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Expresso

Nas mulheres, os pelos metem nojo

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Lanço-vos o desafio: enumerem quantas vezes se lembram de ter visto campanhas de lâminas, ceras, bandas e demais artefactos depilatórios femininos que mostrassem uma mulher com pelos. Lembram-se de alguma imagem de pelos nas pernas, virilhas ou sovacos? Provavelmente não. Por isso mesmo, a marca Billie arrisca mostrar o que ninguém quer ver: sim, as mulheres têm pelos. E que não, não são nojentos nem grotescos, são só normais. E que mais do que uma obrigação, a depilação feminina é uma opção.

Uma coisa é certa: quando vemos anúncios a lâminas de barbear, é bastante provável que apareça um homem com barba na cara. Invariavelmente, as imagens mostram caras com abundante espuma de barbear e uma lâmina super eficiente que vai retirando a camada de pelo. Ninguém se choca, é só normal ver barba. Mas quando falamos de depilação feminina isto não é bem assim. Tal como nas publicidades a tampões e pensos higiénicos – em que o período é representado por líquidos de cores que nada têm a ver com a realidade do nosso fluxo menstrual – também no que toca à depilação há um tabu visual e estético na representação da pilosidade. Entra no espectro do asqueroso, do sujo e do feio, do que deve ser escondido porque não é natural. Mas é.

Claro que há diferenças entre os corpos femininos e masculinos, mas ter pelos é algo simplesmente normal e inerente ao desenvolvimento dos nossos corpos. Umas pessoas têm mais, outras têm menos. Umas têm-nos fortes, grossos ou abundantes, outras têm-nos finos, fracos e em pouca escala. Seja como for, invariavelmente temos pelos em diferentes partes do corpo. Sim, embora possa não parecer, as mulheres têm pelos nas pernas, nos sovacos, nas virilhas, nos genitais, na cara e até mesmo nos dedos dos pés. E boa parte deles têm razão de existir, muitas vezes relacionada com saúde. Contudo, a estética, ou a formulação que fizemos dela quanto à figura feminina, diz-nos que eles devem ser banidos. Quantos menos, melhor. Mais bonitas somos, mais aceitáveis. Mas este vídeo delicioso da Billie ajuda-nos a perceber que isso não é bem assim.

Eu sei que estou aqui a debitar este discurso de necessidade de desconstrução do estereótipo, mas eu própria não o consigo fazer. Sim, os pelos deixam-me desconfortável por mais que eu saiba que tal sentimento não faz sentido. Sinto que esteticamente não ficam bem, sinto que a minha higiene não é a mesma, sinto que há algo errado em mim quando eles despontam. E assumo-o sem problemas porque acho importante que se perceba que este é um sentimento totalmente enraizado e que uma ideia que anda há décadas a ser implementada nas nossas cabeças através dos mais variados canais, em jeito de verdade absoluta, não se consegue desfazer de um momento para o outro. E não há nada de mal nisso, é como qualquer outro caminho. Vai-se fazendo.

É por isso que publicidades, campanhas e estratégias de negócio como estas fazem sentido: porque mexem com o nosso desconforto. Porque nos fazem olhar – no sentido literal da palavra - para estes temas. Porque nos levam a questionar e a quebrar regras que fazem pouco sentido. Porque nos ajudam a normalizar uma ideia que tem sido vendida como algo que está errado, quando na verdade é só parte da nossa anatomia. Se tivéssemos a oportunidade de nos deparamos mais vezes com imagens como estas, provavelmente não ficaríamos tão incomodadas com os nossos próprios corpos quando os pelos despontam. Nem tão chocados quando vemos uma mulher na rua com pelos no sovaco (lembram-se da quantidade de insultos e ameaças que uma modelo sueca recebeu por ter aparecido com pelos numa campanha da Adidas?). Acharíamos que era simplesmente a sua opção. Ou melhor, isto nem sequer seria tema de conversa. Sei que repito esta frase muitas vezes, mas como otimista nata não me canso de repetir: um dia lá chegaremos.