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Expresso

Como ele é gay pode apalpá-la à vontade

D.R.

Um homem apalpa uma mulher durante uma entrevista de tv. Ela não gosta da atitude e chama-o à atenção em direto. Os envolvidos no momento televisivo tentam desvalorizar. “Qual é o mal? Ele é gay!”, vai-se lendo em múltiplos comentários de resposta ao vídeo. E o facto de ser gay dá-lhe o direito de tocar inapropriadamente no corpo dela? A resposta só pode ser uma: não.

O episódio remonta a 2014, mas o vídeo acabou por ganhar notoriedade nos últimos dias. Em plena conversa conjunta de jurados do X-Factor, o empresário irlandês Louis Walsh tem o braço em redor da cantora e jurada do programa, Mel. B, enquanto participa nos comentários. Ao mesmo tempo que fala, a sua mão vai descendo até ao rabo da cantora, dando-lhe primeiro umas palmadinhas e depois uns apalpões. Ele fá-lo com um visível à vontade, como se fosse simplesmente normal apalpar o rabo de uma colega enquanto debita opiniões. Se calhar é. Um exemplo de manifestação inconsciente da normalidade com que a demonstração de poder, pela via da apropriação do corpo alheio, acontece.

Ela vai ficando visivelmente incomodada e interrompe a conversa para chamar à atenção para a mão dele, e questiona-o: “Porque estás a mexer no meu rabo?”. Walsh parece ser apanhado desprevenido, não só pelo seu próprio comportamento, como pelo facto de ela o ter repreendido à frente de todos. E ainda atira a deixa paternalista do “estava só a cuidar de ti” como se fosse justificação. Dá para perceber que Walsh apalpava Mel B. sem pensar, ou seja, um comportamento de quem se acha no direito de o fazer. Não estamos a falar de duas pessoas e situação de flirt, nem de um casal numa relação de intimidade, cuja forma de contacto corporal é tantas vezes íntima sem que se dê sequer por isso. Toca-se porque se está à vontade, porque há consentimento, porque faz parte da dinâmica sexual, emocional e de intimidade entre pessoas (claro que também podem existir comportamentos abusivos dentro das relações, mas isso fica para outro texto). Neste caso estamos a falar de dois colegas de trabalho numa entrevista de televisão. Já agora, de um importante empresário do mundo do espetáculo, alguém que tantas e tantas vezes tem nas suas mãos o rumo de artistas. É inevitável pensar nisto: se em pleno direto televisivo se sente no direito de apalpar distraidamente o rabo a alguém, que tipo de comportamentos poderá ter à porta fechada?

Se isto tivesse acontecido agora passaria despercebido?

Não estou com isto a dizer que Louis Walsh é um óbvio agressor sexual, nem isto deve ser encarado como uma caça às bruxas. Depois de vermos este vídeo, Walsh é apenas mais um rosto que acabamos por dar a um problema que é endémico. Quatro anos depois, este vídeo tem o condão de funcionar como wake up call para a passividade com que encarávamos estes episódios. Episódios que podem parecer insignificantes, mas que são altamente reveladores da normalidade instituída quando falamos de fronteiras entre sedução e comportamentos abusivos. Da forma como estando em determinada posição de poder – que pode

ser hierárquica, económica, física, moral, etc, etc – o contacto físico inapropriado é encarado como um mal menor, algo passível de ser considerado justificável dependendo das circunstâncias. E como o corpo feminino era e continua a ser desumanizado, em jeito de objeto que se possui.

Provavelmente, se este episódio tivesse acontecido numa altura pós #MeToo não teria passado tão despercebido quanto passou em 2014. Nem os colegas de Mel B. teriam reagido da mesma forma, acredito. Hoje, há cada vez mais pessoas despertas para a importância de se condenarem comportamentos abusivos, até porque se começa a ter uma maior noção da sua gravidade, impacto, dimensão e generalização mundo fora. Se na altura isto foi totalmente desvalorizado, encarado como uma brincadeira inconsequente, um género de ‘à vontadinha’ próprio do mundo do estrelato, e reduzido ao facto de Mel B ter um certo mau feitio (nada mais, nada menos do que passar a culpa para o outro lado, pela via da ridicularização), hoje já se questionam as fronteiras de tal atitude. Que mexem, obviamente, com pilares como o do respeito e da dignidade.

São muitas as pessoas que têm demonstrado indignação ao verem o vídeo. Mas também continuam a ser muitas as que tentam arranjar justificações para atitudes como a de Walsh. O facto de ser gay é uma delas, como se a sua orientação sexual tornasse simplesmente viável que possa tocar inapropriadamente numa mulher. Não torna. Como a própria Mel B deixou claro, é simplesmente “inapropriado”. Um dia havemos todos de perceber este conceito básico, espero eu.