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Gazeta das Caldas

Arlinda Ribeiro - a caldense-obidense que trocou o Oeste pelo Alentejo

Nasceu e estudou nas Caldas, viveu e trabalhou em Óbidos, mas depois decidiu viajar - aterrou em Bruxelas, mudou-se para Londres, fez uma incursão em Roma e acabou por criar raízes em Monsaraz onde explora uma restaurante de referência. Mas diz que divide a sua vida entre quatro locais: "Monsaraz, Sines, Óbidos e o sítio onde estou a trabalhar". Arlinda Ribeiro, 44 anos, conservadora-restauradora de profissão.

Gazeta das Caldas - Carlos Cipriano

"O Sem Fim foi feito com muito amor". A frase sai-lhe espontaneamente, num murmúrio, como se estivesse a falar consigo própria. Fala do restaurante que criou com o companheiro, Kalisvaart Gil, um holandês marinheiro que há 30 anos encalhou no Alentejo profundo e ali decidiu viver, procurando uma autenticidade - nas pessoas, nas coisas, na paisagem - que já não se encontrava nos países industrializadas.

Conheceram-se os dois em 1996 e apaixonaram-se. Ambos, um pelo outro, mas também pelo projecto que foi recuperar um antigo lagar azeite em Telheiros, no sopé da Monsaraz e transformá-lo num restaurante que tem tanto de invulgar como de acolhedor.

Choveu há pouco, o ar ficou límpido e o sol do fim de tarde ilumina a planície verdejante, recortada pelos espelhos de água prateados do braços do Guadiana. A barragem do Alqueva está à cota máxima e há água por todo o lado na paisagem em redor. Ilhas minúsculas, curvas do rio retorcidas e o verde, a relva a perder de vista... A Primavera no Alentejo é um espectáculo.

Na esplanada do Sem Fim algumas mesas são de xisto, pouco lisas para nelas se escrever e tirar apontamentos. Arlinda puxa de um cigarro e quer falar de Óbidos. Não gosta do que estão a fazer à sua terra, acha que nada "daquilo" é sustentável, que a vila não tem capacidade para acolher tantos e tão plastificados eventos, que não se está a conseguir manter nem a recuperar o que é autêntico.

Mas é preciso começar pelo princípio. Quem é Arlinda Ribeiro?

Nasci nas Caldas da Rainha em 1964. Vivi e cresci em Óbidos, mesmo ao pé da Biquinha. Mas também cresci e estudei nas Caldas. No antigo "liceu" (hoje Secundária Raul Proença) que nos anos oitenta ficava no Parque. Um sítio óptimo para se estudar, um espaço lindo e enorme para se passear entre as aulas, os cafés da Rua Camões ali mesmo ao lado.

Trabalhei no Departamento de Turismo e Cultura da Câmara de Óbidos entre 1980 e 1986, mas quando estava prestes a entrar no quadro resolvi partir. Fui para Bruxelas estudar Teatro, mas fiquei bege do cinzento daquela cidade. Parti para Roma e viajei pela Itália durante sete meses e depois voltei para Óbidos. Trabalhei em cenografia, colaborei com várias produções cinematográficas que então se fizeram na vila, até pensei que seria esse o meu futuro, mas em 1988 parti para Londres e desta vez fiquei sete anos fora. Foi lá que estudei conservação e restauro. Sempre tive uma ligação muito próxima com o património, Óbidos... está-me no sangue. Quando dei por mim era conservadora-restauradora. Em 1995 voltei para Portugal. Achei que se não voltasse nessa altura, não voltaria mais. Tinha saudades dos amigos e do Sol. E achei que era altura de pôr em prática os meus conhecimentos. Trabalhei no Museu Municipal de Óbidos e um dia, ao passear por Monsaraz, apaixonei-me e fiquei.

