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Expresso

À mesa com José Quitério

Boa Mesa: Ponto assente

Restaurante Ponto Come

É de louvar a distinção e as boas práticas com que o vinho é obsequiado no Ponto Come.

José Quitério (www.expresso.pt)

Ponto Come Praceta Maria Lamas Alcabideche Tel. 214 602 023 (fecha domingos e segundas) Sendo Lisboa o ponto de partida, a auto-estrada de Cascais (A5) vai levar-nos até à saída directa para Alcabideche. Passado o ponto portageiro, na primeira rotunda que aparecer vira-se à direita; na segunda (baptizada de Rotunda José Roquete), para a esquerda é que se volta. E estamos na Rua de Cascais, que brevemente desemboca no Largo 5 de Outubro (acanhado, feio, atravancado de carros), onde há muito reside o restaurante Casa do Victor (já trazido a esta página). Ainda nos achamos num ponto intermédio, pois quase à entrada do largo há que fazer um direita volver para a Rua João Pires Correia. Em andamento nesta, meter pela segunda perpendicular à esquerda: ora aí está a Praceta Maria Lamas (evocação toponímica de uma grande senhora da cultura e da resistência ao fascismo luso) e o nosso ponto de chegada, o restaurante Ponto Come (tomo a liberdade, em relação ao nome, de transformar o sinal de pontuação em vocábulo, para melhor legibilidade), num edifício cor-de-rosa.

A sala de refeições está acolhedora, jogando com os tons preto, branco e laranja, luz suficiente, mesas providas de atoalhados e utensilagem convenientes, assentos para 24 ponto-comedores. Neste mesmo espaço existiram antes dois ou três restaurantes, fugazes, já se vê. Desde Fevereiro de 2008 cá está este, de ponto em branco, projecto de vida do casal António Delgado e Serafina, ele engenheiro electromecânico, que largaram actividades anteriores para abraçarem esta que lhes satisfaz a vocação.

A lista propõe 1 Sopa, 4 Entradas, 6 Pratos de Peixe e 7 de Carne. Para se perceber o estilo da cozinha, nada melhor que avançar já com o provado. Os "croquetes com sabor montanheiro" (€3,10), enquadrados por alface roxa e creio que acelga, foram três bolinhas de inusitada mistura de farinheira, morcela e requeijão de Seia, o sabor da primeira a dominar. Também a dar um ar da sua graça a "maçã recheada com morcela, redução de vinho do Porto e pinhões" (€3,10), com seu toque aos cominhos morceleiros. Muito bem apresentados os "ovos mexidos com farinheira" (€3,10), com torradinhas de pão de forma postas ao alto como uma espécie de guarda-vento, os ovos bastante espapaçados e a deixarem a dúvida se eram ovos a sério ou um sucedâneo em pó (muito asseado) que por aí agora anda.

Nos "filetes de polvo com arroz do mesmo" (€12,20), bem talhados e conseguidos os primeiros, arroz bom, sem malandrices. O "lombo de bacalhau assado no forno com molhos de azeitona preta e pimentos, batatinha assada e grelos salteados" (€12,90) cumpriu galhardamente em todos os aspectos e componentes. A mais, nesta zona piscícola, havia arroz de tamboril e gambas, bacalhau com castanhas, filetes de peixe-galo e polvo assado no forno. Carnalmente falando, agradável o trautear da batata com a planta aromática e vianda saborosa no "pernil assado à alemã com batata salteada, rosmaninho e couve roxa" (€9,70). Prato muito bem congeminado e rico de sabores diversos e harmoniosos o "peito de frango recheado com farinheira, acompanhado de cuscuz e gratinado de legumes" (€9,70), o núcleo central valorizado (surpreendentemente) pela envolvência de bacon. Arroz algo aguado e pato saborido, a laranja do molho a combater qualquer pendor enjoativo, no "pato confitado com molho cumberland e risotto de espargos verdes" (€10,60). Ainda está para vir quem me convença do contrário, porque continuo a achar que é um desrespeito para o verdadeiro queijo da Serra da Estrela misturá-lo, como neste "medalhão de vaca com queijo da Serra e arroz de cogumelos" (€11,60), de resto excelentes carne, queijo e arroz. Um ocasional prato do dia, "feijoada" (€9,50), puxadona e guarnecida a preceito, respondeu afirmativamente. Deste sector carnário faltou provar costeletinhas de cordeiro, bife do lombo e lombinhos de porco.

Não falta um prato de queijos e sete sobremesas doces estimáveis e não vulgares. Mas todo o espaço é pouco para louvar a distinção, a dignidade e as boas práticas com que o vinho é aqui obsequiado. A carta, com as informações necessárias e selecção criteriosa, ostenta 100 tintos, 40 brancos e 10 borbulhentos. Ponto fundamental: uma nunca assim encontrada acessibilidade de preços. Ponto de admiração: todos, mas todos os vinhos podem ser servidos a copo.

De qualquer ponto de vista, é ponto assente que o Ponto Come merece a visita. Para os experimentadores vínicos, nem se fala, é um pontualíssimo ponto de apoio e de pontificado.

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Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010