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Expresso

A vida de saltos altos

“Se amor entre homens é uma doença, estamos doentes”

Em antecipação do Mundial 2018, esta mensagem foi enviada a Vladimir Putin por um canal de televisão argentino: "Senhor Presidente da Rússia, soubemos que no seu país não são permitidas manifestações de amor entre homens. Então, temos um problema”. Independentemente de o vídeo correr o risco de poder reforçar estereótipos (já lá vamos), a ideia global passada às massas é essencial: a homofobia é inaceitável.

Entre homens que se abraçam suados, dentro e fora de campo, o vídeo recorre à sátira para fazer uma dura crítica à Rússia e às suas políticas homofóbicas. E a ideia até consegue passar, é certo. Mas embora num primeiro momento esta produção possa até parecer genial, corre o risco de negar duplamente o tema em causa ao colocar em pé de igualdade duas coisas que não são de todo o mesmo: uma coisa é os homens demonstrarem livremente emoções, outra é serem homossexuais. Misturarmos estas duas ideias, transformando-as numa só, é de certa forma reforçar estereótipos e negar a homossexualidade em toda a sua amplitude, uma vez mais.

Ser homossexual não passa simplesmente por abraçar homens suados num bar. Não é propriamente o cliché de dar palmadas no rabo, nem tampouco de rebolar na relva em euforia, chorar por outro homem ou ter um problema de hemorroidas. Muitos dos exemplos dados ao longo do vídeo são simples formas de rotura da masculinidade exacerbada, ideia que continua a prevalecer na nossa sociedade. É demonstrar que os homens também têm – e devem ter livremente - emoções e demonstrações de afecto entre si, não sendo mais fracos ou menos homens por isso. E que o futebol, dentro e fora das quatro linhas, pode ser um cenário de tudo isto. Esta mensagem é boa, escusado será dizer. Mas usada numa campanha contra a homofobia torna-se fraca e corre o risco de potenciar duplamente os preconceitos associados aos homens homossexuais, bissexuais e trans. E de certa forma desvalorizar a gravidade da violação dos direitos humanos mais básicos de que tantas pessoas são vítimas na Rússia.

Claro que não me parece que a ideia da equipa que produziu esta campanha publicitária fosse essa. É por isso que, à primeira vista, o vídeo até consigue passar uma mensagem positiva, e que certamente muita gente ficará com essa primeira impressão na cabeça. Mas quando se abordam estes temas, é importante perceber que muitas vezes a boa vontade não chega, e que cada vez mais é preciso ir mais longe na construção da mensagem final. Sendo hoje o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, partilho convosco a campanha para que possam espreitar e refletir um bocadinho sobre as várias mensagens implícitas.

A parte boa é que o vídeo deu amplamente que falar pela primeira razão (a da crítica a Putin e das suas políticas homofóbicas), acabando por gerar desconforto na Rússia, que acusou o toque e exigiu que tal “vídeo difamatório” fosse banido. E talvez nos dê que pensar a nós, que vamos estar a contribuir para audiências que valem milhões, num evento que tem como anfitrião um Governo déspota. Tal como poderá acontecer com a Eurovisão, caso se realize em Jerusalém daqui a um ano, sem que nada mude até lá. Se queremos ser realmente críticos, não basta apontarmos o dedo a artistas e jogadores, que são os alvos mais fáceis à conta da sua visibilidade pública. Comecemos por nós próprios.