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Jornal do Algarve

"Andam a fazer contrabando de polvo em Santa Luzia"

Os pescadores da pequena pesca do concelho de Tavira estão desesperados com a concorrência desleal e ilegal. Dizem que estão cansados de alertar as autoridades e lamentam que a situação continue, à vista de toda a gente. Além de haver pescado que não vai à lota, estão a ser capturados polvos com tamanho inferior ao permitido por lei

Domingos Viegas

 

Os pescadores de Santa Luzia, cuja comunidade piscatória se dedica quase exclusivamente à pesca do polvo, denunciam que há embarcações a descarregar polvo fora da lota e a capturar grandes quantidades com dimensões muito inferiores ao permitido por lei.

Os pescadores daquela localidade do concelho de Tavira garantem que já denunciaram a situação às autoridades e mostram-se revoltados devido ao facto de estas "não agirem" e de continuarem a permitir que a situação se repita "quase diariamente" e "à vista de toda a gente".

"Em Tavira não há Brigada Fiscal, por isso, várias embarcações, que não pertencem à nossa comunidade, chegam aqui durante as tardes e ao sábado, quando a lota está fechada, e descarregam aos 50 e aos 60 quilos de polvo e, ainda por cima, com dimensões inferiores ao permitido por lei", garante, em declarações ao Jornal do Algarve, o presidente da Associação de Armadores e Pescadores de Tavira (APTAV), Leonardo Diogo.

O dirigente associativo explica que "há quem apanhe polvos com 400 ou 500 gramas" para "vender na 'candonga' a dois ou três euros o quilo", enquanto o polvo de 750 gramas [peso mínimo exigido por lei] é vendido na lota a sete ou a oito euros por quilo. Refira-se que no primeiro trimestre deste ano, o valor das capturas de polvo registado na lota de Santa Luzia baixou 57 por cento em relação a igual período do ano anterior.

Leonardo Diogo diz que aquela situação tem sido constantemente denunciada junto dos comandantes da Brigada Fiscal de Olhão e de Vila Real de Santo António, bem como junto da própria Docapesca, entre outras entidades, e lamenta que a ilegalidade continue. "É uma vergonha que continuem a trazer para terra polvo com aquela dimensão. Estão a destruir tudo e ninguém pensa no futuro", lamenta.

 

Pequena pesca quer ver menos covos e mais defeso

A APTAV tinha previsto reunir-se com o secretário de Estado das Pescas para denunciar, não só esta, mas também outras situações que, consideram os pescadores, estão a contribuir para a destruição dos stocks de polvo.

Entre as queixas estão uma portaria do passado mês de março, que passou a permitir a utilização do caranguejo como isco, o que contribuiu para um maior volume de capturas, bem como o facto de haver embarcações a pescar com "um número excessivo" de covos [utensílios usados para a captura de polvo e que vieram substituir os tradicionais alcatruzes]. A criação de um período de defeso obrigatório para a pesca do polvo é outra das exigências da pequena pesca.

Leonardo Diogo considera que a autorização para a utilização do caranguejo como isco ficou a dever-se "à recolha de 200 assinaturas levada a cabo através da associação Olhão Mar e da entrega das mesmas ao deputado Mendes Bota, que fez pressão junto do anterior secretário de Estado" para que a portaria fosse publicada. "Se não fosse isso, o caranguejo estaria proibido", frisa aquele dirigente associativo.

"São as embarcações que utilizam o caranguejo que pescam com 10 mil ou 12 mil covos, quando não deveriam usar mais de dois mil. Se trabalhassem só com cavala ou sardinha já não poderiam usar essa quantidade, porque não poderiam trabalhar com a mesma teia durante tantos dias consecutivos. E esse também é um dos motivos que contribui para que o polvo esteja cada vez mais escasso", alerta Leonardo Diogo.

Perante esta situação, o presidente da APAVT lança um autêntico grito de desespero: "Temos alertado as diversas entidades, para ver se alguém joga mão a isto, mas já não podemos fazer mais. Cada vez há menos polvo e a tendência é para continuar a diminuir. O futuro está comprometido e não sabemos onde é que isto vai chegar".

Em Santa Luzia, conhecida como a capital do polvo, a pesca daquele molusco cefalópode chegou a ser a atividade de quase toda a população. Há poucas décadas ainda havia mais de seis dezenas de embarcações no ativo. Atualmente são apenas pouco mais de duas dezenas de pequenos barcos, cada um com quatro ou cinco pescadores. A maior parte do produto pescado é vendida para Espanha.

(Mais informação em www.jornaldoalgarve.pt