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Expresso

Murray, Trump e as subtilezas do machismo

d.r.

Muitas vezes me questionam se vale a pena perder tempo com as subtilezas do sexismo, quando ainda há outros desafios tão maiores pela frente. Há quem me chame picuinhas, quem diga que me chateio demais ou que vejo problemas onde eles aparentemente não existem. Contudo, tenho a absoluta certeza do que vos vou dizer: o caminho para a igualdade também se faz com um combate constante aos micro-machismos do dia-a-dia. Mais ou menos graves, fazem parte de uma bolo geral que exige mudança. E a mudança do discurso é uma das pontas soltas deste grande novelo. Esta semana, temos dois bons exemplos disso.

Comecemos pelo bom exemplo. Em conferência de imprensa, o tenista Andy Murray foi de uma pertinência digna de aplauso ao corrigir o jornalista que lhe dizia que o tenista Sam Querrey – o adversário que o eliminou em Wimbledon – tinha sido o primeiro americano a atingir a semifinal do torneio, desde 2009. “Primeiro jogador masculino”, corrigiu Murray, impassível. “Desculpe?”, perguntou o jornalista, confuso. “Jogador masculino, certo?”, repetiu Murray até se fazer luz do outro lado.

Foi um simples deslize sem importância? Sim ao deslize, não à importância. O jornalista não tinha má intenção ao pôr as coisas daquela forma? Muito provavelmente não. Nem o fez de propósito? Muito provavelmente também não. Vale, então, a pena ser chamado à atenção para a gafe? Claro que sim. Porquê? Primeiro, porque a informação não está correta. Segundo, porque essa incorreção tem por trás todo um longo estigma que espelha a desvalorização do trabalho, competências e troféus conquistados pelas desportistas do sexo feminino, que continuam a ser tidas como inferiores e menos importantes do que os jogadores do sexo masculino, por mais cartas que deem. Do futebol ao atletismo, é um denominador bastante comum no mundo desportivo.

Já no ano passado Murray tinha dado que falar ao corrigir um jornalista quando este lhe disse: “És a primeira pessoa a vencer duas medalhas de ouro olímpicas, deve ser uma sensação incrível”. Tal como agora, Murray corrigiu o lapso com toda a calma e simplicidade: “A Venus e a Serena ganharam quatro cada uma”. Mudar o discurso, lá está, faz parte da mudança de mentalidades. E estes micro-machismos não devem ser relativizados, mas sim combatidos. Com normalidade, porque isto não é uma guerra com vencedores e vencidos. É um caminho que temos de percorrer em conjunto.

“Ela está em boa forma física”, diz Trump. WTF?

Vivemos rodeados de maus exemplos de discurso, e muitas vezes somos os primeiros a fazê-lo sem darmos conta. O sexismo é comum a homens e mulheres, e séculos de um discurso historicamente formatado nesse sentido demorarão certamente algum tempo até serem normalizados com vista à igualdade de tratamento e expectativas entre géneros. Do desporto ao cinema, da ciência à publicidade, ele está lá, acabando por ser reforçado diariamente no nosso inconsciente coletivo. Com figuras de liderança a darem um péssimo exemplo, como é caso de Donald Trump.

Não é que eu, pessoalmente, espere qualquer tipo de bom-senso vindo do atual líder norte-americano, mas o comentário feito este semana por Trump a Brigitte Macron foi simplesmente abaixo de cão. Não só de uma enorme deselegância e impertinência, como sintomático do seu comportamento machista, algo que já não surpreende ninguém. Mas mesmo que não surpreenda, mais uma vez, não pode nem deve ser relativizado.

“Está em tão boa forma”, disse Trump dirigindo-se à primeira-dama francesa e reforçando o comentário de seguida a Emmanuel Macron. “Ela está em óptima forma. Bonita”. O comentário é totalmente inapropriado. E carrega consigo uma série de subtilezas que não nos devem deixar indiferentes, começando pela apreciação da aparência física como primeira abordagem a uma mulher. O ideal seria não fazer qualquer tipo de apreciação e tratá-la de igual para igual, tal como fez com o marido. Mas se mesmo assim queria fazê-lo, há tantos outros aspectos que podiam ser agraciados (simpatia, profissionalismo, cordialidade, arte de bem-receber, inteligência, e por aí fora). Mas como é mulher, isto dos atributos físicos falam mais alto.

Não me vou alongar muito, mas vale ainda a pena reparar que o tom paternalista com que Trump fez tal comentário denota a assunção de que a beleza e boa forma física numa mulher mais velha são dignas de nota, como se isso não só fosse algo raro, como também um objetivo necessário e a cumprir. A mulher tem de envelhecer com o eterno peso das expectativas da sociedade. Depois vem a necessidade de partilha de tal comentário com o marido da mesma, em tom de apreciação, como se de a avaliação de um pedaço de carne se tratasse. Trump aprova a escolha. Como se Brigitte fosse um simples acessório que fica bem ao lado de Emmanuel, um troféu que merece ser mostrado e do qual este se deve orgulhar, acima de tudo, pela sua aparência. Afinal, não foi esse o papel da mulher ao longo de séculos?

Mudar o discurso é urgente porque a mensagem final, ainda que subtil e inconsciente, continua a atingir proporções enormes mundo fora.