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Gazeta das Caldas

Pedro Ribeiro - um cientista caldense no núcleo duro internacional da Física no CERN de Geneve

Com apenas 29 anos, Pedro Ribeiro tem um doutoramento em Física e é investigador num dos locais mais prestigiados do mundo para a comunidade científica - o Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (CERN), onde está instalado o acelerador de partículas que ainda na passada semana foi notícia por ter concluído com êxito uma importante experiência.

Gazeta das Caldas - Carlos Cipriano

Numa entrevista à Gazeta das Caldas, realizada através da internet, este caldense fala-nos do seu trabalho e da vida na Suíça, bem como das diferenças que observa entre aquele pais e Portugal, já que neste momento reparte a sua vida entre ambos.

Pedro Alexandre Quinaz Ribeiro nasceu em 1980 e estudou na Escola Secundária Raul Proença, tendo-se licenciado em Engenharia Física no Instituto Superior Técnico em Lisboa. O seu doutoramento, também realizado no Técnico, foi concluído com uma tese acerca do potencial de descoberta de dimensões espaciais suplementares (além das conhecidas - altura, largura e profundidade) da experiência Compact Muon Solenoid (CMS) do Large Hadron Collider (Grande Colisionador Hadrónico, LHC) do CERN. Daí o convite do seu professor de Física de Partículas, João Varela (que é o líder do grupo português que participa na experiência do CMS do CERN) para complementar a sua formação na Suíça.

É, pois, entre Genebra e Lisboa, onde investiga no Laboratório de Instrumentação e Física Experimental do Técnico, que Pedro Ribeiro se divide, a fim de realizar o seu pós-doutoramento.

Esta entrevista pode constituir um estímulo para os jovens que começam a estudar nas escolas das Caldas da Rainha e que depois podem encontrar no final da frequência dos cursos superiores alternativas de trabalho e de investigação em qualquer parte do mundo, por mais dif´cil que seja lá chegar.

GAZETA DAS CALDAS - De uma forma muito resumida, como explicaria aos leitores da Gazeta o que é o acelerador de partículas?

PEDRO RIBEIRO - O LHC (Large Hadron Collider) é uma máquina que acelera, armazena e colide feixes de protões (núcleos de átomos de hidrogénio). Está instalada perto de Genebra num anel subterrâneo de 27 quilómetros de perímetro, a cerca de 100 metros de profundidade, que atravessa a fronteira franco-suíça e opera a uma temperatura de 271,3 graus negativos. Os protões são acelerados até transportarem uma energia equivalente a 7000 vezes a sua massa em repouso e colidem entre si mil milhões de vezes por segundo. Do estudo destas colisões altamente energéticas esperam-se respostas para questões essenciais da Física que contribuam para um melhor entendimento das leis fundamentais da Natureza.

GC - Qual o objectivo final de tão sofisticado sistema? Poderá isso explicar a teoria do big bang (origem do universo)?

PR - Em termos de um "caderno de encargos" do LHC, o objectivo mínimo será compreender a origem da massa de duas partículas que são responsáveis pela interacção fraca que se manifesta, por exemplo, em fenómenos radioactivos. Estas partículas, o W e o Z, foram descobertas em 1983 no CERN. Foram previstas por uma teoria que é um elemento central do designado Modelo Padrão das Interacções Fundamentais, cujas previsões têm sido repetidamente comprovadas experimentalmente nos últimos 30 anos. Contudo, para que o Modelo Padrão fique completo, falta encontrar o mecanismo que explique por que é que a partícula responsável pela interacção electromagnética, o fotão, tem massa nula, enquanto o W e o Z têm massa da ordem de 100 vezes a massa de um protão. O mecanismo mais conhecido prevê a existência do bosão de Higgs, mas existem hipóteses alternativas.

Outros objectivos são compreender por que no Universo a matéria é muito mais abundante do que a antimatéria, qual é a origem da matéria escura, estudar um possível estado da matéria designado por plasma de quarks e gluões, e pesquisar a existência de dimensões suplementares no Universo.

