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À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Por causa das dúvidas

Enorme lista de comidas para todos os gostos neste Sem Dúvida, incluindo um prato vegetariano, e ainda há petiscos para provar.

José Quitério (www.expresso.pt)

Sem Dúvida Av. Elias Garcia, 1b e 1c Lisboa Tel. 217 932 254 (aberto todos os dias) Notável este Elias Garcia que dá o nome à avenida. Coronel de engenharia, lente da Escola do Exército, deputado, vereador e presidente da Câmara Municipal de Lisboa, grão-mestre da Maçonaria, a José Elias Garcia (1830-1891) apetece-me agora recordá-lo mais como jornalista - enquanto tal presidente da Associação dos Jornalistas e Escritores Portugueses -, como democrata - fundador em 1854 do primeiro jornal republicano, "O Trabalho" - e como paladino da instrução pública - criador, aquando edil, das escolas centrais, do ensino da ginástica, do desenho e do canto coral, e das bibliotecas escolares. Grande carácter, claro está que morreu pobre. Percorrendo a Avenida Elias Garcia até ao final desembocante na Avenida Marquês Sá da Bandeira, vão-se encontrando, dum lado e doutro, nove restaurantes, dois snack-bares, uma hamburger house/creperie, uma pastelaria/restaurante, uma casa de pasto/café, quatro pastelarias, um café e uma leitaria: bom contributo de um só arruamento lisboeta para a totalidade de muitas dezenas de milhares de estabelecimentos de restauração e similares em Portugal.

É logo ao princípio, a seguir à esquina com a Rua do Arco do Cego, nos nºs 1B e 1C, que encontramos o Restaurante Sem Dúvida. Frontaria em vidro, depois da entrada o mostruário de espécies piscícolas, mais à frente um aquário de crustáceos, a lembrar que a casa também é marisqueira e a servir de separador às duas salas. Chão, paredes e tecto a jogarem à brancura e ao acinzentado, cadeiras e mesas pretas, estas com panejamentos e alfaias adequados, num envolvimento moderno, claro e desafogado, para 76 utentes. O restaurante abriu em Abril de 2008, propriedade de Francisco Rodrigues e Sérgio Rodrigues, pai e filho, o primeiro com larga experiência no ramo, o segundo munido de curso hoteleiro e também já com uns aninhos de trabalho.

A lista de comidas é enorme. À cabeça, os Pratos do Dia: 1 Sopa, 9 a 12 pratos de Peixe, 9 de Carne. Na parte fixa, 6 Entradas, 1 Vegetariano, 9 Peixes, 14 Carnes (9 são bifes), 7 Especialidades (arrozes, cataplanas e massadas), 14 Peixes para Grelhar, 3 Risotos, 2 Mariscadas e 16 Mariscos. Ainda mais um rol de petiscos e tapas servidos das 16 às 19 horas.

Provar, para tirar dúvidas. Nas "amêijoas à Bulhão Pato (€15), receita correcta mas moluscos de qualidade escassa, o corpinho partido, estilhaçado, difícil de extrair da valva. As "vieiras na plancha com molho de laranja" (€8,50) sem a suavidade própria, antes um pouco rijas e encortiçadas. Problemas de frigorificação, se calhar como no caso anterior? Dos "joaquinzinhos fritos com arroz de tomate" (€11,90) há que relevar os quins, sendo que o arroz não beneficiou dos coentros postos no fim, sem integração. O "arroz de lampreia à minhota" (€20,50) justificou o preço, segundo quem o aprecia, pela quantidade e qualidade da bicha, conquanto o arroz acusasse um estranho travo a lembrar o mofo. A "asa de raia vaporizada em cama de espinafres" (€13,90), também com batatas gratinadas e um molho de vinagre e alcaparras, esteve bem, não obstante o vinagre marcasse presença excessiva. A "chispalhada à portuguesa" (€9,50) apresentou-se como uma feijoada completa, aliás bastante saborosa, com enchidos toleráveis. Um guisado, portanto. Todavia, nas chispalhadas canónicas os materiais são cozidos, resultando num tipo de "cozido" em que é dada maior relevância ao chispe, à cabeça de porco e ao feijão. Muito boas as "iscas de porco à portuguesa" (€8), tudo como deve ser. O possível dentro da actual condição a "perdiz ibérica à Sem Dúvida" (€19,80), um guisado com batatinhas incorporadas, cenoura, champignons, castanhas, bacon e salsa. Dito "o nosso verdadeiro cozido à portuguesa" (€9,90/€17,90), tinha todos os elementos que lhe competem, carnes bem trabalhadas no sal, legumes e arroz feitos na água da cozedura carnal, e se os enchidos em vez de simplesmente sofríveis fossem mesmo bons, seria o máximo.

Não há queijos de topo. Presunto pata negra de altíssimo nível, não devem é pô-lo na mesa inicialmente sem ninguém o pedir (sempre são €11,50 o pratinho). Uma dúzia de doces e aparentados. Carta de vinhos com tudo datado, em fase de reestruturação, a prometer mais que 76 tintos, 31 brancos, 4 verdes brancos, 3 espumantes e 2 champanhes. Serviço competente, bem informado (incluindo na parte vinícola) e amável.

Por causa das dúvidas, convém rectificar alguns aspectos culinários, para que então este Sem Dúvida faça plenamente jus ao nome.



Ver mapa maior Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010