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Expresso

A cultura de violação está no meio de nós

Tudo nesta história é chocante: uma mulher sai de casa à noite com uma criança nos braços, após uma discussão violenta com o marido. Procura um meio de transporte para tentar chegar a casa dos pais, mas acaba por ser atacada por três homens, que a violam em grupo dentro de um táxi. A bebé de seis meses foi atirada pela janela quando começou a chorar. A mulher sobreviveu às agressões, a criança não. Esta história de horror teve lugar em Deli, na semana passada. Mas será que estes casos de violência extrema sobre as mulheres acontecem só na Índia? Não, não mesmo.

Todos sabemos que a Índia é um país bastante complexo e perigoso quando se nasce com o sexo feminino. Os índices de violência doméstica, por exemplo, são altíssimos, tal como os registos de abusos sexuais sobre mulheres e meninas. Só em Deli, anualmente acontecem mais de 2000 casos de violência sexual. Às autoridades chegam, em média, seis por dia, mas a realidade deverá ser bem maior. No país, de acordo com dados de 2015, foram reportados mais 40 mil só naquele ano, e na larga maioria dos casos, a vítima conhecia o violador. Ainda no mês passado, por exemplo, uma rapariga foi encontrada morta, após ter sido violada pela ex-namorado que, despeitado pelo fim da relação, a matou com pancadas de tijolo na cabeça.

É fácil e preguiçoso e dizer que estas coisas só acontecem em países com forte cultura patriarcal. Em nações onde o peso da religião e da tradição ainda falam mais alto do que os direitos humanos e, particularmente, os das mulheres, que são vistas como cidadãos de segunda. Mas da Índia para o mundo Ocidental, é importante percebermos quão comuns são as agressões físicas feitas as mulheres, principalmente os abusos sexuais.

Violação em grupo como forma de team building

Ainda na semana passada, uma mulher londrina, de 34 anos, foi abordada por quatro homens, que a acabaram por violar em grupo, algures num beco de em Convent Garden. Há menos de um mês, uma jovem turista foi encontrada em estado de choque em Palermo, após ter sido violada por um falso taxista que a transportava de uma zona para a outra da cidade. No final de maio, chegou às autoridades de Avintes o caso de uma senhora de 70 anos, violada dentro da sua própria casa por um jovem homem de 25 anos que invadiu a residência para a roubar. No início do mesmo mês, no Rio de Janeiro surgiu também o vídeo de um grupo de cinco rapazes que violavam, à vez, uma miúda de doze anos. E nos Estados Unidos, a universidade de Baylor volta a ser processada por alegados casos de violações coletivas praticadas pelos membros da sua equipa de futebol, que usam estes abusos sexuais feitos em grupo, sempre a raparigas previamente drogadas, como forma de ‘team building’.

Não tenho qualquer prazer em estar a descrever aqui um rol de atrocidades como estas, mas de vez em quando é preciso pararmos e percebermos que não, isto não acontece só naqueles países considerados altamente perigosos para se nascer mulher. Se espreitarmos os dados oficiais das Nações Unidas, percebemos a dimensão disto: embora eliminar todas as formas de violência sobre meninas e mulheres seja um objetivo global assumido desde 1993, nos tempos que correm 1 em cada 3 pessoas do sexo feminino continuam a ser alvo de algum tipo de violência física ou sexual algures nas suas vidas.

A cultura de violação e do domínio por via da agressão está no meio de nós. Vive lado a lado connosco, aparece diariamente nas notícias, e não podemos ficar indiferentes à sua existência. Quando alguém vos disser que o feminismo não faz sentido nenhum nos tempos de hoje, lembrem-se desta meia dúzia de casos. Podiam ter sido as vossas amigas, irmã, namoradas, mulheres, mães, avós.