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Expresso

A vida de saltos altos

Preservativos, rebuçados e tempo

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Há mulheres que nos inspiram e a Dona Rosa é um bom exemplo. Tem um sorriso contagiante e uns olhos doces. Daqueles que nos deixam imediatamente à vontade. Vive num bairro tido como marginal, onde tinha uma lavandaria. Na parede lia-se o seguinte: "Aqui lavo corações e angústias, seco lágrimas, passo a ferro dores e tiro nódoas do amor, mesmo as mais difíceis". Mais verdade, impossível.

Pela cadeirinha da entrada daquele estabelecimento de decoração tosca - que a meu ver ainda o tornava mais pitorescamente delicioso - passavam diariamente velhinhas, adolescentes, imigrantes, prostitutas. Gente que não tinha dinheiro para um psicólogo, mas que precisava de alguém que estivesse disposto a ouvir as suas dores. E a Dona Rosa estava.

Por trás do ferro de engomar industrial, que não lhe permitia ouvir metade dos desabafos que ali eram feitos, abanava a cabeça e sorria. "Mais do que alguém que lhes dê a opinião, precisam de alguém que lhes dê atenção, um sorriso e tempo. O tempo é algo precioso." Palavras da Dona Rosa que, prestes a fazer 50 anos, trazia no rosto e no discurso uma sabedoria que só a vida consegue dar. "Quando estas pessoas vão embora levam consigo as suas histórias. Talvez mais resolvidas, porque as verbalizaram. Mas quem as resolve são elas, não sou eu."

As três caixas mágicas da Dona Rosa

No balcão da lavandaria tem três caixas com que tentava resolver, sem palavras, alguns problemas. Uma tinha preservativos, com o intuito de alertar as muitas prostitutas da zona para o perigo contraírem doenças sexualmente transmissíveis. "Quem sou eu para fazer juízos de valor? Mas se puder evitar-lhes um problema de saúde, tanto melhor." Depois tinha uma caixa de medicamentos. "Há muitos ilegais que não têm acesso a um centro de saúde. O que me custa a mim dar-lhes uma ajuda com coisas tão simples como constipações?" Por fim, uma lata com rebuçados. "As crianças merecem o melhor e um docinho sabe sempre bem."

A mim sabe-me bem encontrar nas esquinas da minha cidade mulheres como esta. Com uma consciência social muito mais coesa do que muitos dos nossos governantes e demais senhores e senhoras que são pagos - e bem pagos - para 'tratarem' dos cidadãos. A Dona Rosa ajuda com o que pode e não cobra nada em troca. Ajuda por prazer, porque sabe que há pequenos gestos que são muito grandes. E se há pessoas que considero 'grandes', são pessoas como esta.

Ontem passei à sua porta e percebi que a lavandaria tinha fechado. E embora nunca me tenha sentado naquela cadeira junto à porta, senti saudades da Dona Rosa.

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