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Expresso

Histórias de adormecer para miúdas rebeldes 

Imaginemos que em vez de princesas indefesas que precisam de um príncipe que as salve, as meninas – e os meninos - cresciam a ouvir também histórias de adormecer que contavam os grandes feitos de meninas e mulheres com imensa força, destreza, coragem e esperteza, e que se tornavam em grandes heroínas sem precisarem obrigatoriamente de um príncipe para trilhar o seu caminho. Que impacto teria isto na formação da personalidade das crianças? Tornar-se-iam elas mulheres adultas mais confiantes, por exemplo? Tornar-se-iam eles homens que olham para as mulheres como pares em termos de capacidades e conquistas?

Foi mais ou menos com este tipo de questões em mente que a dupla Elena Favilli e Francesca Cavallo decidiu pôr mãos à obra e construir de raiz um livro de contos infantis dedicados maioritariamente a meninas, inspirados em histórias de 100 mulheres reais com percursos de vida extraordinários. Mulheres cujas histórias foram contracorrente em épocas passadas, mas também mulheres dos tempos de hoje, que continuam a ser fonte de inspiração para meninas e adolescentes do mundo inteiro. O livro chama-se “Histórias de Adormecer para Raparigas Rebeldes” e já está à venda em Portugal.

Mas como é que se consegue contar a crianças histórias de vida pautadas por muito preconceito e esforço, como as de figuras como Nina Simone, Frida Khalo ou Maya Angelou? Com imaginação, doçura e simplicidade, sempre a simplicidade. Dou-vos um exemplo, com um pequeno excerto: “Era uma vez uma casa azul brilhante perto da cidade do México onde vivia uma menina chamada Frida. Ela ficou mais velha e tornou-se numa das pintoras mais famosas do século 20 – mas ela quase não cresceu em tamanho. Quando tinha seis anos contraiu poliomielite e escapou da morte por uma triz. A doença deixou-a coxa para sempre, mas não foi isso que a impediu de brincar, nadar e lutar como todas as crianças.”

Este livro conta a história de 100 mulheres determinadas e determinantes, desde Cleópatra a Elizabeth I, passando por Marie Curie, Coco Chanel, Amelia Earhart, Malala Yousafzai, Serena Williams ou até mesmo J. K. Rowling. Líderes, ativistas, artistas, cientistas, desportistas, investigadoras, exploradoras e por aí fora. Todas elas histórias deliciosas, em formato de minibiografia, tão bem contadas que até mesmo qualquer adulto se acaba por render ao livro. Um livro que, espero eu, venha a ter imenso sucesso também por cá (está desde março no top 10 do NYT) e que faça muitas crianças sonhar - a dormir e acordadas - com um mundo de possibilidades sem fim também para quem nasce mulher.

“Se querem tanto igualdade, porque é que havemos de ter um livro dedicado a meninas?”, já ouvi perguntar por aí. Pergunto eu como resposta: E porque é que não havemos de ter? Porque é que isso incomoda tanto, se em momento algum estes livros menosprezam as capacidades de qualquer figura masculina? Custa assim tanto aceitar que ter também exemplos inspiradores de mulheres, dedicados a crianças em fase de formação de personalidade, é algo positivo? Muito tem mudado no universo infantil, principalmente nos filmes de animação, mas o imaginário cor de rosa dos príncipes e das princesas (elas, por regra, muito indefessas, ingénuas e assustadiças) ainda tem muita força, talvez demasiada. Nada contra princesas, mas muito contra a eterna ideia de que elas precisam de um príncipe, homem, que as salve de feitiços, dragões enfurecidos, prisões em torres altas ou de bruxas más (que curiosamente, ou não, são quase sempre figuras femininas).

Espero que a ironia da palavra ‘rebeldes’ no título do livro um dia deixe de ser necessária. Mas para já, sim, é uma rebeldia dar prioridade a exemplos femininos enquanto fonte de inspiração. Vivemos num mundo onde os heróis são maioritariamente masculinos. Mais uma vez, nada contra a homens que são super-heróis, obviamente. Mas não continuemos a fazer deles heróis maiores e tantas vezes exclusivos, esquecendo ou menosprezando as múltiplas qualidades e capacidades de tantas mulheres mundo fora, cujos feitos extraordinários são igualmente heroicos e geniais. Se o mundo da ficção ainda não consegue ter ideias para fazê-lo com a constância com que o faz para a figura masculina, então deixemos que a realidade sirva de fonte de inspiração. Este é um belíssimo exemplo de como isso é possível.