Siga-nos

Perfil

Expresso

A vida de saltos altos

Depois das selfies, as brelfies

  • 333

A brelfie de Gisele Bundchen que deu origem ao fenómeno

Para os mais atentos às redes sociais o termo já não será novidade. Mas a moda das brelfies pegou, e cada vez mais se vê mais mulheres a partilharem fotos suas a amamentarem os seus bebés. Porquê? Neste momento como provocação à censura de utilizadores das redes sociais que continuam a reportar estas imagens como "inapropriadas".

O fenómeno das brelfies - da expressão 'breastfeeding' - teve início em 2013, com a foto que a modelo Gisele Bundchen partilhou a amamentar o seu mais pequeno rebento. A cantora Gwen Stefani fez o mesmo poucos meses depois e também deu que falar, mas foi a imagem de uma jovem americana a amamentar um bebé na sua cerimónia de formatura - com uma legenda de agradecimento à faculdade pelo apoio que lhe deu para conseguir ser mãe e estudante ao mesmo tempo - que se tornou viral. A foto é discreta e altamente simbólica, mas no meio de mais 300 mil 'likes' e 10 mil partilhas, nos inúmeros comentários deixados à jovem americana apareciam pessoas revoltadas com o teor da imagem. E utilizadores daquela rede social a reportarem o conteúdo como inapropriado.

Isto aconteceu no fim de 2014 e desde então as brelfies têm tomado conta das redes sociais em provocação à censura. O que para muitos é tido como ato de exibicionismo, para outros é agora uma forma de protesto para quebrar falsos pudores. E a moda pegou, entre mães de todas as idades que acham que as mulheres não devem ter vergonha de amamentar os seus filhos em público. Nem de registarem esse momento, se assim tiverem vontade.

Amamentar é ofensivo porquê?

O que a mim me parece triste no meio disto tudo é que em pleno século XXI, no tão evoluído mundo ocidental, ainda seja preciso publicar fotos nas redes sociais em protesto contra os que acham que uma coisa tão simples como a amamentação deva ser feita à porta fechada. A discussão é simplesmente ridícula.

Uma mama é uma mama. Não percebo o que possa haver de ofensivo numa mama de fora da camisola num local público quando um bebé tem fome. Será que estes puritanos que o consideram inapropriado também acham que quando uma criança recém-nascida berra com fome a mãe deve simplesmente dizer: "Olha bebé, aguenta aí o estômago mais uns 20 ou 30 minutos que se a mamã te dá mama agora aqueles senhores vão ficar ofendidos!"?

Numa altura em que imagens do corpo desnudo da mulher - mamas semi ao léu incluídas - servem para promover desde champôs a iogurtes, também não percebo como é que alguém pode olhar com pudor para uma imagem destas ao ser publicada numa rede social. Ou pior, acusá-la de ter cariz sexual. Haverá algo de erótico na boca de um recém-nascido a sugar o mamilo da progenitora? É claro que existem mentes distorcidas para tudo, mas tenham paciência. Há moralismos que são tão de algibeira que dá dó.

Também se falou muito no Papa Francisco quando no início deste ano incentivou a amamentação em público durante um batismo coletivo na Capela Sistina, para evitar que as crianças chorassem. Realmente foi uma atitude que pode ser interpretada como surpreendente dado o conservadorismo daquela instituição, mas na óptima católica não foi Deus que pôs o leite nas mamas maternas como parte do milagre da procriação? Então deixem as crianças mamarem quando têm fome, se faz favor. Igrejas incluídas. Até ver, a amamentação não é pecado.

Ainda não sou mãe. Mas tenha eu a sorte de ter leite quando o for, e tenciono pôr as minhas de fora sempre que o meu bebé tiver fome. Num sítio confortável para ambos e não às escondidas numa casa-de-banho pública para não ferir susceptibilidades. Não o farei orgulhosamente, mas sim naturalmente. Porque haverá algo mais natural na existência humana do que o ato de sobrevivência que é uma fêmea amamentar a sua cria?

Se alguém tem problemas com isso então que não olhe. E nas redes sociais basta fazer scroll. Não custa nada.