O acelerador vai recriar condições a que a matéria estaria sujeita fracções de segundo após o "Big Bang". Poderemos conhecer melhor a evolução do Universo em períodos mais primitivos. De certo modo, recuamos mais um passo na escala de tempo cosmológico em direcção ao "Big Bang". Mas é minha opinião que uma compreensão definitiva da origem do Universo necessita de ferramentas teóricas e experimentais que a Física, apesar do seu enorme avanço no último século, ainda não dispõe.

GC - Qual a sua função no CERN?

PR - Sou membro da experiência CMS (Compact Muon Solenoid) do LHC. Analiso os dados das colisões. Através das características das partículas nucleares detectadas no estado final, até cerca de 100 produzidas por colisão, tento classificar e compreender a interacção fundamental que ocorreu durante a colisão a uma escala subnuclear. Se se encontrar indícios significativos de novas interacções, ter-se-á uma descoberta. Para além da Física de Partículas, as minhas ferramentas de base são a Estatística e a Programação.

"Não teria sido possível construir o LHC fora de uma colaboração internacional"

GC - Quais as vantagens de existir um projecto transnacional tão avançado financiado por tantos países? É uma excelente oportunidade para um jovem investigador originário de um país com uma investigação menos avançada nestas áreas?

PR - O LHC é um dos produtos mais recentes de um paradigma de fazer Ciência através de projectos de grande dimensão e complexidade. Este paradigma tem-se adaptado à envolvente sócio-económica e não teria sido possível construir o LHC fora de uma colaboração internacional.

Este projecto é, sem dúvida, uma excelente oportunidade para os jovens investigadores portugueses. Mas não só. Muitos jovens engenheiros trabalham em projectos de I&D [Investigação & Desenvolvimento] no CERN, por exemplo no âmbito de parcerias com a Agência de Inovação. A indústria nacional forneceu componentes para o projecto. Empresas lusas receberam prémios pela sua contribuição de excelência no desenvolvimento de componentes electrónicos.

O meu orientador de doutoramento coordena um consórcio exclusivamente português que integra cerca de 20 instituições e que desenvolveu um protótipo de um sistema PET para detecção precoce de cancro da mama. Na base do protótipo está a transferência de tecnologia das experiências do LHC para a área da Física Médica. Apesar de o LHC representar um grande investimento e o seu principal objectivo ser a Física Pura, existem retornos e contrapartidas imediatas e directas para os países financiadores.

GC - Quantas pessoas e de quantos países trabalham no CERN? Acha que a multiculturalidade é uma vantagem na investigação científica?

PR - O CERN emprega directamente 2600 físicos, engenheiros e técnicos. Adicionalmente, cerca de 8000 pessoas vinculadas a universidades ou instituições de investigação de 80 países colaboram com o CERN. Uma fracção destas trabalha diariamente no campus do CERN.

Em termos estritamente científicos, a multiculturalidade é sobretudo uma oportunidade de alargar a base de recrutamento e atrair as pessoas mais competentes e motivadas. Comunicamos essencialmente na mesma linguagem e partilhamos o mesmo método de trabalho. É verdade que é uma mais valia ter cabeças que pensam de maneira diferente. Contudo, não obstante a diversidade dos sistemas de ensino, considero que encontramos pessoas com perfis diferentes em todas as nacionalidades. Umas mais aptas a resolverem problemas abstractos, outras mais capazes de lidarem com problemas de engenharia. Outras que dominam várias competências. Onde se nota mais a multiculturalidade é na esfera social, em que se cruzam conhecimentos históricos, linguísticos, gastronómicos, etc.

GC - Como é viver numa cidade como Genebra? Quais as principais diferenças entre a Suíça e Portugal?

PR - Genebra é uma cidade média à escala europeia, mais pequena do que Lisboa. Contudo tem uma grande multiculturalidade. É sede de várias organizações internacionais e é um excelente sítio para conviver com pessoas de todo o mundo. Não tem metro, mas o serviço de autocarros é conveniente e eficiente. Não existem centros comerciais gigantes. Tem parques agradáveis, as ruas são limpas e há espaço para os peões. O custo de vida é elevado, nomeadamente na aquisição de serviços, mas a mão-de-obra é bem paga, mesmo a menos qualificada. Por exemplo, o custo de uma refeição num restaurante é relativamente elevado, mas o empregado de mesa ganha muito mais do que o salário mínimo português.

