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Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Um ar da sua graça

O Pitéu é bom, mas não lhe ficava nada mal algumas afinações na cozinha e maior diversidade nos acompanhamentos.

José Quitério (www.expresso.pt)

O Pitéu

Largo da Graça, 95-96, Lisboa Tel. 218 871 067 (Fecha Sábados ao jantar e Domingos) Uma ida à Graça nunca pode ser gratuita. Por pouco tempo que haja para a devassa (e o espaço escasso, como é o caso), terão sempre de se (re)ver alguns lugares selectos que conferem graciosidade ao bairro. Estamos no largo, mas não nos detenhamos nem no convento (quartel desde 1834) nem na igreja, não tanto por acidental falta de disposição para com a clerezia e a militança, mas porque outros espreitares têm mais graça. Pela Rua do Sol ou pela Travessa da Pereira, descubra-se a Vila Berta, belíssima "vila" operária do princípio do século XX, com estendal e varandas pairando sobre ligeiras colunas, sob cuja correnteza emergem espaços ajardinados, ferro e azulejo em profusão, num conjunto harmonioso e plácido em verde e amarelo pálido. Por contraste, entre as Travessas das Mónicas e de São Vicente, a Vila Sousa, que conserva algum ar nobre do palácio que foi mas que patenteia sobretudo a ocupação multifamiliar intensiva que não deixou de ter. Afinal, tem mesmo de se voltar à igreja, pois no terraço fronteiro à sua fachada principal é que está o miradouro donde se desfruta um dos mais grandiosos panoramas de Lisboa. Aos pés, em frente, dos lados, é sempre aquele lava-olhos apaziguador e benfazejo. Saciada a vista, tratemos de outros sentidos.

Nos números 95-96 do Largo da Graça reside o restaurante O Pitéu. Nos anos 30 do século passado era aqui a tasca Zé dos Carapaus, na qual se empregou, por volta de 1955, António Clemente Campos, que esteve ausente de 1960 a 1964, ano em que regressou à casa, entretanto de nome mudado para O Pitéu, já como sócio. Proprietário único desde 1966, o restaurante afirmou-se sob a sua direcção, com a mulher Maria Júlia à testa da cozinha. Reformados há três anos, as responsabilidades de assegurar a continuação foram passadas aos sobrinhos dos dois lados, Luís, prima e Victor.

Esperam-nos duas salas comunicantes, com cerca de 80 lugares, a de dentro sobre o comprido e estreito, balcão de serviço ao fundo, tecto branco, paredes com azulejaria até meio (numa delas um painel representando o largo e o eléctrico 28), cadeiras e mesas de madeira clara, estas acanhadas e revestidas por cima a papel, ambiente simples e tendencialmente muito ruidoso (mesmo com a televisão sem som).

A lista regista 1 Sopa, 20 pratos de Peixe e 16 de Carne. Só depois vêm as Entradas, aliás reduzidas a amêijoas, gambas, presunto e queijo da Serra, este remetido para o seu devido lugar, que é no final da refeição (e até se revelou bom). Há renovação, consoante o mercado, alguns pitéus têm dia certo (cabrito assado à segunda, mão de vaca à quarta, cozido à quinta) e a cozinha é a popular portuguesa com as receitas expectáveis.

Prove-se. As "petingas fritas com arroz de legumes e salada" (€8) transmitiram o seu viço, sem remorso (porque não eram das mais exíguas). Os "choquinhos fritos guarnecidos" (€12) souberam agradar, mesmo com molho a mais e um certo acento a louro. Prescindiu-se do acompanhamento habitual (batata frita e salada) das "lulas à sevilhana" (€8), que se revelaram qualificadas e só precisavam de um pouco mais de fritura. No "sável com açorda de ovas" (€12), bem o clupeídeo, mas à açorda faltava personalidade ovárica, isto é, mais ovas. "Bacalhau à Pitéu" (€12) é um daqueles da família dos minhotos, fritos e com cebola e batata frita às rodelas, tendo a bela posta atingido o pódio (os pickles é que se dispensavam). O "lombo de porco assado no forno" (€12) mostrou-se temperado a preceito, porém bastante rijo, na companhia de batata assada, dum arroz brando fracalhote e dos calistos filamentos e cenoura crua. O "rim de porco grelhado guarnecido" (€7,50) não podia dar mais do que deu na grelhadura, assessorado por batatas fritas em condições e desta vez (foi noutro dia) um correcto arroz branco. O "pato assado no forno" (€9) agradou, com as batatas fritas idênticas às anteriores, o arroz de miúdos é que não esteve à altura.

A doçaria propõe oito espécimes. A carta de vinhos, quase sem datas, está razoavelmente fornecida e contém alguns vinhos de topo: 57 tintos e 26 brancos. Serviço despachado e simpático.

O facto de regurgitar de clientela não quer dizer que esteja isento de rectificações. Não lhe ficava nada mal algumas afinações na cozinha, maior diversificação nos acompanhamentos e, particularizando, mais parcimónia no uso do arroz vaporizado (que nem sempre pode substituir o carolino). Para que O Pitéu tenha ainda mais graça.

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Texto publicado na edição da Única de 10 de Abril de 2010