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Expresso

Maternidade e liderança são incompatíveis?

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

reuters

Em outubro de 2017, uma mulher foi eleita primeira-ministra da Nova Zelândia. Há dias, a mesma mulher anunciou à imprensa que está grávida, sendo esta a primeira vez desde os anos 90 que tal acontece no mundo. Sem dar lugar a escrutínios públicos sobre algo que deve ser simplesmente normal, ou seja, um direito, Jacinda Ardern explicou que vai ficar afastada de funções durante seis semanas. O resto da licença vai ser gozada pelo companheiro, que ficará posteriormente em casa com a criança. Sinais de que os tempos estão a mudar?

Eleita para o cargo com apenas 37 anos – algo também bastante incomum –Jacinda Ardern já sabe de cor o que é ter de combater o chauvinismo das regras viciadas do jogo. Regras que, mundo fora, raramente permitem que uma mulher, ainda por cima jovem, chegue a cargos de liderança. O universo da política não é exceção, bem pelo contrário. Jacinda Ardern é então a primeira-ministra mais jovem daquele país desde 1856 e a terceira mulher a liderar o Governo da Nova Zelândia. Sem surpresas, ainda em campanha o tema da maternidade foi colocado em cima da mesa em tom de crítica. E se dúvidas havia quanto ao pulso forte desta política, a forma como desarmou tudo e todos ao ser questionada sobre a possibilidade de uma gravidez foi desde logo reveladora da sua postura: “É totalmente inaceitável que em 2017 se diga às mulheres que têm de responder a essa pergunta no local de trabalho. É inaceitável”.

Se na altura Ardern mereceu um aplauso pela forma como desvalorizou e não cedeu à pressão de um tema que ainda é cheio de telhados de vidro, agora volta a merecer atenção não só pelo anúncio que acaba de fazer, como pela forma como mais uma vez desarmou a imprensa mais insistente e inconveniente, para a qual a maternidade e a gestão de um cargo político parecem ser totalmente incompatíveis. “Não serei a primeira mulher a fazer ‘multi-task’, não serei a primeira mulher a trabalhar e a ter um bebé. (...)Sei que estas são circunstâncias especiais, mas há muitas mulheres que fizeram isto antes de mim”. Durante o tempo que estiver fora, o vice-primeiro-ministro, Winston Peters, vai substitui-la. Tão simples quanto isto. Mas infelizmente de simples este tema ainda não tem nada.

A ministra francesa que foi trabalhar seis dias depois de uma cesariana

Lembro-me de há uns anos a ministra da Justiça francesa ter ficado grávida e de o tema maternidade ter dado que falar. Na altura, Rachida Dati foi trabalhar menos de uma semana depois de ter sido sujeita a uma cesariana. Muita gente aplaudiu o “ato de coragem”, que acabaria por calar todos aqueles que questionavam a sua competência e dedicação ao Governo ao embarcar numa gravidez naquele período. Como se isso fosse um desprimor profissional, um género de traição nefasta que vinha validar a incapacidade feminina para assumir cargos de liderança. A sua postura pode ter servido para calar muitas bocas, mas não me parece que se tenha tratado de um ato de coragem, nem tampouco que tenha beneficiado em alguma coisa a discussão sobre a compatibilização da vida familiar com a profissional. Algo que deveria ser uma prioridade de qualquer Governo que se preocupe realmente com o bem-estar dos seus cidadãos. Aliás, a sua atitude só veio validar que desfrutar do tempo de licença é algo inconveniente.

Por mais meritória que tenha sido a força física e emocional de Rachida Dati, o seu motor de arranque foi o medo. O medo da descredibilização, o medo de ser tratada de forma diferente pelos seus pares, o medo de ser considerada menos profissional ou menos comprometida com o cargo, o medo de ser passada para trás 8que é o acontece às mulheres nestas situações). E este medo é o mesmo medo, totalmente injusto, que tantas, mas tantas mulheres mundo fora enfrentam cada vez que querem dar um passo em frente no caminho de engravidar.

A verdade é que em muitos mundos profissionais – quase todos - ser mãe ainda é considerado um entrave à progressão de carreira. São muita as mulheres a quem, não só é à partida vedado qualquer caminho de progressão só pelo factor idade e pela sugestão da possibilidade de uma gravidez (mesmo que essa não seja a sua vontade individual), como são também inúmeros os casos das que dão o passo e que depois veem anos de esforço a ir por água abaixo quando regressam de licença. A política não só não é exceção, como é, ironicamente, um universo pródigo nesta matéria.

Não deixa de ser curioso que um primeiro-ministro que tenha um filho enquanto exerce funções seja amplamente aclamado. Afinal, passa a ser um homem de família, e o seu estatuto de homem confiável, responsável e capaz de contribuir para a natalidade da nação até conseguem jogar a seu favor. Ninguém questiona o tempo que vai passar – ou deveria passar - com o recém-nascido para o bem do desenvolvimento dos laços entre filho e progenitor. Ninguém descredibiliza o seu empenho e capacidade de gerir as suas funções profissionais com as de pai de um novo ser. Ninguém põe em cima da mesa se o cansaço das noites mal dormidas o vai prejudicar, por exemplo. Ninguém põe em causa as suas condições psicológicas ou disponibilidade de tempo para viajar ou passar noites no escritório caso seja necessário. Aliás, se um político de 37 anos chega a funções de líder de Estado, ninguém sequer pensa no factor paternidade. Eu, pelo menos, não me recordo de algum dia ter lido essa pergunta numa entrevista. Mas quando se é mulher tudo muda de figura. O seu papel, quer queira quer não, é o de mãe. E ser mãe, quando se é mulher, supostamente não é tão compatível com um lugar de liderança como quando se é homem.

Os papéis de homens e mulheres estão a esbater-se?

Jacinda Ardern vem mostrar por A + B que se calhar está na altura de mudar estas regras do jogo que, habitualmente jogam a favor apenas de um lado da balança. Ao optar por ficar em casa a desfrutar da maior parte da licença, o seu companheiro faz exatamente o mesmo. Há quem possa ver isto como uma inversão de papéis, mas eu não diria que estamos simplesmente a assistir na primeira fila a papéis que, cade vez mais, se vão esbatendo. No futuro, os papéis vão ser de que os quiser. E embora este ainda seja um tema frágil, são exemplos destes que vêm reforçar precisamente que esta equação não tem de ser sempre igual. Está na altura de deixarmos de penalizar as mulheres na sua vida profissional com a eterna desculpa da maternidade, e está na altura de deixarmos de prejudicar os homens na sua vida familiar ao assumirmos que o seu papel é o de simples provedor económico da família.

Jacinda Ardern vem mostrar por A + B que se calhar está na altura de mudar estas regras do jogo que, habitualmente, jogam a favor apenas de um lado da balança. Ao optar por ficar em casa com a criança, o seu companheiro faz exatamente o mesmo. Há quem possa ver isto como uma inversão de papéis, eu diria que estamos simplesmente a assistir na primeira fila a papéis que se vão esbatendo pouco a pouco. No futuro, os papéis vão ser de quem os quiser. E embora este ainda seja um tema frágil, são exemplos destes que vêm reforçar precisamente que esta equação não tem de ser sempre igual. Está na altura de deixarmos de penalizar as mulheres na sua vida profissional com o eterno argumento da maternidade, e está na altura de deixarmos de prejudicar os homens na sua vida familiar ao assumirmos que o seu papel é o de simples provedor económico da famílias