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Expresso

Porque é que não há fraldários a pensar nos homens?

Lembro-me de, há uns anos, estar num restaurante com o meu irmão e com o seu filho bebé, e de ele me ter feito o seguinte pedido: “Importas-te de ir tu mudar-lhe a fralda à casa-de-banho? É que na dos homens não consigo”. Mais de uma década depois, acredito que este pedido ainda aconteça muitas vezes. Ao contrário das instalações femininas, continuam a ser raras as casas de banho masculinas que estão preparadas para homens com bebés. Nos tempos que correm, ainda faz sentido que assim seja?

Muitos avanços têm sido feitos no que toca à presença e participação ativa dos pais na educação das crianças, com as tarefas entre homens e mulheres a serem cada vez mais partilhadas. Contudo, o pensamento machista continua presente em tantos pequenos aspectos do nosso dia-a-dia, e esta questão dos fraldários é só mais um exemplo. Tratar das crianças pequenas ainda é tida como uma tarefa para mulheres.

Em 2015, o ator Ashton Kutcher aproveitou o seu mediatismo para gerar discussão em torno desta questão: porque é que não existem espaços para trocar fraldas nos WC masculinos? É certo que em alguns sítios públicos (por exemplo, centro comerciais) já começam a surgir a fraldários independentes e casas de banho para famílias, tal como alguns equipamento do género implementados nas casas de banho dos deficientes, considerados espaços neutros. Contudo, na larguíssima maioria dos espaços públicos, apenas as casas de banho femininas é que são contempladas com soluções relacionadas à logística da higiene das crianças.

Por cá, não existe legislação sobre este tema. Deveria haver?

Depois da discussão levantada por Kutcher, acabou por surgir uma proposta de lei nos Estados Unidos que pretendia obrigar todos os edifícios públicos – como hospitais, estações de correio, etc - a terem fraldário nos WC dos homens. Barack Obama acabou por aprová-la em 2016 e, desde abril deste ano, o mesmo tipo de discussão está em cima da mesa também no Brasil. Por cá, não existe legislação sobre este tema. Deveria haver? Eu acho que sim. Como diria um dos deputados responsáveis pela proposta de lei levada à Câmara de São Paulo, “discutir a questão do fraldário é enfrentar o machismo e a segregação”. Uma segregação que lesa tanto os homens como as mulheres.

Há várias formas de discriminação que devemos ter em conta quando olhamos para esta questão. Primeiro, não faz sentido que os homens sejam privados da existência de condições básicas para poderem tratar dos seus filhos bebés no espaço público. Esta inexistência acarreta não só o pensamento sexista pré-concebido de que os homens não têm a obrigação de tratar das suas crianças, como o rótulo injusto e bacoco de que não são tão capazes de o fazer como uma mulher seria. O que nos leva a outro paradigma, desta vez machista: ainda se parte do princípio que mudar a fralda de um bebé – e demais situações relacionadas com higiene, alimentação, etc - é uma tarefa da mãe. Ou seja, é essa a nossa obrigação, mesmo que o pai esteja presente. Coisas tão simples quanto esta questão dos fraldários ou até mesmo a sinalética referente às pessoas prioritárias, onde regra geral aparece uma mulher com criança ou ao colo, só nos levam a reafirmar diariamente – ainda que de forma muito subtil – quais são os papéis de cada um de nós na sociedade.

Faz sentido um homem ser obrigado a ir a um WC feminino?

Claro que quando se tem um bebé a capacidade de improviso para trocar fraldas é mais que muita. Contudo, não me faz qualquer sentido que um homem seja obrigado a improvisar por falta de condições e soluções dirigidas a si quando estas existem para as mulheres. Não é igualmente correto que um homem seja obrigado a entrar num WC feminino (onde a entrada não lhe é permitida) para poder mudar a fralda do seu bebé ou para levar uma menina pequena à casa-de-banho. Por outro lado, também me parece pouco viável, a vários níveis, que um homem tenha de levar uma criança pequena a um WC com urinóis (nas casa de banho femininas a privacidade de todos é garantida pelos equipamentos individuais, com porta fechada). Uma solução simples? Idealmente, os espaços públicos deveriam ter como norma a existência de WC familiares, dedicados a homens e mulheres que acompanham crianças pequenas. Grandes superfícies e espaços públicos -como hospitais, parques, estádios, museus, serviços sociais ou estações - podiam ser os primeiros a ter de dar o exemplo.

Embora lentamente, a verdade é que a mudança de paradigma no que toca à forma como se vive diariamente a parentalidade é inegável, mas o espaço público nem sempre parece estar a acompanhar esta alteração de mentalidades. Há coisas mais preocupantes e urgentes no nosso país? Claro que sim, haverá sempre. Mas não é por isso que devemos desvalorizar questões como esta ou deixá-las ao acaso. A evolução acontece passo a passo, e este é só mais um no caminho em frente.