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Expresso

52 mulheres intrépidas que mudaram o mundo

“Porquê fazer livros só sobre mulheres?”, já me perguntaram no passado. A minha resposta continua a ser a mesma: E porque é que não havemos de os fazer? Porque é que isso há de ser incómodo, se em momento algum esses livros menosprezam as capacidades de qualquer figura masculina? Custa assim tanto aceitar que ter também exemplos inspiradores de mulheres, dedicados a crianças em fase de formação de personalidade, é algo positivo? Felizmente, cada vez há mais e o exemplo que vos dou hoje é mesmo muito bom.

“Nada augura mais problemas do que uma mulher de calças”. É com esta frase, relacionada com a ousadia de Barbara McClintock - que nos anos 30 arriscou entrar na Universidade do Missouri com um traje tão masculino coo umas calças - que começa o livro “As Cientistas – 52 Mulheres Intrépidas que Mudaram o Mundo”. Um livro infanto-juvenil que na realidade também é bom para adultos, uma vez que nos elucida um pouco sobre a invisibilidade histórica das mulheres na ciência, embora o caminho da humanidade esteja cheio de mulheres que fizeram também a diferença neste campo.

Sabiam, por exemplo, que foi uma mulher que descobriu que o sexo é determinado pelos cromossomas Xe Y? Ou que em 1678, quando o estudo e a investigação eram domínio exclusivo do mundo masculino, uma mulher conseguiu obter um doutoramento? E que foi uma mulher que descobriu a estrutura da penicilina, da vitamina b12 e da insulina? Ou que o primeiro centro de investigação em química da Faculdade de Lisboa foi dirigido por uma mulher? Bom, este livro, escrito e lustrado por Rachel Ignotofsky, revela-nos tudo isto de uma forma deliciosa.

A versão portuguesa chega às nossas livrarias daqui a uns dias, numa parceria da Bertrand com a CIG, com uma ligeira adaptação à realidade nacional. Além de incluir dados estatísticos sobre a Portugal (onde a o gap entre homens e mulheres nestas áreas ainda é de 21,8%), inclui ainda as histórias de duas cientistas portuguesas: Branca Edmée Marques, que para poder ir estudar no estrangeiro teve, não só de pedir autorização ao marido, como foi obrigada a levar a mãe consigo para manter os bons costumes. Estudou física nuclear e trabalhou com Marie Curie, e por cá tornou-se a primeira mulher professora catedrática de química em 1964. Contudo, isto só aconteceu 12 anos depois de se ter habilitado a essa posição, apesar do pioneirismo e reconhecimento por parte dos seus pares; A segunda mulher portuguesa a constar neste livro é Elvira Fortunato, a responsável pela invenção do transístor de papel, que teve um papel fundamental no que toca a trazer a electrónica inteligente a materiais e produtos do quotidiano. Já tinham ouvido falar delas?

As raparigas gostam menos de ciência ou não são incentivadas para tal?

À semelhança do livro “História de Adormecer para Miúdas Rebeldas” (cujo segundo volume também foi lançado recentemente), esta é uma forma de dar cara e voz às histórias de mulheres incríveis que também fizeram parte do desenvolvimento do mundo em que vivemos. Mulheres que tantas e tantas vezes foram menosprezadas e reduzidas nas suas capacidades intelectuais apenas por serem mulheres, às quais foi vedado o acesso às às quais século após século foi vedado não só o acesso à educação e à investigação, como também o direito à credibilidade e visibilidade. Foram variadíssimas as mulheres cujo trabalho resultou em descobertas incríveis e que cujo mérito desse mesmo trabalho foi atribuído a homens (Nettie Stevens e Lise Meitner, por exemplo).

Relembrar as histórias destas 52 mulheres num livro como este é, não só homenageá-las, mas também mostrar às nossas crianças que que isto dos trabalhos de homens e mulheres não tem razão de ser. É dar fontes de inspiração às meninas dos tempos de hoje, e encorajá-las para além do universo dos tachinhos e lides domésticas, das letras, da beleza e das funções de cuidadoras. Que embora também sejam totalmente meritórias, não são as únicas áreas a que podem aspirar. Através e biografias curtas, ilustrações apelativas e algumas curiosidades, este livro tem o condão de o fazer.

Dentro desta temática da segregação profissional, aproveito para vos relembrar o projeto “Engenheiras por um Dia” que está a decorrer desde outubro passado por cá, e que visa promover, junto das nossas estudantes de ensino não superior, a opção pelas engenharias e pelas tecnologias, desconstruindo a ideia de que estas são domínios masculinos. E se mais uma vez perguntam porque é que isto ainda é necessário, bom, talvez os números ajudem: nos últimos três anos letivos, havia apenas 19% de alunas inscritas nos cursos de engenharia, valor esse que baixa para aos 15% quando são retirados os cursos de engenharia química, biologia, biomédica e bioengenharia. Será que são só as raparigas que gostam menos destas áreas, ou será que historicamente não as temos incentivado a ver estas profissões como carreiras também para mulheres?