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Expresso

A marcação de território do macho ressabiado

d.r.

Volta não volta, vou com a minha cadela ao parque do Arco Cego e dou por mim a observar o comportamento dos canídeos que por lá andam. Um muito comum entre os machos é a marcação de território. Alçar a pata e mijar para uma árvore, uma parede ou outra superfície é o modus operandis do costume (por mais que possa soar demasiado calão, vamos usar a palavra “mijar” neste texto porque, na realidade, ninguém usaria o verbo “urinar” ou a expressão “fazer xixi” se estivesse a falar sobre isto). Ora bem, isto é um comportamento maioritariamente dos machos, todos sabemos. E o que os leva a fazê-lo também é relativamente simples: estabelecer a hierarquia e, com isto, a posição de poder entre os restantes. E, ao que parece, entre canídeos isto funciona.

Agora – em pleno maio de 2017 - passemos dos cães para os humanos, e do Campo Grande para o distrito financeiro de Manhattan. Achava eu que isto de alçar a pata e mijar para cima de alguma coisa em jeito “mostrar quem manda aqui” era um comportamento exclusivo ao reino animal, mas o artista plástico Alex Gardega acaba de fazer literalmente o mesmo, no coração de Nova Iorque. E sobre quem é que ele decidiu mijar? Em cima da estátua da Rapariga Destemida, que em março deste ano foi colocada em frente ao famoso Touro de Wall Street.

A Rapariga e o Touro, uma história de desigualdade

Vamos por partes, para percebermos melhor tudo isto: sem me querer alongar muito, basicamente o famoso Touro de bronze foi instalado naquela zona no final dos anos 80, numa apologia à força e poder do pungente mercado financeiro norte-americano. O símbolo idealizado por Arturo di Modica passou por um animal de grande porte, feroz, destemido e, sem surpresas, do sexo masculino. Uma boa analogia a quem mandava – e ainda manda – nos negócios e decisões do país. Quase 28 anos depois, em plena celebração do Dia da Mulher, foi instalada em frente ao Touro uma estátua de bronze, com uma Rapariga de mãos nas ancas, queixo erguido e cabelo ao vento, que enfrenta o animal, sem medos.

A peça foi idealizada por uma mulher (Kirsten Visbal) para a Mccan, sob encomenda da State Street Global Advisors. Estratégias de marketing e lucros à parte para a SSGA, a mensagem inerente à estátua foi assumida, e é deveras pertinente: chamar à atenção para a desigualdade de género no mercado financeiro americano, um universo onde a paridade continua a ser um problema. Promover a necessidade de um recrutamento mais abrangente, alertar para a pouca abertura à entrada de mulheres nos altos cargos e abrir a discussão pública sobre a discrepância salarial entre géneros, foram metas desta Rapariga Destemida.

A estátua que inicialmente tinha licença oficial para apenas 10 dias de exposição pública, acabou por ver esse prazo alargado a um ano. Na palavras do autarca de Nova Iorque, Bill de Blasio, a Rapariga Destemida representa a capacidade de enfrentar “o medo, o poder e a força”, sendo, portanto, uma mensagem positiva para todos. Mas pelos vistos, para Alex Gardega isto não é assim tão simples.

Já em março, Arturo di Modica – autor do Touro - não tinha achado piada à Rapariga Destemida, e garantiu que ia processar a SSGA por violação dos seus direitos de autor. Gardega, por seu lado, decidiu agora responder com uma terceira estátua: um cão a alçar a pata e – lá está – a mijar em cima da figura feminina. Em cima do touro é não fazia sentido algum, aliás, como o próprio Gardega assumiu publicamente, “aquele touro tem integridade”. Já a miúda, nem por isso. Nem, claro está, a mensagem poderosa que ela tem vindo a passar às massas.

O objetivo do Cão é “rebaixar” a Rapariga, diz ele

As críticas foram tantas que a estátua do pequeno Pug não resistiu mais de três horas na ruas de Nova Iorque. Em sua defesa, o artista explicou que a intenção era criticar a hipocrisia daqueles que financiaram a estátua da rapariga. "Não tem nada a ver com feminismo e desrespeita o artista que fez o touro", argumentou ao New York Post. Ironicamente, a parte em que ele próprio está a desrespeitar o artista ao pôr lá uma estátua sem autorização também lhe parece escapar, mas enfim. Para completar o raciocínio, aqui ficam as palavras de Gardega: "Decidi fazer o cão para rebaixar a estátua [da rapariga] exatamente como ela rebaixa o touro".

É aqui que isto se torna ainda mais interessante, pelos piores motivos: a resposta a uma figura feminina que desafia – e desafiar não significa rebaixar, parece-me claro - o poder instituído e os hábitos seculares do eterno ‘clube de cavalheiros’, é mijar-lhe em cima. Ela luta pela importância de uma maior consciência coletiva para a igualdade de direitos e oportunidades no mundo financeiro. O cão – macho - mija-lhe em cima para a “rebaixar”, verbo usado pelo próprio artista. Por mais voltas que se dê, voltamos sempre ao mesmo: ao desagrado de boa parte do universo masculino quando confrontado com esta realidade incómoda da desigualdade entre géneros. E à manifestação do poder e da marcação do seu território através do menosprezo, da humilhação e do desrespeito.

Se o intuito era criticar a hipocrisia empresarial que o investimento da SSGA na Rapariga Destemida até pode representar – e quanto isto Gardega tem, em parte, razão - então eu diria que esta foi uma forma mesmo muito mal escolhida para o fazer. Pouco inteligente, misógina e despropositada. Tristemente sintomática daquilo com que as mulheres ainda têm de lidar.