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Expresso

A vida de saltos altos

A menstruação ainda mete nojo

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A foto que foi banida do Instagram

Rupi Kaur

Vivemos cada vez mais numa era de hipocrisias. E as redes sociais são palco de muitas delas, principalmente no que diz respeito aos termos e condições de partilha de imagens. Rupi Kaur, uma poetisa paquistanesa que reside em Toronto, é o nome por trás da mais recente polémica que envolve o Instagram. E que revela quão hipócritas nós (os seus utilizadores) e eles (os donos da plataforma) conseguimos ser.

Para quebrar os tabus em torno da menstruação, a poetisa decidiu fazer um pequeno ensaio fotográfico com imagens daquilo que considera (e bem!) ser "um processo natural de grande beleza". "Sangro todos os meses para tornar a humanidade possível. O meu ventre é um lugar divino, uma fonte de vida", explicou em entrevista à BBC. "Mas o problema é que a menstruação ainda é um tabu na nossa sociedade."

Rupi Kaur tem motivos para pensar desta forma? Ao que parece, sim: quando colocou uma foto sua no Instagram, de costas, com uma pequena mancha de sangue nas calças do pijama rapidamente os comentários depreciativos começaram. "Que nojo!" ou "É grotesco!" foram respostas que não se fizeram esperar. E a própria rede social alinhou na censura, acabando por banir a imagem. O caso deu que falar, o Instagram assumiu o erro e a foto voltou a ser republicada. Mas no ar ficou a questão: afinal, onde começam a acabam as fronteiras das imagens impróprias?

Repulsa pela mulher real?

Já há umas semanas falei aqui sobre a moda das brelfies e da polémica em torno das imagens de mulheres a amamentar que foram censuradas nas redes sociais. Agora é a vez da menstruação, esse bicho papão que todos nós sabemos que existe mas sobre o qual poucos falam abertamente (a não ser para fazer piadinhas corriqueiras sobre as mulheres e as suas alterações hormonais, que pelos vistos servem de arma de arremesso quando não há mais argumentos). Faço minhas as palavras de Rupi: "Ninguém se choca que as mulheres apareçam constantemente nuas ou com pouca roupa, como meros objetos sexualizados. Parece que a 'pornificação' da imagem feminina é mais cómoda que a menstruação."

Realmente é irónico que tanta gente fique incomodada com uma imagem que remete para um processo biológico natural do corpo feminino, mas que as de mulheres praticamente nuas em anúncios de calças de ganga ou de cremes milagrosos já sejam aceites sem questionamento. Ou que uma fotografia de uma mulher de micro-biquini, em pose sensual, seja tida como aceitável, enquanto que a de uma mulher em cuecas com pêlos púbicos a saírem de lado seja censurada (também já aconteceu). É ou não é muito hipócrita que o suposto lado "sexy" da mulher possa ser partilhado publicamente, mas que o seu lado mais natural gere tamanha repulsa e censura?

Pelos vistos a realidade feminina - sem Photoshop ou floreados - não é bonita o suficiente. Aliás, é incómoda, desconfortável e deve ser escondida. Uma mentalidade retrógada que começa nas próprias mulheres que são as primeiras a ter pudores em relação a coisas tão banais como tirar um tampão da mala e ir para a casa-de-banho com ele na mão. Sim, nós temos o período todos os meses. E sim, de vez em quando sujamos as cuecas. Tirando o facto de não ser higiénico - daí terem sido inventados os nossos queridos amigos tampões - não vejo o que há de tão estranho nisto. Muito menos de ofensivo.

Ofensiva é a hipocrisia. E a tacanhez que gera estas não discussões.

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