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Expresso

Reflexão sobre a galdéria do bairro

No semana passada, um bairro lisboeta acordou com uma série de cartazes espalhados por uma mulher traída pelo marido, que decidiu colar a fotografia da suposta amante em praça pública, como forma de vingança. Mais do que rir da escandaleira, vale a pena pensar que mesmo nas situações de adultério, quando há uma mulher envolvida, é ela a mais penalizada. E este caso merece a nossa atenção por isso mesmo: é que a suposta galdéria é a grande vítima desta situação.

Vamos por partes. Primeiro, aquilo que se repete vezes sem fim e que convém começarmos a perceber que não passa de uma forma de infantilização e desresponsabilização dos homens adultos. Por um lado, o eterno cliché de que os homens são homens, e que há instintos que não conseguem controlar porque nascem com um pénis entre as pernas. Portanto, a sua culpa no cartório é diminuta nestas coisas que envolvem sedução e sexo. Por outro, a eterna ideia de que a culpa é, obviamente, da mulher, que certamente o forçou a ter relações extraconjugais. Coitado, ele não queria, ela é que o seduziu e praticamente o obrigou a fazê-lo, já se sabe como estas mulheres sem princípios são ardilosas.

Eva e a maçã: a mulher é a grande causadora do pecado no mundo

Claro que a mulher que não tem compromissos com ninguém é que não tem princípios, o homem comprometido e adúltero, pobrezinho, tem os seus no sítios, só que foi manipulado, quiçá, enfeitiçado com recurso a bruxarias de vão de escada, e acabou por ir na conversa da dita galdéria. Ele de galdério não tem nada, é só homem, e aos homens estas coisas desculpam-se. Provavelmente, diria o senso comum, foi procurar na rua o que não tinha em casa (que não é mais do que outra forma de responsabilização feminina). Percebem como tudo isto está ligado a uma mentalidade instituída de penalização da mulher e de eterna desculpabilização do homem?

Desde a história do Adão, da Eva e a da maçã que, como todos sabemos, a mulher é a grande causadora do pecado no mundo. Mal ou bem, esta ideia prolifera nas nossas mentes. Não é, portanto, de estranhar que o senso comum também dite que a moral de uma mulher que se envolve com um homem casado é fraca (já a moral dele raramente é tida em conta), e que envolvimentos estritamente sexuais, sem a possibilidade de uma relação amorosa, também não são próprios de uma senhora às direitas. Posto isto, puni-la através do apedrejamento moral em praça pública – não vos faz lembrar outra parte da Bíblia? - surge amiúde como solução.

Neste caso, os cartazes com a fotografia e os dados pessoais daquela mulher (algo que, já agora, incorre nos crimes de difamação e de divulgação de vida privada, ambos puníveis com prisão) traziam a seguinte frase: “Esta rapariga destruiu a minha vida. Teve um caso com o meu marido durante meses sabendo que ele era casado, chegando até a engravidar. Mas deus castigou-a e ela perdeu o bebé (...)”. O título do cartaz chamava-lha “A Puta do Bairro”. Mais uma vez, múltiplos estereótipos aqui espelhados: foi ela que destruiu a vida ao casal, e não

o homem comprometido que, por livre vontade, teve uma relação extraconjugal que levou à deterioração da relação; a culpa é dela porque ela sabia que ele era casado. Ele também sabia que era casado, e que os seus atos eram iriam magoar a pessoa que jurou – contratualmente - amar e respeitar, mas isso não interessa; como sabemos, a função suprema da mulher no mundo é reproduzir-se, portanto ao sofrer um aborto ela foi castigada de forma maior e divina pela sua enorme imoralidade. Aliás, ela é uma “puta”, palavra associada a uma atividade que, quando é praticada por uma mulher, também é bastante mais reprovável e depreciativa do quando é praticada por um homem. Simbolicamente, tudo isto tem muito que se lhe diga.

“O adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra do homem”

Há inúmeras razões e contextos que levam a uma traição. Quem somos nós para condenar os demais, quando não sabemos o que se passa dentro das múltiplas paredes que escondem a intimidade da cada um. O que todos sabemos é que estas situações raramente são fáceis, que envolvem dor, frustração, cenários de negação e, invariavelmente, muita mágoa. Contudo, essa mágoa tende a ser canalizada para aquele que ainda é o elo mais fraco na nossa sociedade: a figura feminina.

Se por um lado as esposas traídas tendem a vexar a amante em praça pública em vez focar a sua ira no companheiro que quebrou o compromisso da relação, no caso dos homens traídos, maioritariamente resolvem a sua magoa recorrendo à agressão como forma de salvar a sua honra. Mesmo em tribunal, as mulheres continuam a ser mais condenadas no que toca ao adultério (lembram-se do acórdão da Relação do Porto que dizia que “o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra do homem”?), e a base desses julgamentos – acima de tudo, de valores – tem por base a construção social desigual que nos traz aos dias de hoje, também no que toca às relações de intimidade. E que quer queiramos, quer não, não é a mesma para homens e mulheres.