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Gazeta das Caldas

Fotojornalistas trouxeram o quotidiano afegão até às Caldas da Rainha

A embaixadora do Canadá, Anne-Marie Bourcier participou na inauguração da exposição "Dois Olhares sobre o Afeganistão" que decorreu a 20 de Março, no Museu Barata Feyo.

Gazeta das Caldas - Natacha Narciso

A mostra inclui imagens de dois fotógrafos, um português (Ângelo Lucas) e outro canadiano (Roger Lemoyne), captadas no decorrer das suas permanências no Afeganistão.

Esta é uma iniciativa que une a Alliance Française em parceria com a Embaixada do Canadá e com a Câmara das Caldas.

"O Afeganistão é uma prioridade para a política externa dos dois países - Portugal e Canadá - pois somos ambos membros da NATO e trabalhamos para a melhoria de vida naquele país". Palavras da embaixadora do Canadá, Anne-Marie Bourcier, durante a inauguração da mostra que também serviu para assinalar, nas Caldas, o Dia da Francofonia.

A diplomata comentou que há fotografias dos dois repórteres fotográficos que

revelam "como é dura e difícil a vida naquele país", mas há também imagens de esperança como "as que mostram os papagaios de papel - reintroduzidos no período pós-talibãs - e que são um sinal de que a liberdade é possível e que um dia o país será capaz de tomar conta do seu próprio desenvolvimento".

Segundo Anne-Marie Bourcier há muito para fazer naquele país. O Canadá está a ajudar em várias áreas como, por exemplo, na reconstrução de algumas infra-estruturas, nomeadamnete escolas, barragens e ainda nos sectores agrícolas e de saúde.

Durante a estadia nas Caldas, a embaixadora teve a oportunidade de visitar o Museu de Cerâmica e o Museu da Fábrica Bordalo Pinheiro. "Foi muito bom conhecer melhor as Caldas", disse a diplomata que fez questão de mencionar que entre os canadianos de origem portuguesa "há 2600 que têm as suas raízes nas Caldas e que vivem actualmente próximo de Toronto". Segundo Anne-Marie Bourcier pertencem a uma comunidade que "está muito bem integrada e que contribui de forma positiva para a vida cultural, económica e social do Canadá".

Presente na inauguração esteve o fotojornalista português, Ângelo Lucas. Habituado aos cenários de guerra - já esteve nos Balcãs e no Médio Oriente - o repórter destacou que, nesta sua última estadia durante quatro meses no Afeganistão, o que mais o tocou foi "a vontade das pessoas em ter uma vida melhor apesar das condições terríveis em que vivem".

Este fotojornalista recordou que no Afeganistão a esperança média de vida é de 40 anos e que este é um pais que "possui a maior taxa de mortalidade infantil do mundo". Segundo o fotojornalista também não há saneamento básico nas cidades e nem tão pouco estradas alcatroadas.

Na maior parte do território "não há electricidade nem condições mínimas de sobrevivência. O Afeganistão está em penúltimo lugar no índice de desenvolvimento humano", disse o autor de metade das imagens desta mostra.

"Ser os olhos do mundo e com isso cativar boas vontades"

Ângelo Lucas destacou que no tempo dos talibãs a escola "destinava-se apenas aos rapazes e com o ensino era restrito à religião", disse. Hoje é aberto às raparigas e "apesar de não existir um lápis ou um caderno, há milhares de alunos muito interessados em aprender". E enquanto no Ocidente muitos estudantes faltam às aulas, naquele pais as crianças "correm com um enorme entusiasmo para a escola pois vêem-na como uma oportunidade única".

Uma das surpresas que encontrou foi o facto de o lançamento de papagaios de papel ser considerado como um desporto nacional. "Como eram proibidos na era talibã, hoje representam um símbolo da liberdade conquistada". E às sextas-feiras é vê-los aos milhares a encher os céus de Cabul.

Há também graves problemas sociais. O Afeganistão é o maior produtor de heroína e de ópio do mundo logo, o resultado são dois milhões de toxicodependentes. Infelizmente existe apenas "um instituto de prevenção e de recuperação que faz o que pode mas longe de suficiente. É um problema dramático", relatou o fotografo.

Segundo Ângelo Lucas, cerca de 70% da ajuda internacional "fica pelo caminho". E se há países que são pródigos como os alemães que apostam directamente na construção das infra-estruturas, há outros como os EUA que dão dinheiro, "caminho pouco aconselhável pois a corrupção é endémica e os salários muito baixos".

O olhar de Roger Lemoyne sob o quotidiano do Afeganistão é igualmente interessante. Há retratos das mulheres de burkas integrais ou de vários aspectos que a violência assume naquela sociedade. Seja numa aparente luta inofensiva entre crianças seja nas lutas de cães que os homens afegãos promovem.

Como se lida com uma realidade assim? Segundo Ângelo Lucas "o melhor possível...Com a convicção de cumprir uma missão, de ser os olhos do mundo e com isso talvez tentar cativar boas vontades...", comentou.

"Dois olhares sobre o Afeganistão" está patente no Museu Barata Feyo até ao dia 31 de Maio e segundo a organização irá contar com workshops para as escolas sobre o que é ser repórter de países em guerra.