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Expresso

Não são defeitos da gravidez, são efeitos

Uma modelo sueca aparece na capa de uma revista em biquíni, acompanhada pelas duas filhas e exibindo a barriga pós-parto. Flácida, com cicatriz de cesariana, sorridente, confiante. Porque é que uma capa destas ainda faz tanto furor? Porque o corpo feminino após uma gravidez continua a ser um tabu. Visual, verbal, social. Afinal, porque temos nós ainda tantos constrangimentos em olhar e aceitar um corpo desnudo depois de uma gravidez?

Há várias repostas para isto, sendo que uma delas passa obviamente pela eterna pressão sofrida pelas mulheres no que toca à sua aparência, nas mais diferentes fases das suas vidas. A gravidez e o pós-parto é uma delas. Há uns tempos dei por mim a encontrar-me com uma amiga que tinha tido uma bebé há pouco tempo, e das primeiras coisas que me saíram boca foi a frase feita: “Estás óptima, já emagreceste imenso!”. Como se isto de se estar com uma boa aparência e a recuperar a imagem corporal fosse uma questão primordial. Mentalmente bati na minha própria boca e senti-me frustrada comigo própria por ter feito exatamente aquilo que acredito que não se deve fazer. A lição a retirar desde momento foi-me clara: ainda é totalmente inconsciente e automática esta necessidade de validarmos as mulheres quanto ao seu corpo depois de terem dado à luz. Como se enquanto mães e mulheres isso fosse fundamental. Não é.

É imensamente fácil romancear-se o pós-parto e resumirmos a questão da recuperação do corpo à disciplina, dieta e ‘força de vontade’ (esse enorme cliché). E encaixa-se esta expectativa como se fosse a coisa mais natural do mundo, quando na realidade o que devíamos fazer era ter uma noção clara de que quando se tem um recém-nascido em casa, se está em completo descontrolo hormonal, em adaptação ao ritmo daquela nova vida que agora marca o ritmo, com mamas a latejar por causa do leite, mamilos doridos e gretados, cicatrizes em recuperação, e se tenta gerir tudo isto em constante privação de sono, a dieta, o ginásio e a tal ‘força de vontade’ não são propriamente prioridades máximas, nem tampouco expectativas reais para a larguíssima maioria das mulheres deste mundo. E isso não faz delas desleixadas, faz delas humanas.

“Enquanto mulher sinto-me um destroço”

DR

Já uma vez relatei por aqui as palavras que nunca esquecerei, ditas por uma amiga meses depois de dar à luz a segunda filha: "É um dos momentos mais felizes da minha vida mas enquanto mulher sinto-me um destroço”. Uma sensação de 'destroço' que se prolonga no tempo, tantas vezes ao longo de anos. Um ‘destroço’ escondido por baixo de roupas largas para afastar quaisquer olhares mais furtivos à nova realidade dos corpos, que está longe de ser aquilo que se vêm em filmes e revistas. Há quem recupere rapidamente, mas há também quem não consiga. Cada mulher é uma mulher e cada corpo é um corpo. Não há nenhuma gravidez que seja igual a outra, tal como não há nenhuma recuperação que seja exatamente igual. Somos humanos, com todas as particularidades físicas, psicológicas, emocionais, económicas, sociais e demais fatores que influenciam o processo, volto a reforçar.

É talvez por isso tão importante que surjam mulheres que optam por quebrar este ciclo longuíssimo de imagem pública irreal quanto aos corpos femininos depois da gravidez. E é duplamente interessante quando vemos isso no corpo de uma modelo, que certamente nos pode ajudar a perceber que isto do “cada corpo é um corpo” não podia ser mais real. Esta modelo pesava pouco mais de 50 quilos, um valor que distribuído pelos seus 1,74m fazia dela uma mulher delgada, de barriga lisa e corpo standard de passarela. Duas cesarianas depois a sua barriga é assim, como a vemos nesta capa de revista. E ela não tem de se envergonhar. Ou será que devia?

Quando olhamos tanto para esta bonita capa, como para as múltiplas fotos do seu corpo que a modelo vai partilhando no Instagram, o que vemos não são defeitos, são efeitos da gravidez. Umas mulheres conseguem ultrapassá-los rapidamente, outros demoram anos, ouras nunca voltam a ter um corpo igual ao que tinham antes. E está tudo bem. Talvez esteja na altura de os aceitarmos em vez de os diabolizarmos. De os assumirmos como algo normal e não como algo repulsivo ou digno do rótulo de “desleixada”. Se querem falar de recuperação pós-parto, que se fale numa óptica de saúde – amplamente desvalorizada – em vez de se priorizar a estética, como se as mulheres tivessem algo a provar ao mundo quanto à sua aparência depois de serem mães