É nesta terra, um casario medieval no alto de uma grande colina, um património a descobrir carregado de autenticidade, que Arlinda redescobre parte do que diz ter-se perdido em Óbidos. Recupera o lagar de azeite e aventura-se, não no restauro, mas na restauração. O negócio do Sem Fim corre bem e acha piada à cozinha, às compras para as ementas, ao serviço de mesa.

Mas não deixa o património. Ali mesmo, em Monsaraz, recupera o fresco do Bom e Mau Juiz, e a Cuba. E é ela que fica responsável pela fiscalização dos trabalhos de restauro da Sé de Elvas e do Convento de Mafra. Actualmente, e numa sociedade que detém com mais cinco técnicos de restauro está a recuperar a Charola do Convento de Cristo (Tomar) e partirá em breve para a Madeira onde vai trabalhar na recuperação da capela do Colégio Jesuíta do Funchal.

"Divido a minha vida por quatro sítios - Monsaraz, Sines [onde também tem casa], Óbidos e o sítio onde estou a trabalhar". Esse quarto sítio tem sido Tomar. Agora vai ser o Funchal.

UM RESTAURANTE QUE É UM PONTO DE ENCONTRO

O regresso, contudo, será sempre ao Sem Fim. Este restaurante é uma instituição em Monsaraz. Um ponto de encontro alternativo e cosmopolita. Gil diz umas palavras em holandês para a cadela, que leva a passear pelo campo. Fala-se inglês num dos cantos, português com sotaque alentejano noutro, e um português afectado, alfacinha, num outro canto. A música é indiana e na mesa ao lado está um grupo de gregos.

"Não foi fácil. Há 14 anos este foi o primeiro restaurante a abrir no Telheiro, fora das muralhas de Monsaraz. Apesar de maravilhoso, o Alentejo é muito fechado. As pessoas são fechadas. É curioso porque o Alentejo é, tal como algumas zonas da França e da Inglaterra, uma das regiões do mundo há mais tempo habitadas, desde o Neolítico. E por isso tem uma força telúrica muito forte. As coisas aqui estão mantidas porque as pessoas cuidam delas, as pessoas gostam do património, valorizam-no".

Mas Arlinda tem receios. Teme pelo futuro daquilo que mais gosta: "entre Óbidos e Monsaraz qual terá o PIN [Projecto de Interesse Nacional] maior?".

E é agora que desbobina um conjunto de desabafos e críticas sobre a sua terra: "o património em Óbidos é apenas uma bandeira política porque, de facto, ali não acontece rigorosamente nada. O presidente da Câmara não mostrou até agora nenhuma sensibilidade para o património. O que faz é usar e abusar do que existe para os seus fins políticos. E o património está a ser usado e violado. Aquilo é uma história do Rei Vai Nu".

O seu primeiro trabalho na Inglaterra foi o restauro de um monumento que foi desmontado e transportado da Escócia para Londres. Mais tarde participa na recuperação das peças móveis que escaparam a um incêndio no castelo de Windsor. Estagiou no Victoria and Albert Museum e teve um bolsa para estudar restauro em Liverpool. Arlinda saberá do que fala, embora não puxe dos pergaminhos para criticar de forma acutilante a politica autárquica obidense.

"Tudo o que é feito em Óbidos não é tratado de forma séria, não há nada que seja respeitado. Tudo o que tem alguma verdade no sítio, está a ser mascarado, transformado numa caixa de bombons. O Telmo Faria - a quem reconheço uma enorme capacidade de trabalho - deveria cuidar primeiro do património, tanto móvel como do edificado, e também do património humano pois quase já não há obidenses a viver em Óbidos. Isto não é ser elitista, mas há eventos que não cabem ali. Todas as coisas podem ser feitas, mas há uma responsabilidade e um legado que não está de todo a ser cumprida. Aquilo é uma alegoria, é quase uma parada carnavalesca."

E desfia um rol de situações a precisar de intervenção: o aqueduto, o portal da igreja de Santa Maria onde chegaram a colar luzinhas de Natal na pedra que se está a desfazer, as peças do Museu Municipal que foram mudada para a Praça de Santa Maria e não tiveram qualquer tratamento.

