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Expresso

Hermione, uma lição mágica de feminismo

d.r.

Quando Harry Potter chegou ao mercado, eu já não era uma miúda. Mas escusado será dizer que, independentemente da minha idade, Hermione teve o condão de me encantar desde a primeira linha. Assertiva, irónica, inteligente, corajosa, perspicaz, confiante: tal como hoje é refrescante ver a Wonder Woman como protagonista de grande ecrã, numa mega produção, na altura foi uma lufada encontrar uma personagem feminina com todas aquelas características. Caraterísticas essas que, de uma forma ou de outra, continuavam – e continuam – a ser tantas vezes mal interpretadas quando fazem parte da personalidade de uma menina ou mulher.

Há vinte anos eu ainda mal sabia o que era isto do feminismo, e a minha perspicácia para perceber a importância de uma personagem assim - seguida e adorada por milhões de miúdos e graúdos mundo fora - estava longe de ser elevada. Contudo, houve um momento em que percebi que essa influência poderia ser interessante: aquele dia de Carnaval em que vi a minha priminha mais nova e muitas das suas coleguinhas de escola a quererem deixar de lado os seus habituais fatinhos cor-de-rosa de princesas, para se mascararem de pequenas feiticeiras. De varinha mágica em riste, nariz empinado em jeito de desafio e ar de quem não tem medo do que vier pela frente. Numa luta onde só o bem vale a pena como objetivo.

Há uma série de valores e de traços de personalidade de Hermione que, ao longo do seu crescimento, vi essa minha prima esforçar-se por replicar no seu desenvolvimento pessoal, de menina a mulher. A vontade de aprender e de querer chegar mais longe, a sede por conhecimento e a noção da importância do trabalho árduo, a coragem na defesa dos seus valores, o desafio à autoridade quando a situação assim o exige, a bondade, a feminilidade vivida sem pudor, com consciência de que não é isso que a torna menor.

Hermione desafia o papel que as mulheres têm na vida masculina

Ao longo da saga Harry Potter, foram muitas as mensagens subliminares que esta personagem passou a quem lia o livro ou via os filmes. Hermione desafia o habitual papel que as meninas e mulheres têm na vida masculina: surge sempre de igual para igual, muitas vezes até com capacidades intelectuais e físicas superiores aos rapazes, lado a lado com eles em todas as aventuras, desafios, perigos e alegrias. Hermione não é, contudo, vista ou tida como mais um rapaz do grupo, por mais que faça tudo, ou mais, do que os seus companheiros fazem. Hermione não queria ser rapaz. Era uma rapariga, confiante de si própria e de bem com todas as suas características femininas. Talvez porque tinha plena noção de que essas mesmas caraterísticas não a tornavam menos par neste trio fantástico. Aliás, a miúda sempre teve um papel de destaque no grupo.

d.r.

Hermione tinha talento, garra e muita força de vontade, algo que lhe permitiu conquistar a pulso o seu lugar ao sol. Era independente e não tinha medo de estar sozinha. Contudo, adorava e agradecia a companhia dos melhores amigos. Era forte, corajosa e determinada, mas também se emocionava sem que isso fosse um sinal de fraqueza. Foi salva pelos amigos, mas também os salvou em momento perigosos. E quando se apaixonou, não teve problemas em ser ela a dar o primeiro passo. Para lá do feminismo, há outra subtileza que vale a pena destacar: o facto de não ser uma “sangue puro” no que toca aos mundo dos feiticeiros, não a impedia de ser incrível. Uma mensagem clara às múltiplas discriminações vividas nos tempos de hoje, desde as de cariz racial, às diferenciações entre extratos sociais.

A escritora J. K. Rowling foi muito inteligente na forma como criou esta personagem. Que embora não seja a figura central do livro, tantas e tantas vezes ganhou contornos de protagonista. Aliás, se Hermione não estivesse ao seu lado (e estar ao lado é bem diferente de dizermos que “por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher”), muito provavelmente Harry não tinha conseguido superar os desafios que lhe surgiram ao longo da saga. Ao fim de tantas décadas de apologia ao sexo masculino como herói máximo e comum no universo fictício, é bom encontrarmos exemplos destes.

Dos filmes para a vida real, é também interessante que a atriz Emma Watson (que deu vida a Hermione) se tenha tornado na mulher que é hoje, como uma carreira em tudo tão diferente de outras figuras que crescerem no universo do estrelato infantil. Não tenho dúvidas: se quisermos falar de uma personagem fictícia que teve o condão de influenciar toda uma geração em crescimento – e outras tantas que, mesmo já em fase adulta, precisavam de uma lufada de ar fresco no que toca ao lugar da mulher na nossa sociedade – Hermione foi a personagem. É maravilhoso quando a ficção, com todo o seu encanto, também consegue fazer serviço público.

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