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Ricky Martin renova-se e 'sai do armário'

Ricky Martin diz que a revelação da sua orientação sexual já podia ter acontecido há muito tempo, mas só agora lhe pareceu adequado

Chris Pizzello/AP

Ricky Martin 'sai do armário' e provoca debate nacional. Mesmo que seja notícia - novidade não parece ser -, qual vai ser o impacto desta nova afirmação masculina que saltou para a mesa das conversas americanas?

Rui Henriques Coimbra, em Los Angeles (www.expresso.pt)

Nem de propósito: o website oficial do cantor diz apenas que Ricky Martin está, de momento, a ser remodelado. O cantor de origem porto-riquenha veio a público dizer que é menos mulherengo do que os seus filmes musicais deixavam acreditar. É agora "um homossexual" bafejado pela sorte da vida, declarou ele num momento em que a carreira estava a precisar de propulsão. No blogue que publica regularmente, Ricky Martin, agora com 38 anos e pai de gémeos produzidos com assistência laboratorial, referiu que a revelação sexual já podia ter acontecido há muito tempo mas só agora lhe pareceu adequado. O ídolo da música encontra-se ocupado a escrever a sua biografia e foi por aí, acrescentou no texto divulgado através da Internet, que se tornaram insistentes as questões relacionadas com a verdade da sua pessoa.

Cultura homossexual em crescendo

A presença de líderes populares homossexuais é, actualmente, uma constante na cultura de massas americana. Ellen DeGeneres, uma actriz comediante que declarou a sua homossexualidade ao microfone e em prime time na comédia "Ellen", está quase a usurpar a coroa de Oprah Winfrey no domínio dos talk shows, sendo que Winfrey é outra que tem sido perseguida por boatos sexuais.

Neil Patrick Harris abriu a cerimónia dos Óscares. Lindsay Lohan ainda hoje manda twits amorosos à sua ex-namorada Samantha Ronson, lidos por milhares de fãs inabaláveis. E Chastity Bono, filha da cantora Cher, acabou de pedir ao tribunal que confirmassem a mudança genital com a devida alteração do nome próprio. Uma das franjas mais interssantes do debate tem sido a de perceber se os actos de revelação pública ajudam ou não os homossexuais que lutam pelos direitos civis. A nova visibilidade de Ricky Martin torna a homossexualidade mais visível, e por isso mais aceitável, ou afirma novamente a estranheza da condição?

Por outras palavras: 'sair do armário' é um acto de liberdade ou de rendição? Para muitos activistas a ideia de confessionalismo vai absolutamente contra a liberdade inata que um homossexual deve sentir. Para estes não há uma idade aconselhável para 'sair do armário', uma vez que, como fica confirmado por Ricky Martin, o problema está exactamente na existência desse tal espaço de refúgio inicial que nunca deveria ter sido fechado.

Fuga ao esquecimento

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Com uma carreira sólida, Ricky Martin mantinha atrás de si uma falange enorme de fãs

Com uma carreira sólida, Ricky Martin mantinha atrás de si uma falange enorme de fãs

Andres Leighton/AP

cantor tem uma importância mercantil subvalorizada. Ignorado pelos críticos e associado apenas a um tipo de festa hedonista, Ricky Martin parecia quase estar a ser atirado para o esquecimento antes de tempo, agora que o universo da música digital e os sons das novas tendências se aprestam a passar-lhe ao lado. Mas a importância do seu portefólio mantém-se.

Além de ter aberto as portas do mercado musical norte-americano a uma vaga avassaladora de novas vedetas de ascendância latina que, entretanto, se transformaram em autênticas máquinas talentosas de fazer dinheiro - Jennifer Lopez, Mark Anthony, Henrique Iglésias, Shakira -, Ricky Martin mantinha carreira sólida que trazia atrás de si uma falange enorme de fãs.

Embora a sua plateia fosse sobretudo feminina e gay, Ricky Martin conseguiu cruzar influências étnicas e deu origem a muita música dançável e romântica capaz de atrair os novos e os menos novos, hispânicos e brancos e asiáticos, urbanos ou tradicionais, numa faixa de território que abrangia não só toda a América Latina mas, como um fenómeno imparável, milhões de pessoas em todas as partes do planeta.

Sucesso histórico

Alto, bem parecido, com sangue aventuroso feito em partes iguais da Catalunha e da Córsega, Martin abanou o pélvis e deu ideia de que tinha chegado para repor a folia no corpo. O sucesso tem sido histórico.

Ricky Martin iniciou uma carreira a solo em 1991, quando a sua fama subiu em flecha com as baladas sobre a vida louca que alcançara e parecia aproveitar ao máximo

Ricky Martin iniciou uma carreira a solo em 1991, quando a sua fama subiu em flecha com as baladas sobre a vida louca que alcançara e parecia aproveitar ao máximo

John Riley/AP

Foi ele quem cantou o hino nacional da FIFA no Mundial de 1998, em França. O disco chegou ao 1.º lugar em muitos países. O mesmo já se tinha passado com os álbuns que fizera com o grupo Menudo, antes de seguir carreira a solo em 1991, quando a sua fama subiu em flecha com as baladas sobre a vida louca que, entretanto, alcançara e parecia aproveitar ao máximo.

Ricky gravou um dueto com Madonna. Cantou nos palcos da Broadway. Cobriu a casa com discos de platina obtidos na África do Sul, Grécia, EUA, México, Alemanha e um pouco por todo o lado.

Desconfortável com os boatos

Mas nas entrevistas cRicky Martin ontinuava a mostrar-se desconfortável quando vinham à baila os boatos sexuais. Ele negava. A questão parecia tão óbvia para toda a gente - menos para ele, que entretanto era sempre vistao a namorar raparigas que ajudavam a sua imagem nas tabelas de venda - que até Barbara Walters, a imperatriz da televisão americana, o posicionou entre a espada e a parede num confronto amigável que tiveram. Mais tarde ela veio confessar que a pressão inquisitorial tinha sido pouco elegante e cruel.

Este último aspecto devolve-nos ao que Ricky Martin acabou de desvendar: a sua sexualidade. Até que ponto é importante que o tenha feito? Uma vez que, fora ele mesmo, toda a gente parecia estar ciente dos factos, resta apenas saber do impacto comercial de tal decisão.

Aí temos apenas dois exemplos, nenhum deles realmente adequado. George Michael (que também ergueu carreira com a ajuda de uma masculinidade que agora parece mais ambicionada do que autêntica) e Elton John (mais poderoso e, por isso, mais seguro de si).

Tanto um como outro continuam a encher estádios. Elton John, aliás, consegue ter tempo para cantar em funerais de princesas e em musicais da Disney. A sua popularidade é mais global do que nunca. Há dias, a rainha do Reino Unido, Isabel II, reafirmou que Elton John podia ser muita coisa mas que, para ela, seria apenas Sir.