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Expresso

O que Katy Perry fez também é uma forma de assédio

d.r.

Enquanto júri do American Idol, a cantora beijou um rapaz contra a sua vontade. Ele tinha 19 anos e nunca tinha beijado ninguém porque esperava ter uma pessoa especial na sua vida. Katy Perry considerou isso um problema e achou-se no direito de o beijar. Por ele ser homem e ela mulher, isto é aceitável?

Na semana passada, uma partilha feita pelo presidente da associação Quebrar o Silêncio (que apoia homens vítimas de violência sexual) alertou-me para uma audição do American Idol, onde os jurados questionaram um participante se já alguma vez havia beijado uma rapariga. Ele tinha 19 anos, e disse que não, “porque nunca esteve numa relação afetiva”. Primeiro, o espanto geral, depois Katy Perry (único membro feminino do júri) ordenou que o rapaz se aproximasse dela e a beijasse. O jovem ficou atrapalhado, e disse que não. Ela pressionou, apoiada pelos companheiros de mesa que não só riam às gargalhadas, como começaram a filmar o momento com os telemóveis. De sorriso amarelo, o rapaz aproximou-se e deu um beijo na bochecha. Ela não ficou satisfeita e pediu para ele repetir. Quando ele lhe ia a dar outro beijo na bochecha ela virou a cara e beijou-o na boca. O rapaz caiu no chão com a surpresa e ela esticou os braços em gesto de vitória, enquanto foi aplaudida pelos colegas. Agora imaginemos que era um homem de 33 anos que forçava uma miúda de 19 a dar-lhe um beijo durante um audição de um programa de televisão. Isto também seria considerado simplesmente engraçado?

Na mesma semana em que isto aconteceu, uma jornalista brasileira foi beijada por um homem em pleno direto televisivo. Escusado será dizer que ninguém achou piada e que o vídeo acabou por correr as redes sociais e fazer notícia em diversos meios de comunicação daquele país por ser um ato inaceitável. “Hoje senti na pele a sensação de impotência que muitas mulheres sentem em estádios, transportes ou até mesmo andando pelas ruas. Um beijo na boca, sem a minha permissão, enquanto eu exercia a minha profissão, que me deixou sem saber como agir e sem entender como alguém pode se sentir no direito de agir assim”, escreveu a jornalista num comunicado. “Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada”. Não podia estar mais de acordo com estas palavras. Contudo, as mesmas têm de ser válidas e aceites se forem ditas pela boca do rapaz que foi alvo de um beijo indesejado em pleno programa de televisão.

Não utilizo a palavra “indesejado” em vão. Se tivermos de resumir o que é isto do assédio, muito provavelmente a palavra “indesejado”, seja ela referente a atos ou insinuações físicas, verbais e não verbais, é a linha que define a fronteira do assédio. Cada vez que alguém nos dirige um comentário, um toque, uma mensagem, uma imagem e demais formas de contacto intrusivo e inoportuno, principalmente se estivermos desprotegidos e em posição de inferioridade, ou depois de já termos deixado explícito que não estamos interessados e que essas ações são – lá está - indesejadas, o que essa pessoa está a fazer é uma forma de assédio. E isto é válido para todos nós, homens e mulheres, estejamos nós de que lado da ação estivermos.

Se muitos dos argumentos de tentativa de legitimação do assédio sexual perpetrado por homens sobre mulheres vai ao encontro de múltiplos estereótipos associados aos papéis de cada género na sociedade, este caso que envolve Katy Perry e o jovem concorrente do American Idol é um exemplo claríssimo daquilo que eu consideraria uma construção altamente tóxica sobre o que é masculinidade. Primeiro, vejamos o espanto que causa o facto de um jovem de 19 anos nunca ter beijado uma mulher. Muito provavelmente, para ser um macho à séria já deveria ter beijado meio mundo nesta altura do campeonato. O facto de ele achar que esse tipo de intimidade só deve acontecer numa relação também parece merecedor de desdém, um macho que se preze não precisa de relações de intimidade para ter contacto físico íntimo com ninguém. Portanto, parte-se do princípio que este moço tem um problema e que o melhor é resolvê-lo já, mesmo que ele não esteja interessado. Não é forçá-lo a nada, é só ajuda-lo, coitado. Acredito que tanto Katy Perry como o restante jurado acredita mesmo que lhe está a fazer um favor, e que ele é um sortudo. Ele diz que não com todas as letras, mas no fundo, no fundo, ele até quer. Onde é que já ouvimos isto?

Ela beijou um rapaz e ele não gostou. E tem todo o direito de não gostar

Se ele deseja que o seu primeiro beijo seja dado a alguém especial na sua vida não interessa para nada. Aliás, se ele não tem vontade de beijar uma mulher famosa e boazona como Katy Perry, não pode ser lá grande homem. Afinal, quantos é que não adorariam estar no seu lugar? E que raio de homem é ele se não alinhar com os comportamentos e vontades gerais dos seus pares? Como ele hesita, há então que enxovalhá-lo em praça pública, e partilhar esse enxovalho com o mundo (já não bastava isto ser num programa de televisão, é preciso também filmar em telemóvel). Tudo isto é uma tamanha forma de pressão, que nunca leva em conta nem os sentimentos daquele rapaz, nem tampouco a sua vontade individual. Um ato abusivo e emocionalmente violento, portanto.

Por outro lado, Katy Perry sabe que está numa posição de superioridade – não podemos esquecer que ela é júri do concurso e que o sucesso do rapaz na competição está nas suas mãos. E como todos sabemos, a superioridade, seja ela física, monetária, hierárquica, etc, tem o condão de fazer com que quem está a ser pressionado sinta que não tem outra opção. Foi o que aconteceu com este rapaz, que para tentar encerrar o assunto se sujeitou a dar um beijo na bochecha daquela mulher com quem não desejava ter qualquer contacto íntimo. Mesmo assim, a sua vontade mais uma vez não foi respeitada e acabou por ser beijado na boca. Ou seja, a sua vontade e intimidade foram violentadas mas toda a gente riu às gargalhadas e aplaudiu a atitude de Katy Perry, como se o facto de ela ser mulher e ele um jovem rapaz tornasse tudo aquilo aceitável. Mas agarrando numa das letras mais famosas de Perry, ela beijou um rapaz e ele não gostou. E tem todo o direito de não gostar.

Isto, caríssimos, também é uma forma de assédio. E não me parece que seja digna de gargalhadas ou aplausos.