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Expresso

Hoje, a voz de Beyoncé é a voz de milhões de meninas de todo o mundo

d.r.

Há um ano, foi com um remake do vídeo do hit “Wannabe”, das Spice Girls, que o mundo de repente despertou para a existência do Dia Internacional da Menina. Hoje, deverá ser com o vídeo de “Freedom”, de Beyoncé, que surge tal qual hino do empoderamento feminino, reinterpretado de forma genial por meninas um pouco por todo o mundo. A mensagem de sempre: é urgente unir esforços para garantir um mundo mais igualitário às nossas crianças. E não meter a cabeça debaixo de areia no que toca a perceber que as meninas, futuras mulheres deste mundo, são as maiores vítimas de violações constantes aos seus direitos mais básicos.

Porque é que nos tempos que correm precisamos especificamente de assinalar o Dia Internacional da Menina? Vamos a números para entendermos isto melhor: a cada dez minutos que passam, uma menina morre algures no mundo, vítima de um ato de violência. A cada dez minutos que passam, leram bem. O casamento infantil é outro dos maiores problemas enfrentados por crianças do sexo feminino, com uma em cada três meninas do mundo a serem casadas à força antes de atingirem a maioridade. E uma em cada sete antes de atingirem os 15 anos. No que toca à mutilação genital, a UNICEF estima que esta prática nefasta já tenha afetado mais de 130 milhões de meninas. Podia continuar aqui a debitar números, mas julgo que com estes já terei conseguido passar a mensagem. Estamos a falar de crianças. Se todas esta formas de anulação de direitos humanos já seriam graves num adulto, em crianças são inenarráveis condicionantes ao seu desenvolvimento. Portanto, fatores nefastos decisivos no rumo das suas vidas enquanto futuras mulheres, inevitavelmente mais vulneráveis. Escusado será dizer que é assim que o ciclo da desigualdade se perpetua.

Posto isto, não é de estranhar que tenha surgido a necessidade de se criar um Dia Internacional da Menina (em 2011) e que este seja assinalado anualmente. Não apenas com o intuito de chamar à atenção para a agressão constante a que esta população de risco está sujeita, mas também para estimular governos e demais decisores, empresas e sociedade civil a passarem das palavras aos atos. A assumirem compromissos concretos, estratégias conjuntas a nível a global, com efeitos reais na vida das mais de mil milhões de meninas que existem atualmente no mundo. Muitas delas a quem ainda é vedada a possibilidade de viver uma vida plena, com acesso a pilares tão básicos quanto essenciais no seu desenvolvimento, como são a educação, a saúde e a segurança.

As meninas são os elos mais fracos em crises humanitárias

Este ano, o dia é assinalado sob o tema “Empoderar Raparigas: antes, durante e depois de situações de emergência”. O enfoque é claro e vai para as condições de vida dramáticas que tantas meninas e adolescentes enfrentam em cenário de crise humanitária, um contexto que as torna ainda mais permeáveis a situações de violência psicológica e física, incluindo a sexual, tráfico humano e demais formas de exploração. Diz a ONU que em países fustigados pela guerra, as raparigas têm mais 90% de probabilidades de serem afastadas do acesso à educação, por exemplo, o que as deixará numa eterna posição de dependência financeira enquanto adultas. Aliás, serem desde logo alvo de casamento infantil – como expectativa irónica de garantir a sua segurança - é uma das maiores probabilidades para as suas vidas em cenários do género.

Tal como tinha dito por aqui há um ano, quando foi lançado o vídeo com a canção das Spice Girls, é importante relembrarmos as palavras-chave que o dia de hoje quer alcançar para meninas e mulheres deste mundo: liberdade e igualdade. De oportunidades, de acesso à saúde, à educação, à segurança, à paridade laboral (se bem se lembram, a previsão é de que só em 2095 isto seja uma realidade). É um dia de reflexão pelo fim da violência contra o sexo feminino (que continua a ter números astronómicos um pouco por todos o mundo, civilizado ou não), do tráfico humano, dos casamentos forçados, das mutilações genitais, do assédio sexual. E, claro, do melhoramento das leis e da justiça, que poderão ser fatores de peso no que toca a desenvolver todos estes aspectos que continuam a prejudicar a vida de milhões de meninas e mulheres. Basicamente, tudo o que está incluído nas 17 Metas Globais das Nações Unidas, que contemplam a igualdade de género como objetivo até 2030.

É provável que este vídeo se torne também viral. E se pelo menos uma em cada três pessoas que o virem pararem para pensar nas razões por trás da sua existência, já é um passo em frente. Como cantaria Beyoncé: "I break chains all by myself / Won't let my freedom rot in hell. / Hey! I'ma keep running / Cause a winner don't quit on themselves”. Mas todos juntos é mais fácil.