de adulto, disparar para 65 euros, cifrando-se nos 35 euros para os tamanhos de criança.

Questionada se seria rentável criar uma empresa ou cooperativa que se dedicasse apenas à produção das tradicionais camisolas poveiras, Cármen Flores afastou esse cenário: "Trata-se de trabalhos sazonais que surgem com muita irregularidade. Era impossível ter pessoas a receberem salários fixos para produzir estas peças".Assim, mantendo este tipo de iniciativas voluntárias e didáticas, quer no museu, turismo ou em feiras de artesanato, este grupo vai conseguindo manter viva a tradição da Camisola Poveira, com Cármen Flores a reunir, nestes anos, aquele que já deve ser o maior arquivo de sempre sobre as técnicas e motivos desta peça de vestuário.

"Exploramos os bordados tradicionais que já existiam. Tenho reunido no computador um arquivo que vou desenvolvendo com todos os motivos e desenhos que vão desde brasões, barcos, instrumentos marítimos, siglas ou animais".Ainda que mantendo os pressupostos tradicionais destas peças, este grupo tem também promovido algumas evoluções e modificações da Camisola Poveira, que vão ao encontro dos gostos dos "clientes" numa prova de que se pode manter e tradição não virando a cara à inovação.  

História da Camisola Poveira A Camisola Poveira, cuja origem remonta ao século XIX, era inicialmente uma simples peça de roupa de fio grosso de pura lã de ovelha, feita por artesãs de Azurara, no vizinho concelho de Vila do Conde. As mulheres dos pescadores poveiros adquiriam ali esse agasalho, apropriado para as condições de tempo frio na faina da pesca. Os pescadores mais velhos, a quem a idade não permitia já a saída para o mar, gravavam (bordavam) nessas camisolas os símbolos da sua vida: siglas e apetrechos marítimos.

Posteriormente, as mães, esposas e noivas dos pescadores passaram, elas próprias, a confeccionar as camisolas, tricotando-as em lã e fio acrílico, variando com apuro os bordados a ponto de cruz.

Os desenhos são previamente esquematizados em debuxos feitos em papel quadriculado, e têm invariavelmente como tema siglas, apetrechos de pesca, nomes ou alcunhas de famílias tradicionais poveiras, a coroa real, peixes e aves, etc.

Mercê desse trabalho, mais apurado, a camisola passou a integrar o trajo tradicional do pescador poveiro que o usava de forma representativa em cerimónias que contavam com a da presença de altas individualidades políticas e administrativas.