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Expresso

Não há jantares solidários (só para homens) grátis

Disfarçadas de hospedeiras, duas jornalistas do Finantial Times inflitraram-se num evento de beneficência que junta homens das elites há 33 anos. Políticos, empresários, artistas. Um jantar à porta fechada, só para homens, com a promessa de diversão e sigilo. Tudo, é claro, por uma boa causa (neste caso a anagariação e fundos para um hospital pediátrico). Cerca de 130 mulheres ‘jovens, bonitas e magras’, maioritariamente estudantes, foram contratadas como hospedeiras. Mas acabaram por ser um género prato principal num jantar cujas situações de assédio e de abuso de poder estão a chocar Inglaterra.

Sim, é chocante que em pleno século XXI ainda se façam eventos deste género. Mas é preciso ver para além do que fez tantos títulos de notícias na sequência desta investigação. O grande problema não se resume às situações de assédio descritas (com inúmeras hospedeiras a receberem propostas sexuais, a serem apalpadas de alto a baixo, a ouvirem comentários degradantes e a serem alvo de atos exibicionistas – como a exposição dos genitais). O problema é toda a conjuntura inerente àquele evento. Evento que está na altura de percebermos que não é único, nem tampouco se resume a jantares de beneficência de clubes de cavalheiros, como este. Noutros contextos e noutras escalas, a base do problema é a mesma, e é estrutural. Com o mundo empresarial e da beneficência a servirem de exemplo nesta belíssima investigação do FT.

A objetificação institucionalizada da mulher e a sua redução ao papel de brinquedo de prazer, o sexo enquanto moeda de troca entre homens e forma de entretenimento em ambientes de negócio – como um rebuçadinho que se dá para adoçar a boca a quem queremos extorquir dinheiro -, a forma discriminatória de tratamento das mulheres, o desrespeito, a assunção do direito a ultrapassar as regras do mesmo porque se tem dinheiro, e até mesmo a forma leviana como ser normaliza esta situação no próprio momento de contratação de uma mulher para o cargo de hospedeira (com um encarte de ‘regras do trabalho’ que são simplesmente inconstitucionais), são apenas sintomas claros de toda uma forma de encarar os papéis de homens e mulheres no nosso mundo. Eles têm poder. Já elas são meros adereços a que os homens – principalmente os poderosos - têm direito. Direito a tocar, a importunar, a abusar, a interagir como ser de segunda e não como um par, independentemente do cargo profissional de cada um. Até mesmo o pormenor subtil do voucher de cirurgia plástica que foi oferecido aos participantes com a frase “add spice to your wife” é tão, mas tão demonstrativo da postura de hegemonia masculina e de redução da mulher não só ao seu corpo e aspecto físico, como a troféu do homem.

A solidariedade enquanto refugo para o abuso

Mais de 300 homens, considerados “membros da elite” de um país altamente desenvolvido, com elevado nível de formação e detentores de altos cargos profissionais receberam e aceitaram de bom grado o convite para um evento do género. Um evento que prometia desde logo ser à porta fechada e só para homens (por si só isto já me parece um mau princípio num evento de beneficência), com sigilo absoluto, álcool, companhia divertida e quartos de hotel disponíveis para o que desse e viesse. O preço a pagar por isto? Um cheque chorudo e solidário para um hospital pediátrico, algo que até fica bem fazer para fins de reputação respeitável. Ou seja, a solidariedade enquanto refugo para o abuso.

Mais de 300 homens aceitaram fazer parte deste ambiente, mesmo depois de receberem uma lista da normas que explicava que os convidados não estavam autorizados a “assediar as hospedeiras”. Uma norma que só surge em antecipação porque quem participa se sente no direito a fazê-lo, e a organização sabe disso. Organização essa que por um lado tenta sacudir a água do capote ao distribuir uma lista de regras com este item, mas que ao mesmo tempo informa as mulheres contratadas para o facto de se saber de antemão que muito provavelmente a situações de assédio vão acontecer. Uma organização que sabe que aquelas mulheres, na sua maioria estudantes, estarão dispostas a desvalorizar e fechar os olhos ao assédio porque precisam do dinheiro que vão receber. A verdade é que ninguém será punido se quebrar as regras, por mais que o tal panfleto diga que não é oficialmente permitido um ato que a própria lei do país pune. Quão retorcido e enviesado é isto?

Embora não me surpreendam estes eventos em jeito de “boys will be boys”, mesmo assim tudo me choca nesta reportagem. Incluindo a vaga de respostas à mesma, onde inúmeros leitores parecem não ver o essencial e se debruçam sobre o argumento de que “não há assédio porque as hospedeiras sabiam ao que iam quando aceitaram o trabalho”. Convenhamos que não é preciso espremer muito para perceber que o sumo central desta história é exatamente o mesmo sumo dos escândalos de Hollywood que dão que falar deste outubro. É o funcionamento da máquina do poder no seu pior. A máquina sexista e privilegiada que oprime, desrespeita, intimida, discrimina, ameaça, retira qualquer pinga de dignidade ao oprimido e ainda o faz acreditar que a culpa é sua. Uma máquina cuja engrenagem está tão podre que acredita – crença essa motivada em boa parte por anos de impunidade - que o seu estatuto lhe dá o direito a tais atos. Pior, que faz com que os demais aceitem esse seu direito adquirido e que temam ripostar o statu quo desta equação. Neste caso, poderes instituídos que se manifestam em formato de opressor vs oprimido, privilegiado vs desfavorecido, homem vs mulher. Com a justiça e a dignidade como miragens longínquas.

Degradante, repugnante e inaceitável são as palavras que descrevem tudo isto.