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Expresso

Emma Gonzalez: Um silêncio ensurdecedor que fica para a história do EUA

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Pode um silêncio prolongado ser mais incómodo, poderoso e dizer mais do que todo um discurso carregado de palavras? Pode. Emma Gonzalez, a adolescente que se tornou no rosto da luta contra a venda indiscriminada de armas nos EUA e o domínio da NRA, mostrou ontem que isto é possível. E o seu silêncio de 6 minutos e 20 segundos promete ficar para a história do seu país

Escusado será dizer que lutar contra a bola de neve de influências da NRA no que toca à política dos Estados Unidos não é fácil. A discussão em torno da venda de armas naquele país acontece há décadas, e a cada nova tragédia o tema volta a estar em cima da mesa. Mas nada muda porque, na realidade, pouco interessa que mude quando o dinheiro fala mais alto do que as vidas de meia dúzia de adolescentes. Se a conversa não chega para que a mensagem se faça ouvir, talvez o silêncio, daquele que consegue ser ensurdecedor de tão incómodo que é, o consiga. O de Emma Gonzalez, ontem em Washington, pode ter tido esse condão.

Seis minutos e vinte segundos. Foi o tempo que demorou a matança no liceu Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, levada a cabo por um ex-aluno que ceifou a vida a tiro a 17 pessoas. Emma Gonzalez sobreviveu ao ataque, mas a sua vida mudou para sempre. E se há coisa que tem deixado bem clara é que não vai deixar que o seu país esqueça todos os inocentes que morreram naquela fatídica tarde de fevereiro. A adolescente defende que boa parte da culpa recai sobre a venda indiscriminada de armas, que ano após ano é a causa de morte de inúmeros inocentes, tantos deles alunos de escolas onde sucessivamente ocorrem ataques como o de Parkland. Enquanto os “adultos se comportarem como crianças” no que toca a esta realidade, Emma tem um conselho para os adolescentes do seu país: Lutem pelas vossas vidas antes que tenha de ser alguém a fazê-lo por vocês."

Emma dá voz à luta contra um esquema de poder que parece ser inquebrável

Mas quem é esta adolescente que conseguiu juntar mais de 500 mil pessoas, boa parte deles miúdos adolescentes da chamada “geração dos tiroteios”, num protesto intitulado Marcha Pelas Nossas Vidas? Quem é esta miúda que teve o condão de pôr não só o seu país, mas também boa parte do mundo, a ouvir um prolongado silêncio que conseguiu dizer mais do que mil palavras? Como a própria Emma Gonzalez escreveu num ensaio publicado na Harper’s Bazaar, “tenho 18 anos, sou cubana e bissexual. Sou tão indecisa que não consigo escolher uma cor favorita e sou alérgica a doze coisas. Desenho, pinto, faço croché, costuro, bordo - qualquer coisa produtiva que possa fazer com as minhas mãos enquanto vejo Netflix. Mas nada disso importa. O que importa é que a maioria do povo americano se tornou complacente com uma injustiça sem sentido que ocorre em seu redor. O que importa é que a maioria dos políticos americanos se tornou mais facilmente influenciado pelo dinheiro do que pelas pessoas que votaram neles. O que importa é que os meus amigos estão mortos, juntamente com centenas e centenas de outros adolescentes em todos os Estados Unidos."

Emma tem razão, o que aqui importa não é escrutinarmos quem ele é, mas sim focarmo-nos no que ela tem para dizer ao mundo. E tem muito. Emma dá voz à luta contra um esquema de poder que parece ser inquebrável. Emma é o rosto da revolta de todos os miúdos que ainda não têm voz ativa ou poder de decisão no seu país, mas que já perceberam que aqueles que mandam e que têm esse poder não põem – nem nunca irão pôr - as vidas dos estudantes acima dos interesses económicos. Emma é o rosto adolescente da coragem de ir contra a corrente que já falta a muitos adultos, aqueles que deveriam ter a tal voz ativa de indignação, mas que já aceitaram a suposta ordem natural das coisas e que pouco ou nada farão para tentar mudar um lobby tão forte quanto o da NRA.

Se pensarmos que boa parte das revoluções do nosso mundo foram feitas por gente jovem, é muito inspirador ver o que aconteceu em Washington este fim de semana. Serão estes mesmos jovens, adolescentes ingénuos, com o coração na boca e sem o espartilho dos filtros que invariavelmente acabam por se colar ao dia-a-dia dos adultos, que terão o condão de provocar a mudança? Ninguém sabe esta respostam, mas a verdade é que estes 500 mil adolescentes vão fazer parte da população adulta e com poder de decisão do futuro próximo do Estados Unidos. A força e determinação do discurso de Emma Gonzalez - que partilho em baixo convosco – faz parte do ADN de boa parte da sua geração. Uma geração que poderá muito bem chegar à vida adulta com sede de inversão das regras do jogo. Esperemos que assim seja.