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Expresso

As mulheres ainda têm vergonha da sua vagina

foto Layla Martin

“É sempre tudo tão sombrio e secreto em torno delas, parecem o Triângulo das Bermudas”. Esta é uma das frases que mais me fez rir, mas também refletir, quando espreitei pelas primeira vez “Os Monólogos da Vagina”. As palavras têm uns bons anos e são de Eve Lenser, mas assentam que nem uma luva à experiência que a sexóloga norte-americana Layla Martin fez há uns meses : tirar fotografias às vaginas de diferentes mulheres e fazê-las depois olhar para essa parte o seu corpo.

São muitos os fatores históricos, religiosos, sociais e culturais que levam a que o sexo feminino tenha uma tendência para ser demasiado exigente com a aparência física, colocando - e aceitando! - como verdadeiras expectativas muitas vezes irreais quando se fala da sua imagem corporal. A vagina – ou sendo mais correta, a vulva, embora quase toda a gente lhe chame vagina – não é exceção, bem pelo contrário. Quantas mulheres nunca olharam para aquilo que têm entre as pernas? Os nossos próprios genitais continuam a ser um mistério para muitas de nós. A vergonha e inibição na altura de explorar o próprio corpo ganha contornos de protagonista nesta falta de relação íntima que muitas mulheres têm com aquela é considerada, precisamente, a zona mais íntima do seu corpo. Para uma enorme percentagem de mulheres, a vulva não passa de uma parte bastante feia da sua anatomia. Uma parte com a qual não se sentem confortáveis, que preferem não ter de ver e que têm vergonha de mostrar. Porquê? E será que as razões que as levam a isto fazem sentido?

Estas são apenas duas das várias perguntas que Layla Martin queria ver respondidas com a experiência que fez recentemente, à qual chamou “A tua vagina é mais bonita do que tu pensas”. Basicamente, convidou quatro mulheres para uma sessão fotográfica. A protagonista de cada uma das fotos finais? As suas respetivas vulvas. No final, as mulheres foram convidadas a ver e a comentar as imagens e a ouvir, em segredo, os que os seus parceiros íntimos tinham a dizer sobre as mesmas. O contraste nos discursos é deveras interessante, ora espreitem:

Podemos achar que ver uma parte do nosso corpo não tem nada de mais. Mas é engraçado perceber como são as comuns as reações destas mulheres, quando colocadas na posição de terem de ver e falar abertamente sobre uma parte do corpo com a qual não se sentem confortáveis, por mais que racionalmente saibam que não há razões para o sentirem dessa forma. Ao contrário do homens, nós não lidamos forçosamente com a imagem dos nosso genitais no dia-a-dia (nem somos incitadas a fazê-lo ao longo da nossa vida). E tal como se costuma dizer para as questões do amor, ‘coração que não vê, coração que não sente’. Neste caso, que sente o que não devia sentir. Vulneráveis, envergonhadas, culpadas, inseguras, desiludidas, nervosas: as reações são distintas, mas refletem bastante bem uma realidade que é comum a muitas das mulheres do planeta. Se falar sobre ela é difícil, olhar para ela, explorá-la e conhecê-la como qualquer outra parte do corpo não é algo que seja feito com tanta facilidade quanto isso.

A experiência foi registada em vídeo e há um momento que considero particularmente importante enquanto mensagem, quando uma das mulheres envolvidas explica, entre lágrimas, que não se sente confortável com “aquela área do corpo”. Mesmo verbalizar as palavras vagina ou vulva continua a ser algo que muitas pessoas fazem num sussurro, como se fosse algo que não se pode dizer em voz alta. “Sinto vergonha, mas não sei explicar porquê”, conclui aquela mulher. Quantas outras sentirão o mesmo?

Num mundo cada vez mais focado na aparência, são muitas as ‘vozes’ que nos gritam diariamente que a nossa genitália é feia, cheira mal e que tem de ser alterada porque deve ser mais atraente (aos olhos de quem?). Há a moda crescente das cirurgias plásticas à vagina e à vulva, quase sempre vendidas com o simples intuito de aperfeiçoamento estético da mesma (lá está, porque supostamente é feia). No mercado surgem também como cogumelos marcas de produtos de higiene íntima totalmente descabidos, onde até desodorizantes e cuecas perfumadas parecem ser indispensáveis a uma vulva que se preze, independentemente dos efeitos nefastos para o PH da pele da vulva ou na saúde da flora vaginal (lá está, supostamente cheira mal). As depilações tornaram-se uma obsessão, sem que muita gente questione sequer as razões que nos levam a ter pelos nesta zona e qual a sua importância na saúde da mesma.

Continuamos a educar as mulheres para se sentirem inibidas na descoberta do corpo?

Não sou sexóloga ou ginecologista, nem tampouco estou ligada à área da saúde. Mas enquanto jornalista tive o privilégio de trocar muitas vezes ideias e colocar questões a especialistas que se dedicam a esta área. Por cá, o desconforto feminino em relação ao corpo era tema recorrente nas pacientes que passavam pelos seus gabinetes. Para além de situações como cenários de assédio ou violência sexual, comentários negativos feitos por parceiros ou as eternas comparações com as imagens vistas em contexto de pornografia, o peso do contexto sociocultural e religioso do nosso país tinha - e acredito que continua a ter - um peso gigante nisto.

A título de exemplo rápido para reflexão, continuamos a educar as meninas com frases como “as meninas não mexem aí” ou “as meninas não se sentam de pernas abertas”, como se realmente tivéssemos algo de muito secreto entre as pernas, e que deve permanecer escondido e intocado (mesmo por nós). Aos meninos é bastante comum fazerem-se graçolas quanto às suas ‘pilinhas’, agraciadas tal qual troféu de que se devem orgulhar. Um rapaz ser apanhado a masturbar-se na adolescência, em descoberta do seu corpo, é simplesmente normal. Com as raparigas, já não encaramos isto de forma tão leve ou linear. Tal como o início da vida sexual, que no caso das miúdas ainda está amiúde envolto na aura do bem precioso, do assunto sério e do divino (e, como sabemos, não se brinca com nenhuma destas coisas). As mulheres crescem e depois mal olham para a genitália, por outro lado, muitos são os homens que até agarram na sua quando é preciso demonstrar poder ou intimidar alguém (o habitual “toooooma”, vociferado com as mãos a mostrar o volume do que têm entre as pernas, é um belo exemplo).

Mas para além das questões do prazer, é importante percebermos que conhecer o nosso corpo na totalidade é absolutamente essencial. Por todos os motivos relacionados com o autoconhecimento, incluindo, é claro, a saúde. No ano passado, um estudo feito pela Eve Appeal (uma organização que se dedica à investigação sobre cancros ginecológicos) revelava que, num inquérito feito a cerca de mil mulheres britânicas, mais de metade não conhecia a sua genitália. Não sabia identificar o que era a sua vulva ou a sua vagina (já agora, a primeira é a parte externa e a segunda a parte interna), desconhecia o aspecto exterior, além de não ter noção da composição dos principais órgãos do seu aparelho reprodutor. É preocupante, no mínimo.

Como dizia Eve Lenser nos “Monólogo da Vagina”: “Preocupo-me com aquilo que se pensa sobre as vaginas, mas ainda me preocupo mais com o facto de não pensarmos nelas”. Nelas, e não naquilo que os outros poderão achar delas.