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Gazeta das Caldas

Peregrino espanhol regressa a casa nove anos depois e passa pelas Caldas da Rainha

A pequena estatura, cansada e suja, de José António Garcia, esconde uma fé e vontade que já deu a volta ao mundo. Há nove anos que o peregrino espanhol saiu de sua casa, em Cadiz, para percorrer os locais de culto de todo o mundo em agradecimento à Virgem Maria, depois de ser o único sobrevivente de um barco que afundou ao largo da Holanda.

Gazeta das Caldas - Fátima Ferreira

A sua promessa acabou em Fátima, no dia 7 de Abril e, dois dias depois passou pelas Caldas da Rainha rumo a Faro, para depois, finalmente, regressar a casa, no sul de Espanha e conhecer os netos, de cinco e um anos de idade.

"Venho de Fátima, onde terminei a promessa e volto para casa, em Cadiz". A promessa de que José António Garcia fala começou há nove anos e levou-o a percorrer todos os santuários de diversas religiões do planeta a pé ou de bicicleta.

Pescador na Noruega, este espanhol foi o único sobrevivente do naufrágio que vitimou 16 dos seus colegas. "Estive nove horas flutuando entre os cadáveres até que me resgataram", lembra José António Garcia, que prometeu à Virgem que, se saísse dali vivo, percorreria o mundo em peregrinação.

Depois de oito meses numa câmara hiperbárica e um ano de recuperação, em casa, começou a missão que abraçou. Percorreu um total de 96 mil quilómetros, por diversos países e aprendeu a falar mais quatro línguas: francês, inglês, alemão e italiano.

Como companhia possuía apenas uma mochila e uma bicicleta, que lhe roubaram há três semanas no Porto. Dentro dos bolsos do casaco andam várias cartas do peregrino que dão registo dos locais sagrados por onde passou, e que vão desde a Sibéria a África, passando pelo norte do Canadá, China, Israel ou Equador, entre muitos outros.

Quando questionado por onde passou, José António Garcia prefere responder por onde não passou: Austrália e Japão, onde não podia chegar a pé.

Durante todo este tempo de viagem o que de melhor lhe aconteceu foi passar oito minutos com o papa João Paulo II, em 2001, e conhecer Dalai Lama, em 2005. Do menos bom dá nota da recepção que teve por parte dos padres, dando mesmo como exemplo o que se passou em Fátima, em que não lhe deram uma refeição. "A única coisa que pedi à Igreja Católica foi comida, nunca pedi dinheiro", disse.

O pescador começou a sua peregrinação com as poupanças de uma vida, cerca de 36 mil euros. Mas já há algum tempo que o dinheiro se gastou e José António Garcia tem contado com a bondade das pessoas que vai encontrando e que o ajudam.

Na manhã de sexta-feira tinha no bolso apenas três euros, mas o reconhecimento na rua levou a que lhe oferecessem o pequeno-almoço e também dinheiro. Outros, reconhecem-no das reportagens que têm passado na televisão, mas "não falam comigo".

À noite dorme na tenda, que traz às costas e que monta onde consegue, pois há muito que deixou de ter dinheiro para ficar nos parques de campismo.

O ar cansado e sujo dão uma ideia errada da sua idade, 60 anos. Começou a peregrinação com 51 e conta que nunca passou mal nem teve doenças. Pelos vários sítios que percorreu teve que se adaptar. Comeu carne de gato e serpente e não teve problema nenhum. "Tinha que comer e comia de tudo", conta, adiantando ainda que gastou 38 pares de botas durante o percurso.

Apesar de não ter passado por situações complicadas, diz que os "países mais católicos são os menos praticantes". Nesta longa viagem encontrou-se a si próprio: "Diminui a fé na Igreja Católica mas aumentei a crença no ser humano".

Na semana passada José António Garcia ainda não sabia quando chegará a casa. Tudo iria depender se iria encontrar alguém para o ajudar para apanhar o autocarro rumo a Faro. Depois, a viagem seguia para Cadiz onde, finalmente, iria conhecer os seus dois netos, de cinco e um anos, cujo foto, enviada pela filha, guarda religiosamente entre os seus pertences.