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Expresso

Um aplauso à barriga de Carolina Deslandes

O que aconteceu esta semana em torno da foto da barriga de Carolina Deslandes é um belíssimo espelho do que acontece a tantas mulheres em situação pós-parto: toda a gente parece ter alguma coisa dizer e, consequentemente, as recém-mamãs sentem-se uma merda nos seus corpos deformados. Até uma taróloga tem tempo de antena na televisão para, de repente, mandar bitaites sobre a saúde física e emocional de alguém que acabou de ser mãe. Quão ridículo tudo isto é? Mais: quão sintomático é da pressão que as mulheres enfrentam quanto à sua aparência?

Ainda não sou mãe, mas todos os relatos das mulheres que me rodeiam e que já o foram me levam a esta conclusão: se terem de se adaptar a uma nova vida que chega já foi duro, o pânico generalizado sobre as consequências que uma gravidez traz ao corpo e à auto-percepção de beleza não lhe fica atrás. À partida, isto até pode parece fútil, uma não-preocupação. Mas depois vemos o exemplo de Carolina, que mostrou ao mundo aquilo que ninguém parecer querer ver ou falar sobre, e percebemos melhor a razão desta exposição pública da sua barriga. Uma partilha que é de enorme coragem e sensibilidade, feita não só por si, mas por todas as mulheres que diabolizam a sua imagem corporal depois de dar à luz uma criança.

Já não basta passar-se toda uma gravidez com os inúmeros conselhos alheios quanto à importância de não se engodar muito (raramente se fala de saúde, mas sim de recuperar a linha, como se a beleza, a relação afetiva, a própria validação da mulher perante a sociedade, disso dependesse), como depois de passadas as primeiras semanas do parto, começa a pressão e a expectativa do emagrecimento. Digamos que quando se tem um recém-nascido em casa, se está em completo descontrolo hormonal, em adaptação ao ritmo daquela nova vida que agora marca o ritmo, a tentar descodificar como é que se comunica com aquele pequeno ser totalmente dependente, com mamas a latejar por causa do leite, mamilos doridos, e se tenta gerir tudo isto em constante privação de sono, a dieta e o ginásio não são certamente prioridades máximas. Contudo, há quem olhe para esta foto de Carolina Deslandes e a rotule de imediato como uma desleixada. que devia fazer algo urgentemente para recuperar o corpo que tinha antes da gravidez. Do alto do seu desconhecimento médico, dizia a taróloga Maya na tv: “Continuo a achar é que há aqui um problema implícito de saúde, emocional e psicológico, não sei. O que acho é que esta fotografia não pode servir de exemplo. Devia ter cuidados, vamos ver daqui a um mês”.

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Não querendo eu fazer futurologia, cheira-me que daqui a uma mês, muito provavelmente, Carolina continuará com uma barriga proeminente, estrias profundas, uma cicatriz bastante feia, o peito irreconhecível quando comparado ao que tinha antes da gravidez, com medo de se ver ao espelho porque tem dificuldade em lidar com a nova imagem corporal (por mais que até lhe cheguem palavras carinhosas em tom de validação por parte do parceiro), e a oscilar entre a felicidade e o amor maior que sente pelo seu bebé e o ódio irracional provocado pelo cansaço extremo e a privação de sono. A ser este o cenário, isto torná-la-ia uma mulher desleixada? Uma má mãe? Uma mulher horrível? Uma pessoa com problema com problemas psicológicos? Ou será que seria simplesmente humana? Daqueles seres, deveras comuns, para os quais não há uma regra de três simples no que toca à recuperação física de uma gravidez? Cheira-me que a última opção seria a resposta mais válida.

Três semanas depois do parto Carolina Deslandes está gorda e, por isso, provavelmente é desleixada e tem problemas, dizem as más línguas. Carolina Patrocínio, por exemplo, estava magra demais e era negligente por fazer exercício durante a gravidez. Segundo as tais más línguas, a criança não podia nascer saudável (por mais que os médicos dissessem o contrário). Estamos numa era pródiga em críticas descabidas no universo online, onde há sempre razões, espaço e legitimidade para apontar o dedo a quem nem sequer se conhece. Na bonita partilha feita no seu blogue, a artista dizia o seguinte: “Dei por mim a pensar “Serei eu a única pessoa a passar por isto?” Esta fase em que não caibo em roupa nenhuma ainda, em que a barriga ainda está enorme e cheia de riscas, em que não consigo ver-me numa única fotografia e em que ando a fugir de espelhos? Não me interpretem mal, não podia estar mais grata pela vida que tenho e pelos meus dois filhos maravilhosos. Têm sido os melhores anos da minha vida, mas têm sido também anos de desafios, de descoberta interior e de inseguranças e complexos. Isso mesmo”.

"É um dos momentos mais felizes da minha vida mas enquanto mulher sinto-me um destroço”

Tal como Patrocínio por causa da magreza, também no passado Deslandes tinha sido alvo de comentários sobre a sua forma física – mais uma vez, não só esta assunção generalizada de que os artistas têm de ter corpos de modelo para serem válidos nas suas carreiras, como o facto de continuarmos a achar que temos o direito de fazer juízos de valor e ofensas com base na aparência de alguém, sem que isso possa trazer consequências a quem as sofre. Carolina não tem vergonha em admitir: não ficou apenas triste nessa altura, ficou destroçada, sentiu-se enxovalhada, enfiou-se na cama a chorar e ganhou uma insegurança tal que começou a fugir dos espelhos. Não compreendo como alguém com um mínimo de sensatez não consegue perceber o lado pedagógico de uma partilha tão honesta quanto esta. Quantas e quantas mulheres fora da esfera pública passarão pelo mesmo, em silêncio? Quantas acharão que são as únicas a passar por isto? De que forma esta expectativa irreal sobre o que é a beleza e o que é suposto ser um corpo feminino belo e sensual nos afeta na nossa liberdade pessoal e autoestima? Seremos todas fracas quando nos deixamos influenciar por isto ou, lá está, seremos simplesmente humanas? Que exemplo continuamos nós a dar às adolescentes no que toca à percepção da imagem corporal que se quer perfeita, custe o que custar? Porque razão a validação da mulher continua a passar tanto pela sua aparência?

Lembro-me de há uns anos uma grande amiga me ter dito a seguinte frase, depois de dar à luz a segunda filha: "É um dos momentos mais felizes da minha vida mas enquanto mulher sinto-me um destroço”. Uma sensação de 'destroço' que se prolonga no tempo, tantas vezes ao longo de anos. Um ‘destroço’ escondido por baixo de roupas largas para afastar quaisquer olhares mais furtivos à nova realidade dos corpos. Há quem recupere rapidamente, mas há também quem não consiga. Cada mulher é uma mulher e cada corpo é um corpo. Não há nenhuma gravidez que seja igual a outra, tal como não há nenhuma recuperação que seja exatamente igual. Somos humanos, com todas as particularidades físicas, psicológicas, emocionais, económicas, sociais e demais fatores que influenciam o processo. Como escrevia

Carolina Deslandes em resposta a algumas críticas: “Aquilo que mostrei é o meu corpo. Não é igual ao teu, nem ao da tua irmã, nem tem de ser. O exemplo que quis passar foi esse. Relativamente à vossa saúde, cuidem dela e respeitem o tempo que cada um precisa para se restabelecer. Ah e relativamente à vossa saúde mental: tratem dela e aprendam a filtrar o que merece ser ouvido, e o que deve respeitosamente, ser ignorado”. É isso mesmo, Carolina, um aplauso à sua barriga e a toda a história que ela conta.