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Expresso

A vida de saltos altos

Sombras de Grey: erotismo ou violência doméstica?

Paula Cosme Pinto, sapato nº38

"Isto é acima de tudo uma história de amor. Com sexo, mas é uma história de amor". Foi por estas palavras que a autora de "As 50 Sombras de Grey" me explicou há cerca de um ano o sucesso inesperado dos seus livros. A curta entrevista teve de ser feita por email e, até hoje, fiquei com pena de não ter tido a oportunidade de perguntar em resposta: "Mas até que ponto pode haver violência, humilhação e coacção numa história de amor?". Gostava de saber qual a perpsetiva de E.L. James sobre isto.

Ainda na mesma entrevista à Revista do Expresso, a autora explicou que quando começou a escrever o livro achou "interessante explorar o que pode acontecer quando alguém conhece e se apaixona por uma pessoa com determinado estilo de vida e não quer fazer parte dele". O rumo da história cliché entre a virginal universitária que se perde de amores pelo multimilionário dominador - que tinha tudo para ser perfeito não fosse o seu universo sadomasoquista, onde ela não quer entrar - poderia ser uma tampa, por exemplo. Ou uma mulher que impõe a sua vontade própria e não se deixa coagir sexual e emocionalmente pelo medo de perder o outro. Ou até a mulher que afinal descobre ter um fetiche proporcionalmente igual e embarca no mesmo modo de vida cheia de vontade. Mas não é isso que acontece no livro.

O lado negro das Sombras de Grey

Esta semana foi publicado no Journal of Women's Health um estudo da Universidade estatal de Ohio que concluiu que a obra que já vendeu mais de 70 milhões de exemplares "promove a violência contra as mulheres", perpetuando a imagem do homem como agressor e a da mulher como vítima passiva. Dito assim até pode parecer um grande exagero, mas se pensarmos que ainda este ano saíram os resultados de um estudo sobre violência no namoro em Portugal (em jovens dos 13 e 29 anos) e 25ª% dos inquiridos revelaram já ter sido vítimas de atos abusivos, talvez dê que pensar.

O estudo da equipa norte-americana, que leu e esmiuçou a trilogia capítulo a capítulo, analisou o padrão de comportamentos das personagens e concluiu que a violência física e emocional está presente em grande parte das suas interações, seja em modo de intimidação, vigilância, isolamento ou humilhação. Como, por exemplo, os momentos em que Christian controla onde e com quem a namorada está, obriga-a a comer, limita-lhe o contato com a família e amigos, recusa-se a deixá-la sair de casa sozinha e por aí fora,. Maioritariamente por causa de ciúmes e sempre sob risco de se zangar com ela. Quantas pessoas passarão por isto na vida real e o escondem por medo ou vergonha? Também a personagem feminina do livro demonstra ter o perfil da mulher maltratada, sob ameaças constantes e com perdas de identidade e vontade própria para não o aborrecer. 

Digamos que no meio disto tudo, a única coisa que não remete para violência abusiva são mesmo as cenas de sexo com direito a algemas, chibatas e palmadas, em que ambos estão a ter prazer. Algo que, sejamos francos, pode fazer parte da vida sexual de qualquer casal que, de mútuo acordo, assim o deseje. Por mais que as mentes puritanas achem que é feio ou condenável, não passa de uma fantasia. E quanto a isso, todos nós temos as nossas. É saudável que assim seja.

Da ficção à vida real

"As Sombras de Grey" são ficção, é certo, mas eu já perdi a conta a quantas jovens adolescentes eu vi na praia a lerem este livro. E quando me pus a ler os comentários deixados em fóruns internacionais, o que não faltam são miúdas apaixonadas pelo sombrio Christian, que dizem sonhar com um homem como ele e estarem dispostas a viver tais abusos para viver um amor como aquele. Mas convenhamos que viver uma suposta história de amor, baseada no medo do outro, não é um bom exemplo a seguir. Mesmo que ele seja rico, toque piano, fale francês e seja arraçado de Brad Pitt. Se pensarmos que esta tem sido a trilogia mundialmente mais badalada dos últimos tempos, por ter ajudado inúmeras mulheres a melhoraram a sua vida conjugal, eu diria que é também preocupante. "Este livro perpetua abusos perigosos, mas é vendido como uma história romântica e erótica", frisa Ana Bonomi, umas das autoras da investigação. "O conteúdo erótico podia ter sido alcançada sem que a mulher fosse exposta como uma vítima".

Só no ano passado a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima detetou quase 17 mil crimes de violência doméstica em Portugal. Mais de 50% destas pessoas eram vítimas de maus tratos psicológicos, ameaça e coacção dentro da sua própria casa. De vez em quando é preciso relembrar que a violência não é feita apenas de maus tratos físicos. A violência psicológica é tão grave quanto a física. E todos os romances de cordel que promovem a permissão da mesma dentro de uma relação só ajudam a que esta ideia continue (demasiado) enraizada.

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