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Expresso

Era uma vez um príncipe que abusou da donzela adormecida

Donzelas beijadas por homens quando estão inconscientes. Mulheres que tentam matar mulheres porque elas são mais bonitas. Raparigas que, em troca de proteção, limpam a casa e cozinham para homens anões. E que precisam de ser salvas por príncipes. Será o sexismo uma realidade quando olhamos para clássicos infantis? O último vídeo da Amnistia Internacional também pensou nisto.

Sabiam que apenas 9 países da Europa têm uma lei que define especificamente o sexo sem consentimento como violação? O lembrete é dado pela Amnistia Internacional, que lançou recentemente uma pertinente versão alternativa do clássico A Bela Adormecida para abordar o tema do assédio e abuso sexual. Neste adaptação, o beijo que o príncipe dá à menina inconsciente, serve de ponto de partida para a mensagem “sem consentimento não há contos de fadas”. Já tinham pensado nisto?

Nesta curtinha animação vemos o príncipe encantado chegar ao pé da princesa ao som de uma música romântica. Ela está deitada, inconsciente, supostamente à espera que alguém a salve de um feitiço (pelo menos é o que nos diz o conto). O príncipe, tal como esperado, aproxima-se e beija-a na boca. E depois, continuando ela inconsciente, apalpa-a entra as pernas (um “grab her by the pussy” versão conto de fadas). Um mocho chama-o à atenção e questiona-o sobre o ato, uma vez que a miúda está inerte. O príncipe justifica-se, dizendo que já se tinham encontrado anteriormente e que ela obviamente estava a fim, portanto não era preciso ela estar acordada.

Obviamente que este vídeo tem um lado humorístico. Os diálogo têm piada, tal como as expressões do príncipe ao ser admoestado pelos animais da floresta. Contudo, serve o seu propósito e a mensagem final que passa não podia ser mais séria: não há nada que justifique atos sexuais sem consentimento. Independentemente de o agressor ser um príncipe ou demais posições de superioridade. Ou de a vítima estar alcoolizada, drogada, a dormir, usar determinada roupa, ter feito determinado comentário, já ter dito que sim antes, ser uma pessoa com quem se mantém uma relação amorosa, e demais factores que costumam ser postos em causa, como se a real culpada do abuso fosse a vítima e não agressor.

Os contos de fadas são sexistas?

Acho bastante relevante que a Amnistia Internacional recorra a um conto infantil tão conhecido quanto este para abordar tal temática. A verdade é que se olharmos para os clássicos de históricas para crianças são muitos os atos abusivos e estereótipos sexistas que encontramos pelo caminho. Tal como a Bela Adormecida, também a Branca de Neve é salva por um homem que a beija quando ela está inconsciente. Ou seja, nenhuma das duas deu autorização para tal ato íntimo levado a cabo por um homem que não conhece de lado nenhum, mas esse mesmo ato é aceitável, não só porque eles são príncipes (e dos príncipes devemos aceitar tudo porque qualquer mulher deve querer ter um na sua vida), como é ele que a salva das adversidades. Elas, claro, não são capazes de se defender sozinhas dos males do mundo. São frágeis, delicadas e, obviamente, precisam de ser salvas.

Sem surpresas, em vários contos infantis as princesinhas têm de ser salvas de vilãs, as ditas bruxas. Uma apologia à competição feminina, algo que faz parte da matriz de sobrevivência das mulheres ao longo de séculos. O sexo feminino nascia para ser dependente de figuras masculinas, portanto é óbvio que as meninas e jovens mulheres tinham de desunhar para ser melhores que as demais, de forma a conseguirem conquistar a atenção do macho alfa. Os contos infantis estão cheios disto, tal como da apologia à beleza feminina enquanto factor primordial ao seu sucesso na vida.

Claro que as vilãs são, regra geral, madrastas más que lidam terrivelmente com o processo de envelhecimento e alterações naturais que isso trás à aparência, e que, portanto, ostracizam as enteadas por estas serem jovens e bonitas. As mulheres são velhacas umas para as outras, já se sabe. Tal como são vilãs as meias-irmãs, jovens mulheres complexadas e inseguras por serem gordas ou terem borbulhas, algo que, claro, as torna incapazes de atrair um príncipe encantado para as suas vidas. No fundo, é isso que todas querem e precisam. Escusado será também dizer que as potenciais princesas se querem sempre dóceis, tristes, ingénuas, submissas, sofredoras às mãos de outra mulheres e, é claro, competentes nas lides domésticas. Ou será que já se esqueceram, por exemplo, que a Branca de Neve conquistou a simpatia e afeto dos 7 anões porque lhes fez comidinha boa e lhes limpou a casa? Quanto aos príncipes encantados, claro que são sempre atléticos, corajosos e bonitos.

Será que crescermos a ouvir estes contos infantis nos traumatizou? Não me parece. Mas será que termos como exemplo este tipo de contos de fadas nos ajudou na construção e enraizamento de certos estereótipos de género? Certamente que sim. Um bom exemplo é a aceitação tremenda por parte do sexo feminino quanto a livros e filmes como “As 50 Sombras de Grey”. Que embora sejam uma verdadeira ode às relações abusivas (e não, não é propriamente das cenas de sexo que estou a falar), continuam a ser interpretados como um género de conto de fadas dos tempos modernos. Será que aquilo que ouvimos e vemos durante a nossa infância tem influência nisto? Eu diria que sim.