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Expresso

O problema dos homens de pernas abertas

O que é isto do manspreading? Resumindo, é o ato maioritariamente masculino de estar de pernas excessivamente abertas em bancos partilhados, no espaço público. Bancos partilhados? Sim, como os dos transportes, salas de espera, jardins, etc. Mas por que raio isso é um problema? Porque invade o espaço alheio. E Espanha foi o primeiro país a queixar-se? Não, já aconteceu antes em países como Canadá, Bélgica e Estados Unidos. E não achas exagerado? Não, acho que faz parte da evolução da sociedade. Porque és feminista? Também. Mas, acima de tudo, porque sou uma pessoa que preza o civismo.

A discussão não é nova, mas está desde há uns dias a dar que falar novamente. Porquê? Porque a Empresa Municipal de Transportes de Madrid lançou um comunicado oficial a anunciar que - tal como já aconteceu em Nova Iorque, por exemplo - vai passar a ter sinalização a alertar para o “manspreading” (vamos manter a expressão em inglês para facilitar). Um pictograma que visa "recordar a necessidade de manter um comportamento cívico e de respeitar o espaço de toda a gente a bordo do autocarro". Esta iniciativa surge depois de uma petição online, que recolheu quase 13 mil assinaturas em protesto contra o tal comportamento das pernas desproporcionalmente abertas, perpetuado maioritariamente por homens. Mas afinal, porque será que tantas pessoas se sentem incomodadas por um comportamento, à partida, tão inofensivo?

O roça-roça indesejado com as pernas de um desconhecido não tem piada

Acho que qualquer pessoa que já se viu na situação de ter de se encolher num banco de autocarro por causa das pernas de outrem que se alargam ao seu lado, sem pudor, sabe quão constrangedor e incómodo isto é. Escusado será também dizer quão desagradável e abusivo pode ser o tal do roça-roça de pernas indesejado, quando um estranho não consegue cingir-se ao seu espaço individual num banco partilhado. E quão desrespeitoso é ter alguém que literalmente quer lá saber se está a ocupar mais do que o espaço que lhe é devido, algo que devia fazer parte das regras básicas da educação. Em breve também teremos sinalética a alertar para o abuso das malas a ocupar um lugar vazio? Muito provavelmente, se assim se justificar.

No que toca especificamente a transportes públicos, a sinalética muito tem ajudado à evolução do civismo neste espaço partilhado. Desde os habituais alertas ao bom-senso no que toca a coisas tão simples quanto ceder lugar a pessoas com mobilidade reduzida, até à proibição de cuspir para o chão, de fumar nas estações de metro ou de comer dentro dos transportes públicos, muitos hábitos se foram alterando ao longo das últimas décadas. Para o bem comum, ou seja, para o conforto de todos os que têm de partilhar aquele espaço. Muitos destes hábitos eram também tidos, outrora, como totalmente inofensivos, e a crítica aos mesmo não passava de uma certa ‘frescura’ de quem não tinha mais nada com que se preocupar. A verdade é que os anos passam, e o que antes causava celeuma, hoje é algo aceite e compreendido por quase todos como parte da interação civilizada. O mesmo, acredito eu, deverá vir a acontecer com isto do manspreading.

A não ser que, anatomicamente, alguém seja portador de alguma anomalia, parece-me bastante claro que manter as pernas juntas não é um atentado ao bem-estar do aparelho sexual e reprodutor de ninguém. Se manter as pernas encostadas - ou ligeiramente afastadas – constituísse um perigo para a saúde masculina, quero acreditar que ao longo de história já alguma alminha teria criado bancos diferenciados, por exemplo, de acordo com tais necessidades físicas. Até ver, ninguém o fez. E olhem que isto do design até foi território maioritariamente masculino durante longas décadas.

Educação: as meninas devem fechar as pernas, os meninos nem por isso

Há uma base clara de falta de educação e de civismo quando nos depararmos com a tal situação de ter de lutar pelo espaço individual que nos é devido ao sentarmo-nos num assento público. Tal como é uma falta de educação se uma mulher fizer o mesmo, mas no que toca a pernas abertas, vamos direitinhos a uma questão sobre a qual ninguém gosta muito de falar: ‘mulher de respeito’ – seja lá isso o que for - não anda de pernas abertas em lado nenhum. Ou, pelo menos, é isso que nos dizem desde miúdas, como se tivéssemos um bem precioso que deve ser alvo de recato e de secretismo. A nossa vagina, carregada de cariz erótico e sexual aos olhos do mundo, deve estar bem escondidinha, como literalmente manda a tradição. Isto de andarmos de perna cruzada, como hábito feminino totalmente enraizado desde tenra idade, tem muito que se lhe diga, mas fica para outro texto.

Se pensarmos nestas subtilezas diárias do sexismo – e isto do manspreading, quer queiram, quer não, é uma delas – é muito curioso observarmos como continuamos a dizer às meninas coisas como “as meninas não se sentam assim” ou “não sejas porcalhona” se se sentar de pernas abertas. Já aos meninos, até somos capazes de fazer umas piadolas sobre quão “bem artilhados” são se andarem de perna aberta ou se coçarem os ditos cujos com a mão por dentro dos calções. Uma menina, lá está, é porcalhona. Um menino, lá está, é só menino.

O efeito que estas mensagens subtis têm em cada um dos lados, no seu desenvolvimento e percepção corporal e espacial, pode levar-nos, entre outras coisas, a atos como o manspreading. Rebuscado? A mim até me parece simples. Isto de andar de perna aberta, sem qualquer consideração pelo espaço ou desconforto alheio, é uma forma bastante básica de territorialidade, de hierarquia, de “eu quero, posso e mando”, por mais inconsciente que isto até possa ser. E isso ultrapassa o simples conceito de falta de educação.

Ter o cuidado de manter as pernas encostadas com vista a respeitar o espaço individual de cada um num banco partilhado, não custa nada, é indolor e faz a diferença. É assim tão difícil perceber isto? Pelos vistos sim, e é por isso que ainda é necessário recorrer a sinalética.