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Expresso

#DeixaElaTrabalhar: Vamos continuar a rir das jornalistas apalpadas em direto?

Beijos na boca, apalpões, convites íntimos, insultos. Estas são algumas das situações que muitas jornalistas desportivas enfrentam, ora por parte de adeptos, ora pelos próprios desportistas que entrevistam. E porque esta é uma realidade inaceitável, no Brasil está a correr a campanha #DeixaElaTrabalhar

O tema do assédio moral e sexual de que as mulheres jornalistas, principalmente as que cobrem eventos desportivos, são alvo não é novidade. Acredito que muitos de nós já assistimos a diretos televisivos onde uma mulher acaba por ser apalpada, beijada ou interpelada de forma inapropriada. Isto acontece em todas as frentes do jornalismo, mas na área desportiva é bastante recorrente. Lembram-se, por exemplo, do jogador australiano de críquete que foi condenado a pagar 10 mil dólares por ter feito convites íntimos e usado linguagem inconveniente durante uma entrevista em direto com uma repórter? Ou do tenista francês que em plena entrevista durante o Roland Garros decidiu apalpar e beijar o pescoço da jornalista? E lembram-se da reação tida pelos colegas dela da Eurosport que assistiam ao momento no estúdio? Basicamente, riram-se e ainda fizeram piadas. Felizmente, a organização do evento não considerou que isto fosse motivo para rir e retirou a credencial ao tenista por tempo indeterminado. Mas se os casos com entrevistados chegam a este nível de desrespeito, escusado será dizer que quando se trata de adeptos de claques, por exemplo, as coisas conseguem ser bem piores.

Ainda na semana passada referi por aqui o caso da jornalista brasileira que foi beijada por um homem em pleno direto televisivo. Desta vez, as reações ao vídeo passaram menos pela risota coletiva e mais pela indignação (sinais de uma maior consciência nesta era pós #MeToo?). Bruna Dealtry, repórter do canal Esporte Interativo, lançou na altura um comunicado que merece ser relido: “Hoje senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, transportes ou até mesmo andando pelas ruas. Um beijo na boca, sem a minha permissão, enquanto eu exercia a minha profissão, que me deixou sem saber como agir e sem entender como alguém pode se sentir no direito de agir assim. Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada”. Mais claro que isto, impossível.

A mesma jornalista é agora uma das caras do manifesto #DeixaElaTrabalhar, lançado em conjunto por várias repórteres brasileiras que trabalham na área do desporto. Uma “iniciativa contra o machismo, o desrespeito e o assédio nos estádios, no ambiente de trabalho, nas redações, na rede social e onde quer que aconteçam”. Infelizmente, isto ainda acontece demasiadas vezes, nos mais variados espaços e contextos. A página lançada por este coletivo deixa aberto o espaço para o debate construtivo sobre o tema e convida todas as colegas de profissão, e mulheres em geral, que tenham passado por situações semelhantes a partilharem as suas histórias, de forma a que o silêncio e a vergonha deixem de imperar. Em poucos dias, a iniciativa não só já começou a inspirar debates em escolas, como conta com o apoio de atletas e ganhou visibilidade internacional.

Tal como já escrevi por aqui anteriormente, é inaceitável que se continue a achar que estas são apenas situações inconsequentes e engraçadas. Ninguém – seja homem ou mulher – tem legitimidade para forçar um contacto íntimo com outra pessoa. Alguém que insiste em tal ato, mesmo depois de ter sido afastado uma primeira vez, é porque se sente mesmo na legitimidade de contacto forçado. E que provavelmente não entende que esse mesmo contacto forçado é um comportamento abusivo. Ou que até entende, mas que se sente impune ao fazê-lo, e no direito de o fazer. Sem pôr em causa o desrespeito inerente ao mesmo, nem o desconforto, a humilhação ou a invasão do espaço provocados ao outro.

Nestes casos de assédio sobre jornalistas, acresce o profundo desrespeito profissional. O facto de a repórter ser mulher não deveria sequer ser uma questão durante uma entrevista ou um direto, o que interessa é a sua prestação e profissionalismo. Mas ainda é. Estes atos recorrentes são altamente sintomáticos não só do menosprezo e discriminação que recai sobre o sexo feminino, mas também da sensação de poder e de impunidade que servem de motor a boa parte dos comportamentos machistas que enfrentamos amiúde no espaço público e contexto profissional. Tal como a conivência de boa parte dos pares masculinos – tanto repórteres como comentadores - que assistem a estas situações e ainda fazem piadolas por cima, algo que apenas valida o ato, em vez de o condenar.

Volto a repetir estas questões que nos podem ajudar a pôr isto em perspectiva: se fosse um homem a fazer a entrevista, o entrevistado também lhe daria beijos no pescoço? Se fosse um homem a fazer um direto, também seria apalpado e beijado na boca? E o que é que leva alguém a achar que pode simplesmente beijar e apalpar uma mulher sem o seu consentimento? Será que quando o fazem não consideram que o ato pode ter consequências? Porque é que um desportista se ri do seu próprio comportamento inoportuno, como se assediar uma jornalista fosse algo hilariante? E porque é que quem assiste ao momento se ri também? Porque é que a humilhação de uma mulher e um contacto íntimo forçado têm, aparentemente, piada? Porque é que continuamos a desvalorizar atos abusivos, como se não passassem de brincadeiras inocentes? São questões que dão que pensar e que exigiriam igualmente a nossa reflexão caso isto fosse ao contrário. Mas a verdade é que não acontecem.

A Vida de Saltos Altos vai de férias por uma semana, mas volta em breve para continuar a refletir sobre esta questões que nos dizem respeito a todos. Boa Páscoa, pessoas!