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Expresso

Sim, há uma mulher de hijab na capa da Vogue. E sim, isto é positivo

d.r.

Porque é que uma revista como a Vogue pôr na capa uma mulher de hijab é motivo para conversa? Bom, porque é um exemplo raríssimo no que toca ao universo da moda. Um universo que demorou décadas a pôr mulheres negras em capas de revista, e outras tantas décadas até considerar uma mulher gorda digna de tal destaque, por exemplo. Hoje, tanto a moda como a publicidade parecem já ter percebido que o caminho é outro: a beleza não é algo exclusivo à mulher branca e magra. A beleza – neste caso a feminina - é algo universal e de uma diversidade infindável. E não, isto não se resume apenas a cores de pele ou volumes corporais.

Em março do ano passado, a Vogue US – considerada a bíblia da moda - tinha dado que falar ao fazer um capa sob o título “Revolução da Beleza: não ter normas é a nova norma”. Na imagem surgiam sete modelos consagradas, de diferentes nacionalidades, etnias e, num dos casos, um tamanho corporal distinto. Foi a primeira vez que a revista deu destaque a uma modelo do denominado universo plus-size. Na altura, a Vogue US explicou porque é que tomadas de posição como esta – tão distintas da sua habitual linha editorial e estética - são importantes até mesmo para a sustentabilidade da indústria da moda: “Cerca de 67% das mulheres que vivem nos Estados-Unidos usam o tamanho 42 ou acima disso. Sessenta e sete por cento! Se calhar, há uns anos era possível ignorar essas consumidoras, mas agora, graças às redes sociais, elas têm feito com que as suas vozes sejam ouvidas. As mulheres estão a exigir que as marcas lhes deem aquilo que querem. E aquilo que querem é ser tidas em consideração.”

Sim, é triste que esta indústria não tenha chegado a esta conclusão há muito anos e por iniciativa própria. Sim, é triste que durante décadas meninas, adolescentes e mulheres tenham sido ignoradas. Além de terem recebido desta indústria uma construção irreal sobre o que é a beleza, carregada de estereótipos que as excluíam daquilo que parecia ser um direito supremo exclusivo a poucas. É triste que tantas aspirantes a modelo tenham sido violentadas na sua integridade física, moral e emocional para se encaixarem nesta indústria, indústria essa gerida maioritariamente por homens que ditavam as regras de beleza feminina. É triste que tenham de ser as receitas económicas, sempre as receitas, a fazerem com que este universo olhe para dentro e entenda a necessidade de reinvenção das próprias matrizes. Mas por mais triste que isto seja, há algo a mexer e isso é bom. Em tempos de mudança de paradigma também no que toca à aceitação e inclusão dos demais fatores que nos tornam seres únicos, são muitos os que já perceberam que, ou apanham a carruagem, ou ficam para trás.

Elogio à diversidade, individualidade e inclusão

Posto isto, é a vez da Vogue britânica fazer o seu próprio elogio à diversidade, individualidade e inclusão na sua capa de Maio. Mas em vez de o fazer de forma preguiçosa, não: percebe-se que há reflexão sobre o tema e uma tentativa de ir mais longe. Numa imagem que promete ficar para a história da publicação, a revista junta nove jovens modelos que estão a dar cartas e a revolucionar o mundo da moda. Nove mulheres com diferentes tamanhos corporais, tons de pele distintos, etnias bastante diferentes e também culturas, religiões e crenças. O hijab que cobre a cabeça de Halime Aden é o símbolo de um outro aspecto – entre tantos outros, mas lá chegaremos - que faltava juntar a esta discussão: a liberdade religiosa não deve ser um entrave às oportunidades. E uso esta palavra porque, nisto da moda, ter a oportunidade de aparecer na capa de uma publicação conceituada como esta, ou de figurar no catálogo de uma casa de alta costura ou de participar num desfile de determinado designer pode significar um salto gigante na carreira. Escusado será dizer que se essas oportunidades continuam a privilegiar sempre as figuras que correspondem a determinados estereótipos, são muitos os que ficam de fora, com base em estereótipos injustos.

Quantas mulheres que usam o hijab por vontade e convicção própria (nem tudo se resume a opressão) olharão para esta capa e passarão a acreditar que há também um lugar para elas no mundo, sem serem consideradas diferentes pela sua crença? Quantas adolescentes e mulheres negras terão sentido o mesmo quando, em 2002, Naomi Campbell foi a primeira mulher negra a figurar uma capa da Vogue? Foram precisos 50 anos da publicação até que isto acontecesse. E quantas adolescentes e mulheres que vestem acima do número 42 se terão revisto em Ashley Graham, quanto esta fez capa primeiro da Vogue Uk e depois da Vogue US? Quantas mulheres vítimas de ataques com ácido sulfúrico terão ganhado esperança e autoconfiança ao verem Reshma Qureshi na Semana da moda de Nova Iorque? Que impacto tem isto não só na autoestima individual, mas também na percepção e entendimento global sobre, afinal, o que é isto da beleza?

Se bem me lembro, quando Ashley Graham foi convidada a ser capa da Vogue inglesa, em janeiro de 2017, inúmeras marcas de roupa negaram-se a vesti-la para a sessão fotográfica porque era gorda demais. Hoje, competem entre si para a poder vestir. O universo da moda é e deveria ser sobre pessoas. E se olharmos para o nosso mundo, a diversidade de pessoas desta planeta é algo incrível. Celebremos e aceitemos essa diversidade, por favor.