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Expresso

Oito meses de prisão por causa de um tabefe? Que vergonha, Israel

epa

Tem apenas 17 anos, mas torna-se cada vez mais no rosto da resistência à ocupação da Cisjordânia. Ontem foi condenada a oito meses de prisão por ter agredido ao estalo dois soldados armados, junto à casada sua família. E por ter partilhado o vídeo desse confronto nas redes sociais. É por causa desse mesmo vídeo que muitos já conhecem o seu nome: Ahed Tamimi. Mas quem é que a ajuda agora, quando clicar num botão play não é suficiente?

Ora bem, o caso que a levou à prisão remonta a dezembro, mas a sua história de resistência começa logo na sua infância. Nascida numa família de resistentes palestinianos, Ahed começou a participar em manifestações e protestos aos oito anos. Estamos a falar de uma miúda que cresceu em clima de ocupação israelita, e que formou a sua personalidade até aos dias de hoje assistindo na primeira fila a várias investidas de repressão sobre os seus familiares, muitas delas bastante violentas. Para termos noção da cabeça desta miúda, desde pequena que Ahed é conhecida publicamente pela vontade de vir a ser advogada para um dia poder defender a família e o seu povo.

Em 2012 tornou-se uma figura mediática ao surgir numa fotografia onde tentava impedir a detenção da própria mãe. Tinha 11 anos. Três anos depois voltava a dar muito que falar graças a um vídeo onde surgia a fazer frente a um soldado que tentava apanhar o seu irmão, também menor, por ele lhe ter atirado pedras. As suas imagens tornaram-se inconvenientemente virais em diversas ocasiões, sendo que última foi em dezembro: na sequência de ter visto um primo ser baleado na cabeça durante um protesto, Ahed enfureceu-se contra dois soldados que rondavam a casa da sua família. Se a visita foi casual ou a uma provocação calculada nunca se saberá. Claramente revoltada, Ahed tentou agredi-los com bofetadas, pontapés e gritos. Na altura, a adolescente não foi detida, mas depois de estas imagens terem começado a circular na internet, Ahed foi tirada de casa pelas forças israelitas a meio da noite. Estava supostamente a incentivar a violência contra Israel. Estávamos em dezembro de 2017 e Ahed tinha 16 anos. Chegou aos 17 na prisão.

Há 350 crianças palestinianas detidas em prisões, alerta a AI

Reforço as palavras de Magdalena Mughrabi, diretora adjunta da Amnsitia Internacional para o Médio Oriente e o Norte de África: “Sendo uma criança e não indo armada, Ahed não podia representar qualquer ameaça durante a altercação com os dois soldados israelitas, que estavam fortemente armados e tinham fatos de proteção. Nada do que fez justifica que continue sob custódia, nem as longas e agressivas sessões de interrogatório que teve de suportar durante as duas primeiras semanas de detenção”. Tal como é injustificável que isto culmine com uma pena de prisão de oito meses, mais uma multa acima de 1500 euros.

É verdade, Ahed considerou-se culpada de quatro das 12 acusações que estavam em cima da mesa: agressão, dificultar o cumprimento dos deveres militares e dois casos de incitação à violência. Mas é importante perceber que considerar-se culpada era a única solução que lhe restava se queria evitar uma sentença ainda mais desproporcionada do que esta. Aliás, Israel deixou claro que não havia espaço para medidas brandas. E, é claro, não podemos esquecer também os dados que tanto a Amnistia Internacional, como outras organizações de direitos humanos, têm reforçado: existem atualmente 350 crianças palestinianas que se encontram em prisões e centros de detenção israelitas. O que é que tem sido feito por elas? O que seria feito por Ahed se ela não aceitasse esta acordo?

A diferença é a atenção internacional recebida por Ahed, que - escusado será dizer - é altamente incómoda para o governo israelita. Mas também é importante relembrar um outro aspecto que não é muito favorável ao mundo ocidental, e que faz parte desta visibilidade conquistada pela jovem: o seu aspecto físico, tão distinto da imagem estereotipada do povo palestiniano, tem ajudado a esta empatia. Muitas outras crianças palestinianas já se revoltaram e fizeram frente a soldados, muitos outros vídeos foram surgindo ao longo dos anos, muitos menores foram igualmente presos. Mas Ahed é uma miúda de cabelo, pele e olhos claros, igual a tantas outras europeias ou norte-americanas. A nossa capacidade de humanização de Ahed, por mais hipócrita que isto seja, tende a ser maior neste caso também por esta razão. E o Governo israelita também sabe disso.

Contudo, o problema de Ahed não é apenas a sua impertinência e aparência física, algo que se reflete também nas roupas que escolhe (é verdadeiramente surreal que até mesmo a roupa ocidentalizada que a adolescente usa seja considerada uma provocação) . O seu problema não são também apenas as suas ações de adolescente revoltada e inconformada. O seu maior problema é provavelmente o seu apelido. Prender e punir Ahed é prender e punir simbolicamente toda uma família, conhecida pela postura de resistência ao longo das últimas décadas. E punir esta família é deixar claro que vozes de resistência contra a ocupação israelita não são bem-vindas, sejam elas de quem for, sejam elas de maiores ou de menores. Todas serão julgadas e punidas severamente, quer tenham apontado uma arma de fogo, uma pedra ou simplesmente levantado a mão e gritado com um soldado. Se isto não é uma forma de intimidação e de abuso de poder, não sei bem o que será. E nós a assistirmos a tudo de braços cruzados.