Já a sua visão sobre as Caldas da Rainha a crítica não é tão directa: "Melhorou substancialmente desde os anos em que ali andei a estudar. As Caldas tem uma arquitectura arte-nova fantástica. É uma cidade bonita que se tem tornado muito feia. Infelizmente, as Caldas tem crescido sem critérios e as coisas bonitas que possui, estão a ser engolidas por aquilo que é feio".

Mas da cidade onde ainda costuma vir ao médico, fazer compras e visitar amigos, destaca o Museu Bernardo, "uma coisa muito caldense que é a sátira e a farsa, herdadas do Bordalo Pinheiro" e que agora são retomadas através de um projecto irreverente e irónico.

E é das Caldas que se fornecem alguns dos produtos consumidos no Sem Fim. Arlinda Ribeiro aproveita as suas vindas à Praça da Fruta para fazer compras para o seu restaurante de Monsaraz.

Um Sem Fim de boas ementas alentejanas...

Na ementa do restaurante-bar Sem Fim (www.sem-fim.com) destacam-se, naturalmente, as iguarias do Alentejo, com destaque para o Bacalhau d'azeite alhado, o Gaspacho com pataniscas, cação frito com migas de ovos, ensopado de borrego, Grelhados de porto preto no carvão e Poieada de coelho. Entre os pratos vegetarianos a oferta vai desde os espinafres com queijo aos salteados em azeite e gratinado de legumes. Nas sobremesas não poderia faltar a sericá com ameixa de Elvas, o requeijão com mel e as migas doces.

DIA INTERNACIONAL DOS MUSEUS E SÍTIOS NO Lagar SEM FIM

O Lagar de Azeite Sem Fim vai ser palco no próximo dia 18 de Abril de uma jornada do Dia Internacional dos Museus e Sítios. Será realizada das 15h00 às 18h00 uma sessão de conversas e estórias escolhidas naquele local sobre o património rural, entre os que mais constroem diariamente esse património e os que o estudam e investigam, contribuindo para a sua valorização e reconhecimento.

Participam nestas conversas Cláudio Torres (arqueólogo e primeiro Prémio Camões), José Aguiar (arquitecto), Aurora Carapinha (arquitecta), Maria Fernandes (arquitecta), Ana Paula Amendoeira (historiadora), Fino (hortelão), Rafael Alferim (arqueólogo), Luís Dias (artesão de materiais tradicionais de construção, tijolo burro, baldozas) e Maria da Conceição Lopes (arqueóloga).

Durante a manhã, pelas 9h30, haverá no Monte do Barrocal um encontro para visita aquele espaço a partir de uma reportagem do Diário de Notícias de 1927 e serão mostrados os detalhes de como funcionava o Monte no seu auge. Este Monte é um dos mais significativos exemplos da região das unidades de exploração agrícola do Sul, herdeiras da matriz romana que estão na base da paisagem cultural alentejana.

Às 10h30 haverá a festa da lã, numa instalação/performance no Pátio do Monte do Barrocal, em que será pisada e feltrada um têxtil ao som dos cantares femininos do Alentejo, numa festa colectiva em que todos são chamados a participar e que conta com o Grupo Coral Feminino de Viana do Alentejo.

O almoço decorrerá também no Monte do Barrocal, sendo posto em comum o que for levado para o piquenique, como sempre fizeram nas festas campestres agrícolas e rituais da região alentejana, onde podem comer pão do Baldio, queijo fresco de cabra da Corredoura de Monsaraz, vinho de Reguengos e tudo o mais que vier, como espargos e túberas, cilarcas e paios, bolos folhados da Páscoa, bolos fintos e licores de café e poejo.

A organização deste evento está a cargo do ICOMOS-Portugal, Direcção Regional da Cultura do Alentejo, Festival Escrita na Paisagem e ADIM.