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Expresso

A vida de saltos altos

A jornalista libanesa que calou o sheik

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"Ou há respeito ou a conversa acabou". Esta é a frase que tem estado a dar que falar na redes sociais e que tornou viral o vídeo da entrevista de uma jornalista libanesa a um radical islâmico egípcio. E não é para menos. Numa altura em que a discriminação de género das mulheres no mundo islâmico faz correr tinta nos jornais todas as semanas, o ato de Rima Karaki é visto como heróico.

O vídeo remete ao dia 2 de março, quando a jornalista da Al-Jadid/New TV do Líbano entrevistava o sheik Hani Al-Siba'i sobre o fenómeno da adesão dos cristãos a grupos radicais islâmicos. Em direto para a televisão libanesa, o conhecido sheik fugia à questão fulcral, invocando argumentos históricos. Mas como em televisão o tempo urge, a jornalista - cuja missão é conduzir a entrevista, vale sempre a pena lembrar - interrompeu o entrevistado e tentou voltar à questão inicial com um educado:  "Mas no presente, que slogans são usados para atrair os cristãos?"

"Neste estúdio quem manda sou eu", disse ela

O sheik não gostou da interrupção - especulação pertinente: será porque foi feita por uma mulher? - e respondeu de forma totalmente despropositada. "Não me interrompa. Eu respondo quando quiser". Ora bem, o tom de ambos subiu, a conversa deu para o torto e embora a jornalista tenha pedido calma e tentado explicar que em televisão o tempo é limitado, Hani Al-Siba'i continuou em tom autoritário.

Rima Karaki não gostou e em pleno direto televisivo fez o que para muitas mulheres inseridas em contextos radicais islâmicos seria impensável: enfrentou-o sem papas na língua. "Neste estúdio quem manda sou eu. Para seu próprio benefício, estou a alertá-lo de que estamos a ficar sem tempo. Se vai responder de forma tão longa não vamos ter tempo para outras questões". Nem Manuela Moura Guedes o conseguiria fazer com um tom tão assertivo.

O sheik insistiu mais uma vez no tom agressivo, a jornalista voltou a chamá-lo à atenção e ele decidiu então mandá-la calar. Talvez isto até seja normal para muitos radicais islâmicos, mas mais uma vez Rima Karaki não aceitou a atitude e decidiu simplesmente tirá-lo do ar.

O vídeo tornou-se mundialmente conhecido pela mão do Middle East Media Research Institute - MEMRI, que o publicou no YouTube. Rapidamente este se tornou viral, já com mais de dois milhões e meio de visualizações. E a discussão nos comentários já era tal ordem que foram entretanto desativados. De um lado os que lhe batiam palmas, do outro os que achavam que o que ela fez foi uma falta de respeito.

No Twitter a jornalista libanesa continua a receber mensagens de fãs que congratulam a firmeza da sua atitude (lembremo-nos que por menos há pessoas presas e a aguardar julgamentos sob tortura... felizmente no Líbano o islamismo é bem mais moderado). Não é que a discriminação das mulheres no mundo radical islâmico vá acabar graças a este episódio, mas é com pequenos passos que se caminha para a mudança.

Aqui fica o vídeo para espreitarem também:

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