Siga-nos

Perfil

Expresso

Índia: mais justiça para as vacas do que para as mulheres

foto conta de Instagram de Sujatro Ghosh

O faz uma mulher com uma máscara de vaca na cabeça, a posar para uma foto junto ao simbólico Portão da Índia, em Deli? A obrigar a sua sociedade a refletir. Sobre o quê? Sobre o facto de haver um interesse e ímpeto maiores quanto à proteção das vacas no seu país, do que para a defesa e celeridade de justiça no casos das agressões feitas às mulheres. Cujos direitos mais básicos, incluindo a sua incluindo a sua integridade física e emocional, continuam a ser violados diariamente.

A ideia partiu do fotógrafo indiano Sujatro Ghosh, que perante a discussão acesa quanto à criminalização das agressões feitas às vacas no seu país – animais considerados sagrados por aqueles seguidores da religião hindu - começou a questionar-se sobre o que levaria a que os direitos das mulheres gerassem tal entusiasmo. “Perturba-me que no meu país as vacas sejam consideradas mais importantes do que as mulheres. Quando uma mulher é violada demora muito mais tempo a obter justiça do que uma vaca.”

foto conta de Instagram de Sujatro Ghosh

Para percebermos um bocadinho melhor o que leva o jovem fotógrafo a fazer esta comparação, podemos olhar para alguns dados referentes à Índia. Hoje em dia, uma agressão deliberada feita a uma vaca - sem que esse mesmo ato resulte do processo normal da morte do animal para consumo - pode levar a uma pena de quase dez anos de prisão. Uma lei amplamente aplaudida pelos extremistas hindus, que mesmo assim estão atualmente a tentar fazer chegar ao parlamento a discussão da pena de morte para estes crimes. Ou seja, há um movimento claro, ativo e com cariz de urgência para que se dê condições de segurança e que seja feita justiça às vacas sagradas. Ao mesmo tempo, há todo um cenário de violência perpetuado sobre o sexo feminino que – embora gere hoje mais discussão pública e política – continua a ser socialmente aceite. Com a justiça a falhar redondamente no que lhe compete.

Estigma a mais, justiça a menos

Se olharmos para os dados oficias de 2015, por exemplo, chegamos a quase 35 mil casos de abuso sexual que foram reportados às autoridades indianas, sendo que a justiça apenas atuou em menos de 20% destes casos. Casos esses que devem ter uma dimensão tremendamente maior, uma vez que estes são apenas aqueles que chegam à autoridades. Há uns meses, um estudo sobre a realidade criminal de Deli mostrava que apenas um em cada 13 casos de abuso sexual chegavam às autoridades. Em comparação, 1 em cada 3 roubos de telemóveis, por exemplo, eram reportados à polícia. Por razões culturais, sociais, familiares e religiosas, uma larga percentagem das mulheres e meninas vítimas deste tipo de violência continua a não denunciar o crime. O estigma fala mais alto. E a justiça – tal como a mentalidade discriminatória instituída naquele país - não acompanha a necessidade urgente de mudança.

foto conta de Instagram de Sujatro Ghosh

Tudo isto deu que pensar a Sujatro Ghosh, que decidiu então usar a sua arte e o poder do humor para fazer um protesto, que tinha como ponto de partida fotografar mulheres, de diferentes esferas sociais, com máscaras de vaca em vários pontos da sua cidade, desde zonas turísticas, a edifícios governamentais, transportes públicos ou até mesmo dentro das suas próprias casas. Porque não só na rua? “Porque as mulheres são vulneráveis em todos os lugares”, explica o fotógrafo.

As fotos foram publicadas na sua páginas de Instagram e rapidamente fizeram furor e galgaram fronteiras. Aliás, Sujatro Ghosh já está na estrada para fazer imagens noutros pontos do país de mulheres com cabeça de vaca. Esta comparação – acompanhada pelos relatos pessoais das mulheres fotografadas - serve para provocar, para agitar consciências, para gerar reações imediatas. Reações que levam a uma reflexão, algo que ajudará, certamente, a melhorar o ritmo da passada no que toca à igualdade entre géneros num país perigosamente patriarcal.

Num país onde os números referentes a questões tão graves quanto o assédio e abuso sexual, casamentos forçados, casamento infantil, violência doméstica ou tráfico humano ganham proporções verdadeiramente abjetas, é realmente chocante que uma vaca – por mais sagrada que possa ser considerada por determinada religião e por mais respeito que mereça enquanto animal – tenha mais atenção do que as mulheres no que toca a agentes de autoridade, líderes religiosos e decisores políticos.

foto conta de Instagram de Sujatro Ghosh

É, contudo, importante perceber que o que está em causa nesta série de fotografias não é uma redução de proteção aos animais no país, neste caso as vacas. Trata-se sim de pedir mais coerência no que toca à justiça e às suas prioridades naquela sociedade, com os seus desafios concretos (e que são tantos). No caso da Índia, uma sociedade que ainda relega as mulheres para um segundo patamar enquanto cidadãs e, até mesmo, enquanto seres humanos, privando-as dos seus direitos mais básicos. Entre eles, a justiça, a liberdade e a dignidade.