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À mesa com José Quitério

Bubbly: A surpresa do espumante

Os pratos, com vários ingredientes nacionais, correspondem àquilo a que se costuma chamar cozinha mediterrânica.

José Quitério (www.expresso.pt)

Estando no Largo Trindade Coelho (ou da Misericórdia, ou de São Roque), penetre-se no Bairro Alto, pedibus calcantibus, pela Travessa da Queimada. A seguir, não se corte à esquerda na primeira (Rua das Gáveas), nem na segunda (Rua do Norte), nem na terceira (Rua do Diário de Notícias), mas apenas na quarta (a última antes da Queimada desaguar na Rua da Atalaia), que responde por Rua da Barroca. Já nela, fica-se quase pelo início, não ultrapassando o primeiro quarteirão esquerdino, para encontrar o nº 106. O rigor obriga a dizer que, embora a descer, isto não é o princípio do arruamento (oficialmente começa lá mais para baixo, na Rua das Salgadeiras), mas sim o final - como é sabido, as portas são numeradas a partir do lado mais perto do Tejo.

Ora, no rés-do-chão desse nº106 reside o Restaurante Bubbly. Abriu em Dezembro de 2008, apenas com 20 lugares e a funcionar somente à noite, porém as coisas não devem ter corrido nada mal, pois no Verão que findou inaugurou mais uma salinha, duplicou a lotação e alargou-se aos almoços. O proprietário (com um sócio), gerente, criador do estilo restaurativo e responsável número um pelo que sai da cozinha, chama-se Paulo Belchior, tem larga experiência profissional e alta estatura de basquetebolista. O espaço divide-se então por duas salas maneirinhas, uma à disposição dos fumadores (há até um recanto independente para os puristas do charuto), qualquer delas de acolhedora modernidade minimalista e positiva sobriedade cromática a cargo de preto, cinzento, prateado e branco, com aparições de bordeaux, como nos chemins das (pequeninas) mesas.

Alberto Frias

A lista de comidas traduz-se numericamente em 7 Entradas, 6 Pasta e Risotti, 5 Peixes e Mariscos e 4 Carnes. Os pratos, com vários ingredientes nacionais, correspondem àquilo a que se costuma chamar cozinha mediterrânica.

As provas reportam-se a um almoço em 25/09 e um jantar em 29/09. Dois exemplares grandes, maviosamente trabalhados no "miolo de vieira em espetada de citronela sobre puré de funcho e azeite de ervas" (€13,80). "Camarão panado com amêndoas laminadas e manteiga de wasabi" (€11,50) também com alfaces e rúcula, as falhas de amêndoa, quais escamas, a fazerem de polme. No papelote prateado aberto, massa sem tripa de enchido capaz, acompanhamento em juliana, a "alheira de porco bísaro em papillote, com cebola roxa, pimentos, alho e louro" (€9,50). O melhor tratamento e acondicionamento possíveis para o passarito aviárico nos "peitinhos de codorniz selados com pingo de foie gras sobre escabeche de laranja, salada de pêra e noz" (€9,30). Com o queijo em abraço feliz ao crepe, a "trouxa de cogumelos frescos com queijo da Serra, salada de alfaces e rúcula" (€8,60).

A "posta de robalo no forno, arroz cremoso de algas e berbigão" (€18,20), armada ao jeito da catedral de Brasília, revelou-se em belo peixe e competente arroz marítimo. O mesmo em termos de qualidade no "filete de cherne com fricassé de berbigão, polenta de figo seco e legumes salteados" (€19,80), com o aviso de que a dita "polenta" mais parece uma fatia de broa. Também com couve lombarda e, salvo erro, "cèpes", o "risotto de alheira de caça" (€13,60) foi convincente.

Excelente realização culinária e combinatória no "coelho estufado em vinho e tomilho fresco, com favinhas guisadas, chalotas e nabos corados" (€16,80). Coroado por um cachozinho de groselhas, o "presuntinho de pato caramelizado com mel de funcho, feijão branco e cenoura salteados com ervas frescas" (€15,20) mostrou execução e ligação absolutamente vitoriosas.

Do quarteto de doces, tornou-se-me inesquecível a "pêra confitada em espumante com ameixa, figo e frutos secos" (€5,90), uma maravilha de dois (doce e fruta) em um. Na carta de vinhos, com datas e indicação de região e terra de origem, há nítida vocação para os borbulhantes (aliás, coerente com o nome do restaurante): 23 espumantes (6 são italianos e 3 espanhóis), 17 champanhes, 7 vinhos brancos (1 francês), 3 verdes brancos (2 Alvarinhos) e 27 tintos (6 estrangeiros). Serviço esclarecedor e simpático, protagonizado pelo viajado Nelson Correia.

Ainda por cima com este nome encanitante na opressiva língua imperial, foi uma grata surpresa a deste Bubbly de muito boa cozinha de atilada contemporaneidade. Que a espuma, aqui nada frívola, se mantenha perene.

Rua da Barroca, 106 Lisboa Tel. 211 556 042 (Fecha ao almoço de sábados e domingo e segundas todo o dia)

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009