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Expresso

O corpo perfeito de biquíni existe?

Phil Cole/ Getty

Lembro-me de há uns tempos uma marca de suplementos alimentares ter posto a circular uma série de mupis onde se lia a frase: “O teu corpo de praia já está pronto?”. O intuito era vender comprimidos de emagrecimento porque, é claro, corpos gordos não são dignos de andar à mostra num areal que se preze. Na altura, esta publicidade foi amplamente criticada, mas, ano após ano, a história repete-se: chega o verão e com ele os inúmeros artigos de revista e campanhas publicitárias aos mais diversos produtos que vendem a ideia da necessidade do “corpo perfeito para o verão”. Afinal, o que é isto de se ter um corpo perfeito?

Nesta altura do ano, inúmeras revistas mostram fotos de modelos e atrizes que revelam “corpo de arrasar” e “formas perfeitas” na praia. Também não é difícil fazer uma pesquisa e chegar a títulos como “as melhores opções para disfarçar gordurinhas”, “dieta rápida: emagreça para o verão” ou “como ter um corpo de biquíni”. Todos eles com apologias à necessidade – inquestionável! - de se cumprir uma determinada norma, norma essa condicionada pela tal ideia da existência de um corpo perfeito (as tais atrizes e modelos, por exemplo). Ou seja, quem tem formas fora desse estereótipo (convenhamos, para muita boa gente, simplesmente inalcançável), obviamente tem de se esforçar para lá chegar.

Por outro lado, nos últimos anos houve uma tentativa de se passar uma mensagem supostamente mais positiva, através de títulos do género “Os biquínis ideais para cada tipo de corpo”. Algo que, à partida, até poderia parecer bastante prático e pertinente, caso depois não surgissem mensagens subliminares em muitos desses artigos que dizem barbaridade subtis como “eis os biquínis certos para cada problema” ou que é preciso “ajudar as pessoas a valorizarem o que tem de melhor e disfarçar os defeitos”. Temos, portanto, e mais uma vez, defeitos e problemas no nosso corpo que devem, obviamente, ser escondidos.

Quem ganha com isto?

De forma mais ou menos direta, a mensagem acaba por ser a mesma: devemos ter vergonha da nossa imagem corporal, principalmente as mulheres. Uma ideia vendida até exaustão – com intuitos comerciais fortíssimos, algo que muita gente parece não querer ver - e cujas consequências se traduzem, acima de tudo, numa enormidade de miúdas e de mulheres que vivem complexadas na sua própria pele, eternamente com receio da hora de fazer algo tão simples quanto ficar em biquíni na praia. Quem ganha com isto? Dos produtos dietéticos aos cremes, da moda à medicina estética (entre tantas outras áreas), são inúmeras as empresas cujo negócio lucra ao passarem tal ideia às massas.

Oiço muito vezes que, esteticamente, é feio ver coxas cheias de celulite ou barrigas com refegos na praia e que “as pessoas deviam ter mais noção”. Mas até que ponto também esta “noção” do que é ou não é estético está altamente condicionada pelos tais padrões de beleza que nos são transmitidos há décadas como norma? E que nós, tal qual carneirinhos, seguimos sem questionar? Será que esta mensagem está tão enraizada que se torna quase uma agressão ver um corpo desnudo que extrapole essas tais supostas medidas perfeitas? Afinal, volto a perguntar, o que é isto do corpo perfeito para biquíni?

Qualquer corpo com biquíni é perfeito

Para mim parece-me simples: qualquer corpo com biquíni é perfeito, porque isto da beleza é um conceito totalmente ambíguo. As mulheres – e os homens – não são objetos produzidos em série, tal qual fábrica de bonecas. Cada corpo é um corpo, e não vejo porque havemos de continuar a bater nesta tecla da inferiorização com base no formato individual de cada um. Mais gordo ou mais magro, com sardas ou sem sardas, com celulite ou sem celulite, com ancas mais ou menos largas, com ou sem refegos, com peito grande ou pequeno, mais nova ou mais velha, aceitem-se e aceitem os outros tal qual como são.

Em plena época de férias – eu começo as minhas amanhã e só volto à escrita daqui a um mês – desfrutem dos prazeres da praia sem rótulos ou complexos. E não, não estou a fazer uma apologia nem à magreza extrema, nem à obesidade. Nem tampouco estou a falar de saúde. Estou sim a fazer uma chamada de atenção para a aceitação da diversidade. Uma aceitação que começa em casa, em frente ao espelho. Até setembro!