GC - De que é que tem mais saudades de Portugal quando passa semanas seguidas na Suíça?

PR - Da diversidade e qualidade do peixe fresco. Da temperatura amena do Inverno no início de um dia de trabalho. Da abundância da exposição solar.

GC - Quais as coisas que mais lhe agradam lá?

PR - A paisagem viçosa e verde dos campos agrícolas. A cobertura branca dos Alpes. O ordenamento do território e uma maior harmonia entre o verde e o betão. O proteccionismo do comércio em relação aos produtos agrícolas suíços. A participação cívica através de frequentes referendos locais.

GC - E do que gosta menos?

PR - O clima é severo no Inverno e no Verão ocorrem tempestades intensas. Talvez exista, por vezes, excesso de zelo e insensatez nalgumas regras. Será o senão de uma sociedade que enfatiza o valor da organização.

GC - Tem alguns contactos com a comunidade portuguesa na Suíça?

PR - Tenho contactos com a comunidade de estudantes e cientistas que trabalham no CERN e vivem perto da fronteira franco-suíça. São uma comunidade coesa e solidária, que facilita a adaptação dos recém-chegados.

GC - Como é a sua rotina num dia normal em Genebra?

PR - Geralmente assisto a reuniões da colaboração, apresentando e discutindo os resultados do meu trabalho. Discuto ideias em reuniões informais com peritos num determinado assunto. Para além do trabalho normal de análise, faço turnos no centro de controlo da experiência. E tenho oportunidade de conversar com pessoas interessantes de todo o mundo!

GC - A dois passos das estâncias de neve como é vida no Inverno dum cidadão com origem num país vizinho da Atlântico?

PR - Nunca arranjei disponibilidade para beneficiar da oportunidade de praticar desportos de Inverno. Muitos colegas e amigos meus praticam esqui ou stakeboarding. Existem clubes no CERN dedicados a essas actividades. De resto, quando os períodos de frio são muito prolongados ou a neve dificulta a viagem para o trabalho, é normal que alguns portugueses se queixem.

"A Ciência não tem nacionalidade"

GC - Com que frequência vem às Caldas da Rainha? O que aproveita para fazer nessas estadas?

PR - As minhas deslocações às Caldas são irregulares porque o epicentro da minha vida profissional, social, cultural e desportiva está em Lisboa. Normalmente vou uma vez por mês. Costumo passar o Natal e alguns dias de férias nas Caldas. Quando o tempo é adequado vou à praia da Foz ou passeio de bicicleta. Gosto de ir ao cinema e de assistir a alguns espectáculos no CCC.

GC - Que projectos tem para o futuro?

PR - Tenciono continuar na experiência CMS do LHC.

GC - Um cientista português para se realizar profissional está mesmo condenado a ir para o estrangeiro?

PR - Não é uma inevitabilidade. Depende muito da sua área de especialização, dos seus objectivos em termos de carreira e da sua personalidade. É verdade que, regra geral, é aconselhável que um cientista português faça pelo menos parte da sua formação no estrangeiro. No entanto, em Portugal tem-se efectuado uma normalização da Investigação Científica em relação ao quadro europeu. Existem no nosso país nichos de excelência científica.

É importante considerar que a Ciência não tem nacionalidade e historicamente o mercado de trabalho científico sempre foi dos mais globalizados. Por conseguinte, um cientista português pode precisar de ir para o estrangeiro por diversas razões. Porque na sua área não existe massa crítica suficiente e lá fora encontra melhores condições de trabalho e tem oportunidade de trabalhar com os melhores. Ou então porque em Portugal não consegue uma situação contratual razoavelmente estável, seja por escassez de recursos económicos ou porque em algumas instituições os jovens portugueses têm que competir efectivamente com jovens de outros países por uma melhor situação profissional.