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Expresso

A vida de saltos altos

Angelina Jolie mete o dedo na ferida

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Angelina Jolie durante o seu discurso

Ainda bem que existem pessoas com o calibre de Angelina Jolie. E não, não falo dos seus lábios carnudos ou das pernas esguias que encantam tantos dos seus fãs. Falo sim da mulher que tem a inteligência de usar o seu mediatismo para um bem maior: dar voz a quem ficou esquecido ou foi simplesmente transformado num número.

"Fracassámos". A expressão escolhida pela atriz para descrever a inércia da comunidade internacional no que diz respeito à Síria não podia ter mais honesta, dura e crítica. Enquanto enviada especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados apontou o dedo ao Conselho de Segurança da ONU e conseguiu resumir a base do problema que continua a arrastar consigo a vida de milhares de inocentes: "O problema não é a falta de informação, é a falta de vontade política."

O trabalho de Angelina Jolie com refugiados não é novidade, tal como a sua capacidade de elegantemente meter o dedo bem fundo nas feridas que muitos tentam esconder com palavras mansas. "São quatro milhões de refugiados sírios que são estigmatizados, rejeitados, e vistos como um fardo", concluiu na passada sexta-feira, durante um debate no Conselho de Segurança da ONU. "As leis humanitárias internacionais proíbem a tortura, a fome, e que escolas e hospitais se tornem alvos, mas estes crimes acontecem todos os dias na Síria", relembrou.

"Um mar humano de excluídos"

As suas visitas ao cenário real de todas as dores levam-na a ter presentes não apenas os números "do mar humano de excluídos" que vivem nos campos de refugiados, mas também as caras, os nomes, as histórias de vida que nunca poderão ser reproduzidas num gráfico estatístico. E como aquelas pessoas não puderam estar naquela reunião para contar o que lhes vai na alma, Angelina decidiu dar-lhes voz.

"Lembro-me da mãe que encontrei recentemente no campo de refugiados no Iraque, que tenta voltar a viver depois de a sua filha ter sido arrancada da família por um homem armado, e tornada escrava sexual. Lembro-me também de Hala, uma das seis órfãs que vive numa tenda no campo do Líbano: ela poderia contar como é dividir a responsabilidade de alimentar a família aos 11 anos, porque a mãe morreu num ataque aéreo e o pai está desaparecido."

E em resposta clara ao desentendimento dos países-membros do Conselho de Segurança - facto que em muito tem contribuído para o total fracasso das medidas humanitárias faladas há um ano - a atriz deixou o seu apelo: "É hora do Conselho de Segurança trabalhar como um só para acabar com o conflito, e chegar a uma solução que traga justiça ao povo sírio."

4 anos, 200 mil mortos

Caso sobrem dúvidas sobre a importância desta participação mediática de Angelina Jolie, talvez os números elucidem quanto à urgência de manter o tema na ordem do dia: nos últimos quatro anos morreram mais de 200 mil pessoas na Síria, sendo que mais de 76 mil dessas mortes aconteceram em 2014, o ano mais sangrento do conflito. Ao contrário do que seria esperado, o acesso à ajuda humanitária não melhorou com as supostas medidas planeadas pela ONU: há quase 5 milhões de cidadãos a quem o apoio não chega, por viverem em áreas quase inacessíveis.

Ao todo já são mais de 5,6 milhões as crianças sírias que precisam de ajuda, um aumento de 31% face a 2013. Cerca de 2,6 milhões não podem ir à escola e outros dois milhões vivem em campos de refugiados em países como Líbano, Turquia ou Jordânia. Infâncias roubadas, adolescências destruídas, vidas que ficarão para sempre marcadas pela guerra. Caso sobrevivam.

Enquanto uns perdem tempo em discussões de barriga cheia que não parecem ter como objetivo primordial a vida destes inocentes, ainda bem que há alguém que lhes dá voz. Esquecê-los é compactuar com o crime.