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Expresso

A vida de saltos altos

Todos os corpos são ‘corpos perfeitos de verão’

d.r.

á começaste a preparar o teu corpo perfeito de verão? A silhueta de praia está pronta? Dos cremes às cirurgias estéticas, dos artigos de revista com dicas às dietas milagrosas, começou a época dos conteúdos que vendem sem qualquer pudor a ideia errada de que, principalmente as mulheres, têm uma meta a cumprir se quiserem pôr o corpo à mostra. Mas afinal, o que é isto de um corpo perfeito para a praia? Simples: um corpo na praia, seja ele qual for. Mas quantas indústrias lucram com a ideia contrária? Muitas.

A aparência feminina é alvo constante de um escrutínio público, algo que se acentua significativamente quando se aproxima o verão. De uma forma ou de outra, a mensagem que nos entra pelos ouvidos e olhos das mais variadas formas é que o inverno nos fez falhar quanto ao nosso corpo. E que agora que o vamos destapar devemos ter vergonha se não cumprirmos uma expectativa social estereotipada. Expectativa essa na qual tendemos a acreditar como se fosse uma verdade e necessidade absoluta da humanidade, em vez de, simplesmente, a questionarmos.

Seja na rua, na Internet, nas páginas de revista, nos cartazes de supermercado, farmácias e demais espaços comerciais, multiplicam-se os avisos quanto a esta necessidade. Em jeito de de juízo final, começa a caça aos corpos com celulite, barriga, braços flácidos, estrias, manchas e tom de pele, que, como é óbvio, não se quer demasiado pálido por mais que tenha passado longos meses tapado para se proteger do frio. Quando começarmos a tirar as camadas de roupa e a ter carne mais à vista, principalmente na praia quando a exposição é maior, há que cumprir a tal expectativa no que toca à aparência, e nessa expectativa não há espaço para fugir a esta norma de “perfeição absoluta” que nos é vendida amiúde.

A escravatura da beleza é uma mina de ouro

Se foges da norma és rotulada de desleixada, tão simples quanto isto. Claro que isto vende porque - e não é preciso ser muito inteligente para perceber isto - que esse suposto desleixo não é nada mais, nada menos, do que a simples realidade de uma boa parte da humanidade. Pintá-la como algo negativo é altamente rentável e são muitas as indústrias que sabem disso. Em “O Mito da Beleza”, um livro que eu adoro e que recomendo a toda a gente, Naomi Wolf lança a ideia de que “o mito de beleza passa sempre por prescrever comportamentos”. Ou seja, não é propriamente a aparência impossível de alcançar que realmente interessa, mas sim a forma como lá se tentar chegar. E é aqui que chegamos à parte do negócio de ouro em torno da escravatura do corpo perfeito de verão.

Já pensaram na quantidade de indústrias que lucram com esta ideia pré-formatada de que se está em falta caso não se tenha determinado corpo? Ginásios com promoções especiais de treino de preparação para o verão, cirurgias estéticas para reduzir volume, medicamentos que queimam calorias, produtos de beleza que fazem desaparecer tudo em meia dúzia de dias, dietas loucas, alimentos em versão light, livros com programas de emagrecimento, ténis que ajudam a emagrecer, bebidas alcoólicas que têm menos calorias ou sprays que nos deixam bronzeadas sem sair de casa são apenas alguns exemplos do que nos é vendido como algo essencial à nossa existência nesta altura do ano. Será? Ou será que simplesmente há muita gente a encher os bolsos às conta desta idealização altamente castradora sobre a aparência que devemos ter?

Uma das coisas que acho preocupante é que muitos deste produtos e serviços sejam vendidos sob a alçada da “vida saudável”, quando tantos deles poucos benefícios trazem a um corpo equilibrado e são. Volto a citar Naomi Wolf: “Uma cultura focada na magreza das mulheres não revela uma obsessão com a beleza feminina. Mas sim uma obsessão sobre a obediência feminina”. Uma obediência que é visivelmente notória quando metade país entra em semipânico ao pensar na hora de vestir um biquíni. E que se deixa levar por todas estas patranhas que lhes são vendidas em jeito de conselho médico, como se fossem uma necessidade básica à sua sobrevivência.

Saúde e bem estar deveriam ser as palavras chave

Paremos para pensar nisto: o corpo perfeito de verão não passa de uma falácia que nos faz descurar da importância da autoestima. E pessoas com elevada autoestima têm a confiança e segurança suficiente para questionar o que as rodeia em vez de se comportarem como carneiros. Enquanto sedativo social, a falta de autoestima vai cumprindo também o seu propósito. A verdade é que não devia ser suposto que, desde meninas, as mulheres se sintam em falta com o mundo quando tiram a roupa e ficam de biquíni na praia. Não é suposto ter-se vergonha do corpo, seja de ele de tamanho for, tenha ele a cor, manchas, marcas, cicatrizes, estrias e demais características ou deformações que tiver.

Contudo, não confundamos a aceitação da diversidade corporal com a apologia a hábitos poucos saudáveis de vida. Claro que cuidar do corpo – e também da mente! - é essencial. Mas o ponto de partida não deveria ser a óptica da beleza ou da aparência enquanto catalisador de aceitação social. Saúde e bem estar deveriam ser as palavras chave. Cuidar do corpo passa também por amá-lo e aceitá-lo. Quanto ao tema praia, vestidos vaporosos e pernas ao léu, tenham dó: todos os corpos são corpos perfeitos de verão.