Siga-nos

Perfil

Expresso

A vida de saltos altos

Onde a prisão é a maior liberdade de uma mulher

  • 333

Sara fugiu de casa porque não queria ser forçada a casar e isso valeu-lhe uma sentença de prisão. Se para muitos de nós isso poderia significar um tremendo castigo, para ela é um alívio. Presa, sente-se livre. "É melhor estar na prisão do que na minha casa."

Vestida de preto, com uns lábios carnudos maltratados e um olhar franzido que carrega uma vida de injustiças por ter nascido mulher no Afeganistão, Sara conta como é viver na prisão. "Lá fora toda a gente quer decidir tudo sobre a nossa vida. Só querem ter controlo". Ali ninguém a critica por não usar burqa nem por dizer o que sente. E, por isso, Sara sente que atrás das grades pode simplesmente ser quem é. "Os guardas são agora a minha mãe e as outras prisioneiras são minhas irmãs". Olha através de um minúsculo buraco no portão que a separa da liberdade e diz com prazer: "Daqui até conseguimos olhar lá para fora".

Alteração de lei deixa vítimas ainda mais vulneráveis

O relato impressionante desta mulher faz parte do documentário sueco "Atrás das grades não há burcas", do realizador Nima Sarvestani, que teve a oportunidade de entrar no universo das prisões femininas do Afeganistão. Em Takhar há quarenta mulheres presas, juntamente com as suas 34 crianças. Entre elas Sara, que conta grande parte das histórias das suas "irmãs". Muitas delas presas apenas porque seguiram o coração ou porque ousaram lutar pela sua dignidade.

É o caso de Nadjibeh, que foi casada à força com 10 anos com um homem muito mais velho. Quando cresceu percebeu quão miserável era a sua vida e acabou por fugir com outro homem por quem se apaixonou. E Sara não tem dúvidas: "Ela está melhor aqui do que lá fora, embora ainda não o perceba".

No ano passado esteve em cima da mesa uma alteração à lei afegã com o intuito de proibir as pessoas de testemunharem contra elementos da própria família. Ou seja, a vulnerabilidade destas vítimas é cada vez maior, até porque a maioria dos casos de violência extrema sobre mulheres e crianças acontece dentro do seio familiar.

A justiça da injustiça?

"O que está a acontecer é grotesco", diz Manizha Naderi, diretora do grupo Women for Afghan Women, organização que se dedica à defesa dos direitos das mulheres afegãs. "Os assassínios de honra, que são cometidos por pais e irmãos que não aceitam o comportamento das mulheres, ficam sem punição. Os casamentos forçados e a venda ou troca de filhas para resolver disputas ou pagar dívidas também deixam de estar ao alcance da lei num país onde a justiça para este tipo de crimes já é rara."

Posto isto, o testemunho destas mulheres atrás das grades faz-nos perceber porque é que a injustiça da prisão foi a melhor justiça que algum dia conseguiram encontrar. Não é um documentário que se veja de ânimo leve, mas proponho a todos que tirem um bocadinho do vosso tempo para o fazer.

 

A Vida de Saltos Altos também está presente no Facebook. Na página desta popular rede social qualquer um pode ser fã deste blogue. Clique para visitar.