Siga-nos

Perfil

Expresso

A vida de saltos altos

Estas pessoas também têm rosto

  • 333

Imagem captada em 2014, no Sudão, no projecto Mayo Photo Studio

Pieter ter Hoopen

Confitos étnicos, guerras civis, genocídio, escravidão, um dos mais baixos níveis de desenvolvimento humano do mundo: eis o que estamos a habituados a ver quando se fala no Sudão. Na semana passada, o país voltou a ser lembrado pelos media um pouco por todo o mundo graças às suas complexas eleições. Falou-se novamente das estatísticas avassaladoras da miséria, da fraca adesão à urnas, da corrupção. Mas há um fotógrafo que quer mostrar ao mundo o Sudão para lá dos números: através das suas pessoas.

Pieter ten Hoopen é um fotógrafo viajado, habituado aos horrores dos campos de refugiados. Foi enviado para o de Mayo com o intuito de acompanhar o trabalho de uma equipa médica europeia, mas tinha como objectivo pessoal conseguir fotografar e contar as histórias daquelas pessoas vítimas de um conflito sem fim. Rapidamente percebeu que as restrições impostas no que dizia respeito a fotografar fora do hospital eram realmente rígidas. Fora daquelas paredes, o mundo sudanês  estava-lhe vedado. Mas as histórias de todas aquelas pessoas com quem se cruzava diariamente, não.

"Percebi que muitas daquelas pessoas precisavam de um momento de fantasia, de dignidade. Em que pudessem simplesmente respirar fundo e esquecer aquela situação, nem que fosse por uns minutos", contou em entrevista aos media norte-americanos.  A pensar nisso pediu ajuda aos voluntários e montou um estúdio fotográfico no hospital, com lençóis a fazer de fundo branco.

Um estúdio, um refúgio

Aquele pequeno quadrado, onde tudo podia ficar para trás durante um bocado, tornou-se numa enorme sensação entre os trabalhadores do hospital, mas também entre os refugiados. E todos os dias Pieter recebia pessoas que desejavam ser fotografadas. "Algumas pessoas estavam há meses confinadas numa cama. Aquela oportunidade de serem fotografadas era uma oportunidade de se evadirem da sua miséria pessoal."

O trabalho de Pieter ten Hoopen ainda está em desenvolvimento, mas parte dele já pode ser visto aqui. Homens, mulheres, crianças. Sérios e sorridentes, confiantes e tímidos. Os retratos mostram, sem palavras, o que cada uma daquelas pessoas quis contar sobre si mesma apenas com o olhar. São imagens, acima de tudo, de dignidade. Que nos relembram que, seja aqui, seja num campo de refugiados no Sudão, somos todos pessoas. Iguais na nossa essência humana.