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A vida de saltos altos

A desculpa da incompetência masculina - O debate revisitado

O que me diz a experiência é que homens que habitualmente se sentem superiores às mulheres são exactamente aqueles que se sentem inferiores em relação aos outros homens (e muitas mulheres), pelo que sentem necessidade de se sentirem superiores em relação a alguma coisa.

Solange Cosme (sapato nº39) (www. expresso.pt)

A questão da discriminação sempre foi um tema, para mim, algo controverso. Quando se fazem eventos especiais, legislações especiais, dias especiais, comemorações especiais, homenagens especiais, prémios especiais - para pessoas especiais - cheira-me sempre a discriminação. É uma espécie de "prémio especial" de consolo para os "coitadinhos" que até se esforçam tanto por algo. Não gosto. No que toca em particular à discriminação feminina, isto é ainda mais gritante. Não gosto mesmo nada. Também não gosto do contrário. Então em que é que ficamos? Na minha opinião, nisso mesmo: o difícil é passarmos todos a ser pessoas normais e a sermos vistos como iguais dentro das nossas diferenças. Difícil? Infelizmente, também me parece que sim.

Eu não sou feminista (como todos os movimentos radicais, o feminismo parece-me a versão cor de rosa do machismo, por isso, não muito obrigada), mas confesso que estou um pouco cansada de um mundo maioritariamente masculino que, de forma arrogante se acha melhor que muitas mulheres só por ter nascido homem.

O que me diz a experiência é que homens que habitualmente se sentem superiores às mulheres são exactamente aqueles que se sentem inferiores em relação aos outros homens (e muitas mulheres), pelo que sentem necessidade de se sentirem superiores em relação a alguma coisa. Assim, não é raro ver alguns elementos da espécie masculina a fazer comentários como "vai mas é para a cozinha, que é onde tu pertences" quando eles próprios são incapazes de, não só estrelar um ovo (credo! coisa de mulher!) como igualmente de serem bons a fazer qualquer outra coisa tipicamente masculina como... jogar bem futebol! E ficam simplesmente sentados no sofá, de cerveja na mão, a ver a barriga crescer enquanto os espera uma cama fria e vazia. Quer-me parecer (mas isto sou eu e eu não percebo nada disto), que homem que é homem, sente-me muito bem consigo próprio, não se sente nem inferior nem superior a qualquer mulher e trata-a com respeito e igualdade. Acham difícil? Eu não acho. E felizmente conheço alguns homens assim.

Claro que associado a isto vêem sempre comentários absolutamente despropositados como "quando eu vir uma mulher a carregar baldes de cimento nas obras eu reconheço-lhes igualdade". Estes comentários até seriam aceitáveis se viessem de um homem que de facto passasse o seu dia a carregar baldes de cimento mas, por mais idiota que pareça, normalmente vêm de senhores que se cansam a subir as escadas do escritório, que têm a pele das mãos mais finas do que as suas estimadas esposas, e que normalmente quando dão dois espirros partem três costelas! A sério que alguém tem em conta uma opinião destas? É que muitos destes homens não aguentavam nem meio-dia na construção civil e deviam respeitar mais esta profissão!

Obviamente que as pessoas são todas diferentes. Obviamente que incluo homens e mulheres. Obviamente que, de acordo com as características físicas, intelectuais, sociais, psicológicas, as pessoas têm papéis diferentes na sociedade. Obviamente que o ser humano não está preparado para tratar o outro por igual.

Infelizmente, o cúmulo do machismo e do irracional, chega precisamente na igualdade de oportunidades! Se todos somos diferentes, devemos ser considerados de forma diferente na sociedade, mas de acordo com essas mesmas características, e para isso todos têm de ter igualdade de oportunidades!

Aqui entre nós, se a sua colega trabalha mais do que você, se esforça mais, se até é mais inteligente, acha mesmo humano que o cargo de chefe seja seu? E se é ela a promovida pode por favor reconhecer-lhe esse mérito, como faria a qualquer homem, sem dizer que "subiu na horizontal"? É que esse "Clube do Bolinha, mulher não entra" já há muito que passou à história! Deixem por favor de usar a desculpa "mas eu sou homem" para colmatar a incompetência e a inércia masculina! Se são mesmo bons, provem-no! E assim podem continuar a mandar nas mulheres mas com legitimidade! Será assim tão difícil reconhecer a competência e deixar de atribuir lugares, dias e eventos especiais às mulheres só para "fazer número"?