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Expresso

Os homens que choram também são homens

Maud Fernhout

Chorar, tal como rir, é essencial ao ser humano. E não deveria ser algo que se questiona, nem tampouco que serve para desvalorizar, ridicularizar ou diminuir uma pessoa. Chorar é, ou deveria ser, simplesmente natural, e não algo que se teme, reprime e gera vergonha. É certo que a associação da fraqueza emocional às mulheres faz parte da construção social da figura feminina, sendo, portanto, considerada aceitável e, diria até, expectável. Aliás, uma mulher que não chora é um bloco de gelo. Mas no que toca aos homens, isto continua a não ser assim. Ontem cruzei-me com um trabalho de uma fotógrafa holandesa que se chama “É assim que os homens reais choram” e que tenta precisamente normalizar a imagem masculina em situação de fragilidade.

Lembro-me que quando há uns tempos escrevi sobre os desafios da construção da masculinidade - entre eles a ideia totalmente enraizada de que choro não é coisas de homens à séria - houve quem achasse o tema desnecessário porque na sua casa isso não era assim. Volto a dizer que felizmente há exceções (haverá sempre, em tudo), mas não é isso que nos deve fazer esquecer que ainda são muitos, arrisco mesmo a dizer que na sua maioria, os meninos e rapazes a quem se continua a ensinar que “os homens não choram”, e demais clichés sexistas. Nas várias conversas a que já assisti sobre isto, os relatos vindos tanto de professores, como de médicos, sociólogos ou ativistas, vão sempre ter à mesmas tecla: continuamos a educar os homens para uma masculinidade tóxica onde não há espaço para as emoções, principalmente quando se trata de situações de vulnerabilidade.

Homem que é homem não tem medo

Há várias ideias feitas sobre o que é ser homem que nos acompanham diariamente: o homem tem de ser forte; o homem não tem medo; o homem tem de ter a capacidade de ser um provedor financeiro; o homem tem de ser dado à atividade física; o homem tem de ser sexualmente ativo; o homem não é dado lamechices; o homem tem de ser autoconfiante; o homem não exprime demasiado as suas emoções, e aquele que o faz não é suficientemente másculo. Mas, afinal, o que é ser másculo? Serão o choro, a tristeza, a insegurança, a vulnerabilidade e a dor antónimos da masculinidade? Volto a perguntar: Que efeitos tem este preconceito, passado de geração em geração em jeito de regra incontestável, no crescimento dos meninos, futuros homens? Acreditarão realmente os homens que são menos homens se cederem às caraterísticas que o mundo os ensinou a ver como femininas e, portanto, inadequadas?

Maud Fernhout

Desfazer estes mitos, normalizar a fragilidade no masculino e dar espaço aos meninos, rapazes e homens para falarem sobre as suas emoções é essencial para conseguirmos quebrar este ciclo pernicioso. A igualdade de género é sobre pessoas, portanto não podemos alienar desta equação os estereótipos sexistas associados aos homens. Trabalhos como este de Maud Fernhout, que junta as imagens dos homens aos seus próprios relatos sobre os estereótipos associados ao choro, são um bom catalisador de mudança. Seria obviamente interessante se este ensaio fotográfico incluísse homens de outras idades e culturas, por exemplo, mas como ponto de partida para a reflexão já é bastante interessantes. Podem espreitar o trabalho completo no site da artista AQUI.