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Expresso

Feministas europeias: ruidosas e unidas

foto Associação Mulheres sem Fronteiras

“Estamos ainda longe de uma Europa onde todas as mulheres e raparigas possam viver uma vida livre de violência. 1 em cada 3 mulheres é vítima de violência masculina ao longo da sua vida. Um homem viola uma mulher a cada 8 minutos. Mulheres e raparigas estão capturadas pelos mercados de prostituição, são vítimas de mutilações genitais femininas e enfrentam assédio de rua todos os dias. Todas as formas de violência contra mulheres e raparigas têm o mesmo objetivo: silenciar as mulheres, mantê-las num lugar subordinado e perpetuar papéis hierárquicos entre mulheres e homens".

As palavras atrás são de Edith Schratzberger-Vecsei, Presidente do Lobby Europeu das Mulheres, a maior plataforma de associações dedicadas à defesa da igualdade de direitos entre homens e mulheres no nosso continente. Ao todo, são mais de 200 entidades envolvidas no LEM, e ontem todas elas saíram à rua em Bruxelas sob o lema “ Unidas e Ruidosas”. Porquê? Porque tal como foi dito neste encontro que juntou e levou à rua inúmeras pessoas, “estamos ainda longe de uma Europa onde todas as raparigas possam viver um vida livre de violência”. Voltando às palavras de Edith Schratzberger-Vecsei: "A violência contra mulheres e raparigas não é acidental, é estrutural. Depende de todos nós”. Depende mesmo.

foto Eleni Karaoli

Europa: sabiam que todas as semanas 50 mulheres são assassinadas por parceiros íntimos?

Ainda há dois dias escrevia por aqui sobre a importância de não metermos a cabeça debaixo da areia quando se fala nos índices de violência e de discriminação de género vividos no mundo ocidental. A Europa, por mais evoluída que seja em tantos aspetos, não é exceção. Os números podem ajudar-nos a perceber melhor isto, portanto aqui vão alguns dados oficiais sobre a realidade europeia, que merecem reflexão: sabiam que todas as semanas pelo menos 50 mulheres são assassinadas por parceiros ou ex-parceiros íntimos? Sabiam que 43% das mulheres da Europa já foram vítimas de violência ou psicológica dentro de relações de intimidade? E que em 95% dos casos de violência que acontecem dentro de casa, o agressor é do sexo masculino e a vítima do sexo feminino? Quanto ao tráfico humano, sabiam que existem neste preciso momento pelo menos 140 mil mulheres nessa situação dentro das fronteiras europeias?

Se quisermos ser mais precisos sobre a transversalidade da violência de género, há dados que também nos ajudam a perceber isto: 5 em cada 6 mulheres austríacas têm medo de denunciar situações de violência doméstica. Na Suécia, 4 em cada 5 mulheres foram alvo de assédio sexual a partir dos 15 anos de idade. Na Holanda, 1 em cada 10 mulheres já foram violadas. No Reino Unido, 85% da população feminina, com idades entre os 18 e os 24 anos, já foram vítimas de assédio sexual, sendo que 45% deste casos contemplaram contacto físico não consentido. Em França, a cada 7 minutos que passam, uma mulher é alvo de abuso sexual. (Se quiserem ter acesso a mais números cliquem AQUI)

Posto isto, acho que não sobram dúvidas sobre a necessidade de continuarmos a erguer as nossas vozes em prol de uma Europa – e de um mundo! - mais segura para todos, homens e mulheres. A Comissão Europeia declarou 2017 como o ano da luta contra a violência sobre o sexo feminino e o LEM, não só aplaude a iniciativa, como promete não cruzar os braços quanto a exercer pressão para que as ações propostas sejam realmente concretizadas. Entre os pedidos que estão em cima da mesa, está a ratificação e implementação da Convenção de Istanbul, o primeiro tratado juridicamente vinculativo na Europa que criminaliza as diferentes formas de violência contra mulheres, incluindo a violência doméstica. Como diria Iliana Balabanova-Stoicheva, vice-presidente da LEM, “a violência contra mulheres e raparigas acontece todos os dias, em todos os lugares. É uma questão europeia, que exige uma resposta europeia. E esta resposta não pode ser apenas uma reforma, é necessário que traga mudanças reais".

E porque nunca é demais ouvir as palavras sábias de Gloria Steinem, deixo-vos para reflexão as declarações feitas ontem pela ativista feminista durante o evento em Bruxelas: "Mais do que a pobreza, os recursos naturais, a religião ou o grau de democracia, a violência contra as mulheres é o indicador mais confiável para se saber se uma nação será violenta em si mesma ou se usará a violência contra outro país - e a violência de género tornou-se tão grande que, pela primeira vez, há hoje menos mulheres na terra do que homens". Bom fim de semana.