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Expresso

A vida de saltos altos

É por estas e por outras que faz sentido um Dia da Mulher

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A foto de Ebrahim Noroozi foi uma das vencedoras do World Press Photo

Ebrahim Noroozi

Muito se tem falado desde domingo sobre a necessidade de existir um Dia Internacional da Mulher. Já ouvi inúmeras opiniões e acho que grande parte tem fundamento, sejam contra ou a favor. Decidi que não iria falar sobre isso, mas ontem, ao passear pelas redes sociais, voltei a cruzar-me com a mesma foto que me cortou a respiração há uns anos quando fez parte dos vencedores do World Press Photo. E achei que histórias como esta deveriam se relembradas.

Somayeh Mehri (hoje com 30 anos) e a sua filha Rana Afghanipour (hoje com 5 anos) são iranianas e vivem no sul do seu país escondidas do mundo. Com vergonha dos seus rostos, do que lhes sobrou do ataque com ácido sulfúrico do qual foram alvo em 2011. No caso de Somayeh por parte do marido, no caso de Rana por parte do próprio pai.

O ataque aconteceu pelo mesmo motivo passional que origina tantos outros ataques mundo fora. Somayeh casou jovem e sem amor. Após alguns anos a ser constantemente agredida pelo marido, decidiu ganhar coragem, quebrar as convenções e o sofrimento, e pedir o divórcio. A ameaça não tardou: se ela insistisse na separação acabaria por perder o próprio rosto. Numa noite a ameaça tornou-se realidade. Amir, o marido e pai, atirou-lhes com ácido sulfúrico enquanto dormiam, deixando-as gravemente desfiguradas.  Somayeh ficou totalmente cega e Rana perdeu um dos olhos. Embora tenha contado com todo o apoio da sua família, Somayeh isolou-se do mundo e vive refugiada na religião. E no amor da filha. E é esse amor incondicional - aquele que se sobrepõe às maiores dores - que ganha vida nesta foto comovente.

É por (tudo) isto que este dia ainda faz sentido

A história de Somayeh é apenas um exemplo de quão frágil a mulher continua a ser nos dias de hoje. Num mundo ideal o Dia Internacional da Mulher não deveria fazer sentido. Mas estamos longe de estar nesse mundo. Aliás, estamos longe ainda de chegar à sociedade ideal, mesmo nos países supostamente civilizados. E enquanto existirem Somayehs, a meu ver (e atenção, esta é apenas a minha opinião), faz sentido que este dia exista. 

Tal como enquanto ainda exisirem Sakinehs que podem ser apedrejadas até à morte por supostos adultérios confessados sob tortura. Ou enquanto existirem Feng Jianmeis a quem arrancam um filho do ventre aos sete meses de gravidez por não ter dinheiro para pagar uma multa. Ou estudantes que são violadas até à morte em autocarros da Índia e cujos violadores continuam a achar que tiveram motivos para o fazer. Ou casamentos forçados de adolescentes a quem não é permitido o amor, ou excisões a meninas como forma de purificação ou tráfico de mulheres para redes de prostituição e demais atrocidades. E também enquanto existirem estrelas de Hollywood a serem ameaçadas de divulgação de fotos suas privadas em redes sociais como represália a discursos públicos sobre os direitos das mulheres, ou enquanto mulheres sejam discriminadas em contexto laboral, ora com salários quase 25% mais baixos do que os dos homens, ora com discriminação relacionada à questão da maternidade.

Infelizmente esta lista podia ser mais extensa. Tão, mas tão mais extensa. O que é assustador. Não estou com isto a colocar as mulheres no eterno papel de vítimas (sim, também há discriminação aos homens... mas são escalas sequer aproximadas?). Falo apenas de questões reais e concretas relacionadas especificamente com o sexo feminino, que só não vê quem não quer. E que não podem ser eternamente chutadas para o lado com respostas como "são questões culturais".

Até hoje já foi percorrido um longo caminho no que diz respeito à discriminação de género. Mas ainda falta percorrer outro caminho tão, ou mais longo ainda.  Felizmente, por cá já vamos tendo cada vez mais voz para falar, gritar ao mundo o que se passa. Haja coragem e, em muitos casos, meios e apoio a tempo e horas. Principalmente o das autoridades competentes. Mas ainda há muitas mulheres mundo fora às quais não é sequer permitida a palavra 'não'. Se por nós ainda faz sentido, por elas é essencial que este dia continue a existir. Quem me dera que não fizesse.

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